A União Europeia (UE) anunciou uma parceria digital estratégica com o Brasil, iniciativa que coloca o País em um grupo restrito de apenas cinco parceiros globais do bloco na área de tecnologia. O acordo amplia a cooperação bilateral em temas como inteligência artificial (IA), governança de dados, conectividade, infraestrutura digital e plataformas on-line, em um momento em que Bruxelas busca fortalecer sua autonomia tecnológica e diversificar alianças internacionais.
O anúncio foi feito pela vice-presidente executiva da Comissão Europeia para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, Henna Virkkunen, durante o encerramento do Web Summit Rio 2026. Com a adesão brasileira, o País passa a integrar um seleto grupo composto também por Japão, Coreia do Sul, Cingapura e Canadá, considerados parceiros estratégicos da União Europeia para o desenvolvimento de tecnologias e serviços digitais.

“Este será nosso quinto acordo de parceria digital. Queremos aprofundar a cooperação com parceiros confiáveis, criar melhores oportunidades para empresas dos dois lados e fortalecer nossa colaboração em tecnologias”, afirmou Virkkunen.
A formalização do acordo ocorreu na última sexta-feira 12, durante agenda da comissária europeia em Brasília. A programação inclui reuniões com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ministros do governo federal e representantes de órgãos públicos envolvidos em políticas de transformação digital.
A iniciativa está alinhada à estratégia europeia de fortalecimento da chamada soberania tecnológica. Na semana passada, a Comissão Europeia apresentou um amplo pacote de medidas voltadas ao desenvolvimento de capacidades próprias em áreas consideradas críticas, como computação em nuvem, semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura digital.
A preocupação do bloco decorre da elevada dependência externa em segmentos estratégicos. Atualmente, cerca de 80% dos produtos e serviços digitais utilizados na União Europeia são fornecidos por empresas sediadas fora do continente. No mercado europeu de computação em nuvem, companhias norte-americanas como Microsoft, Amazon e Google concentram aproximadamente 70% da oferta, cenário visto por Bruxelas como uma vulnerabilidade estratégica.
Segundo Virkkunen, o conceito de soberania tecnológica não está associado ao isolamento econômico, mas à construção de capacidades próprias combinadas com a ampliação de relações com parceiros considerados confiáveis.
“Soberania tecnológica não significa isolamento nem protecionismo, mas ter capacidade própria em áreas críticas e, ao mesmo tempo, trabalhar com parceiros confiáveis”, afirmou.
Além da cooperação regulatória, a parceria deverá abrir caminho para projetos conjuntos de pesquisa, inovação e investimentos. A agenda inclui discussões sobre segurança cibernética, proteção de menores no ambiente digital, desenvolvimento de serviços públicos digitais interoperáveis e possíveis integrações futuras em áreas como identidade digital e assinaturas eletrônicas.
A escolha do Brasil, segundo a representante europeia, reflete tanto o tamanho do mercado nacional quanto a convergência de princípios entre Brasília e Bruxelas. Com cerca de 160 milhões de usuários de internet, o País é visto como um dos maiores mercados digitais do mundo e compartilha, na avaliação da Comissão Europeia, compromissos relacionados a mercados abertos, tecnologias seguras e governança baseada em regras.
“O Brasil compartilha muitos dos valores da UE. É um País comprometido com mercados abertos, tecnologias seguras e uma ordem internacional baseada em regras. Além disso, vemos um enorme potencial econômico no mercado digital brasileiro”, disse Virkkunen.
O anúncio ocorre em meio a um debate mais amplo sobre o posicionamento da América Latina na corrida global pela inteligência artificial. Durante o Web Summit Rio, especialistas defenderam que a região possui oportunidades relevantes para ampliar sua participação no setor, embora ainda enfrente limitações estruturais em comparação com Estados Unidos e China.
Para Alexey Milovidov, cofundador e diretor de tecnologia da ClickHouse, iniciativas como o projeto LatamGPT representam um passo importante para a construção de conhecimento regional em inteligência artificial generativa. O executivo defendeu maior investimento em tecnologia e inovação para aproveitar o capital humano formado por universidades e centros de pesquisa latino-americanos.
A mesma avaliação é compartilhada por Rodrigo Durán, gerente-geral do Centro Nacional de Inteligência Artificial (Cenia), responsável pelo desenvolvimento do LatamGPT. Para ele, além da criação de modelos próprios de IA, a América Latina deve concentrar esforços na aplicação prática dessas tecnologias em setores produtivos e serviços, estratégia que tem sido adotada com sucesso por economias como a chinesa.
Ao estreitar sua cooperação com a União Europeia, o Brasil amplia sua inserção em uma agenda global cada vez mais orientada por tecnologia, inovação e segurança digital. Para Bruxelas, a parceria representa mais um passo na construção de uma rede internacional voltada à redução de dependências tecnológicas e ao fortalecimento de cadeias consideradas resilientes em um ambiente geopolítico cada vez mais competitivo.