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Geopolítica

Tensões expõem desgaste entre Trump e Netanyahu

Divergências sobre a condução da guerra no Oriente Médio e pressões políticas internas ampliam atritos entre os líderes dos Estados Unidos e de Israel
Por O Correio de Hoje
12/06/2026 | 14:15

A relação entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Embora os dois líderes permaneçam aliados estratégicos, as divergências sobre a condução dos conflitos no Oriente Médio passaram a se manifestar publicamente e revelam um cenário de crescente desgaste político e diplomático.

Nos últimos dias, Trump alternou posições sobre a guerra envolvendo Irã, Israel e grupos armados da região. Em menos de 24 horas, o presidente americano passou de sinais de aproximação diplomática para declarações favoráveis a ações militares e ameaças de retomada de operações de alta intensidade. Paralelamente, suas críticas a Netanyahu ganharam destaque e evidenciaram um nível incomum de tensão entre Washington e Tel Aviv.

Trump e Isarel
Insistência de Netanyahu em atacar o sul do Líbano tem atrapalhado os planos de Trump de encerrar a guerra - Foto: Reprodução

Segundo relatos divulgados pela imprensa americana e por fontes ligadas ao governo dos Estados Unidos, Trump demonstrou irritação com a postura do líder israelense em diferentes ocasiões. No início do mês, teria chamado Netanyahu de “louco” após ataques israelenses contra o Líbano. Dias depois, em entrevista ao Financial Times, afirmou que era ele quem “dava as cartas” sobre os rumos da guerra e que o premiê israelense teria de aceitar as decisões tomadas por Washington. Em ambos os episódios, Israel prosseguiu com ações militares pouco tempo depois.

Para analistas internacionais, o atrito reflete interesses distintos entre os dois governos. Enquanto Trump busca uma solução que possa ser apresentada como vitória diplomática e reduzir os custos políticos da guerra, Netanyahu demonstra disposição para ampliar a ofensiva militar contra adversários regionais, especialmente o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã e considerado uma das principais ameaças à segurança israelense.

“O presidente está dialogando simultaneamente com três públicos diferentes: Israel, sua própria base política e a ala mais intervencionista do Partido Republicano”, avalia o professor Carlos Gustavo Poggio, especialista em política americana.

Na avaliação dos especialistas, a crescente complexidade do conflito, os custos geopolíticos para os Estados Unidos e a resistência israelense a determinados acordos negociados por Washington contribuíram para ampliar as divergências. Além das dificuldades diplomáticas, Trump também enfrenta um ambiente político doméstico mais desafiador.

Pesquisas recentes mostram aumento da rejeição à condução da guerra. Levantamento da Reuters/Ipsos indicou que a desaprovação ao presidente alcançou 62%, percentual próximo ao registrado entre os americanos que consideram equivocada a participação dos Estados Unidos no conflito com o Irã, índice que chegou a 64%.

“Trump está sentindo que está perdendo apoio, inclusive dentro do Congresso. Ele também percebe desgaste entre setores importantes da base Maga por causa da guerra”, afirma Gunther Rudzit, da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

A mudança de humor da opinião pública americana em relação ao Oriente Médio é apontada como um dos fatores centrais dessa pressão. Pesquisa realizada pelo Gallup revelou uma alteração significativa na percepção dos americanos sobre o conflito israelense-palestino. Pela primeira vez, o percentual de entrevistados que declarou ter mais simpatia pelos palestinos superou o grupo que afirmou apoiar mais os israelenses.

O movimento é especialmente forte entre eleitores democratas, mas também avança entre independentes e republicanos. Entre os simpatizantes do Partido Republicano, a parcela que afirma ter maior identificação com os palestinos cresceu de forma relevante em relação ao ano anterior.

Analistas observam ainda o surgimento de uma corrente mais crítica a Israel dentro do próprio campo conservador americano, fenômeno historicamente pouco expressivo. Pesquisas recentes mostram que eleitores republicanos mais jovens passaram a questionar com maior intensidade o apoio militar e financeiro concedido a Tel Aviv.

Levantamento divulgado pelo Siena College e pelo The New York Times apontou que mais da metade dos republicanos com até 44 anos acredita que o governo americano apoiou Israel além do necessário. Apenas uma parcela minoritária desse grupo se mostrou favorável à ampliação da ajuda econômica e militar ao país.

Apesar das tensões, especialistas descartam uma ruptura entre Estados Unidos e Israel. As duas nações mantêm uma relação estratégica construída ao longo de décadas e sustentada por cooperação militar, tecnológica e diplomática.

Ainda assim, a guerra atual tornou mais visíveis as diferenças entre os objetivos de Washington e Tel Aviv. Um dos principais pontos de divergência envolve a inclusão da frente de combate contra o Hezbollah, no Líbano, dentro das negociações mais amplas relacionadas ao Irã. Enquanto os americanos buscam limitar a expansão do conflito, o governo israelense vê a atual conjuntura como oportunidade para enfraquecer de forma decisiva grupos considerados ameaças existenciais.

A situação também possui implicações políticas para Netanyahu. O premiê anunciou recentemente que disputará a reeleição e enfrenta pressões internas relacionadas aos rumos da guerra e à segurança nacional.

Segundo Gunther Rudzit, os acontecimentos recentes já produzem efeitos sobre a capacidade de influência do líder israelense junto à Casa Branca.

“Netanyahu já percebeu que, depois dessa guerra, a influência dele sobre Trump, caso ele permaneça no poder, será menor. E isso vale também para qualquer outro líder israelense perante os Estados Unidos”, afirma.

Sinais dessa percepção surgiram inclusive em declarações recentes do próprio premiê. Em entrevista à emissora CBS, Netanyahu afirmou que pretende reduzir gradualmente a dependência da ajuda militar americana, atualmente estimada em US$ 3,8 bilhões por ano, até eliminá-la no futuro.