Em meio ao desenvolvimento da terceira temporada de Ted Lasso, série que conquistou público e crítica ao misturar esporte, humor e emoção, o ator, roteirista e comediante Brett Goldstein começou a discutir com o produtor e cocriador Joe Kelly uma percepção que ambos compartilhavam: a falta de grandes comédias românticas contemporâneas.
Durante uma viagem de trem de volta para casa, os dois passaram a trocar ideias sobre um projeto que pudesse resgatar elementos clássicos do gênero, mas com uma abordagem mais atual. O resultado foi o embrião de Paixão de Escritório, produção disponível na Netflix e estrelada por Jennifer Lopez e pelo próprio Goldstein.

Segundo o ator britânico, a proposta era criar uma obra que homenageasse as comédias românticas tradicionais sem abrir mão de um humor mais afiado. Ao mesmo tempo, a história deveria funcionar como uma celebração dos profissionais que dedicam grande parte de suas vidas ao trabalho.
“Pensamos assim: quem é a melhor atriz para fazer isso? E nós dois dissemos ao mesmo tempo: a J.Lo, obviamente”, contou Goldstein.
A escolha de Jennifer Lopez não foi por acaso. Ao longo de mais de duas décadas, a artista construiu uma trajetória sólida dentro do gênero, estrelando produções como O Casamento dos Meus Sonhos, Encontro de Amor e A Sogra, além de trabalhos mais recentes, como Uma Nova Chance e Case Comigo.
Admirador declarado da atriz, Goldstein revelou que ele e Kelly enviaram o roteiro diretamente para Lopez acompanhado de uma mensagem incomum.
“Enviamos o roteiro para a Jennifer com um bilhete que dizia: ‘Escrevemos isso para você. Você está no topo da nossa lista. É uma lista de uma pessoa só. Se você não fizer este filme, nós nunca o faremos. Sem pressão’”, lembrou.
A resposta, porém, não veio imediatamente. Jennifer Lopez revelou que precisou recusar o convite inicialmente devido a compromissos profissionais já assumidos. Ainda assim, a identificação com o projeto foi instantânea.
Fã de Ted Lasso, ela já acompanhava o trabalho de Goldstein, especialmente o personagem Roy Kent.
“Eu fiquei tipo: ‘Meu Deus, sim. Eu amo o Roy Kent’”, disse.
Posteriormente, os conflitos de agenda foram resolvidos e a atriz assinou contrato para protagonizar o longa.
Em Paixão de Escritório, Lopez interpreta Jackie Cruz, poderosa diretora-executiva de uma companhia aérea. Já Goldstein vive Daniel Blanchflower, integrante da equipe jurídica da empresa. O relacionamento entre os dois surge em meio a um ambiente corporativo rígido, marcado por uma política interna que proíbe romances entre funcionários e por uma disputa judicial que ameaça comprometer suas carreiras.
Embora o casal formado por Lopez e Goldstein pudesse parecer improvável à primeira vista, a sintonia entre os dois acabou se tornando um dos elementos centrais do projeto.
Ao comentar a escolha da atriz, Goldstein destacou que a personagem apresenta características diferentes das protagonistas tradicionalmente interpretadas por ela.
“Sendo bem sincero, é uma loucura que isso tenha realmente acontecido. Aceito que é um absurdo, mas sentia que o roteiro era bom. Há uma diferença neste filme em comparação com outras comédias românticas de Jennifer: em todas as outras, ela é uma inspiração, uma espécie de azarão. Nesta, ela é a chefe. Ela tem tudo, tecnicamente, mas algo está faltando na sua vida.”
Lopez afirmou que um dos aspectos que mais a atraíram foi justamente a complexidade da protagonista.
“O que eu gostei é que os outros personagens a entendem mal. Ela é uma mulher forte e intimidadora, mas confundem isso com ela ser um monstro. A verdade é que, quando você a conhece, como Daniel a conhece, percebe: ‘Você é a pessoa mais engraçada, boba e adorável do mundo’. Eu me identifiquei muito com isso.”
A atriz também fez um paralelo entre a experiência da personagem e situações vividas por ela própria ao longo da carreira.
“Cem por cento. Isso a deixa louca, porque você fica tipo: ‘Dá para relaxar? Estou bem. Eu não mordo’. Só porque as pessoas a veem como essa figura pública, é quase como se você fosse um personagem bidimensional.”
Goldstein relembrou que, apesar da confiança na escolha da atriz, havia um grau inevitável de incerteza antes do início das filmagens.
“Soube instantaneamente, na nossa primeira conversa pelo Zoom, quando estávamos rindo. Foi fácil. Foi bom.”
O ator também revelou que jamais cogitou escalar outro intérprete para viver o interesse amoroso da protagonista.
“Eu não teria deixado mais ninguém fazer esse papel. Nunca houve outra opção.”
Jennifer Lopez respondeu em tom de brincadeira:
“Para que escrever o filme, então?”
Goldstein rebateu:
“Se não fosse assim, por que eu faria esse filme?”
Além dos bastidores da produção, os dois falaram sobre o apelo permanente das histórias românticas e sobre a razão de o gênero continuar atraindo público mesmo diante das transformações da indústria audiovisual.
Para Lopez, a busca pelo amor continua sendo uma das motivações centrais da experiência humana.
“Não há nada mais importante na vida do que o amor. É o que todo mundo quer no final das contas. Eles querem alguém para envelhecer juntos, que os ame e os aceite, e é isso que as comédias românticas oferecem: aquele ‘felizes para sempre’ que todo mundo espera.”
Goldstein compartilha visão semelhante.
“É a única coisa com que me importo. É por isso que você chora. É por isso que você se envolve com a história.”
A atriz acredita que o gênero está longe de perder relevância, especialmente entre os mais jovens.
“Acho que nunca vai sair de moda. É isso que os humanos querem, e eles amam assistir a isso acontecer.”
Ao serem questionados sobre suas versões atuais do conceito de “felizes para sempre”, ambos apresentaram respostas pessoais. Goldstein mencionou o filme Eternidade como uma reflexão interessante sobre o amor duradouro.
Já Jennifer Lopez falou sobre o processo de autoconhecimento construído após relacionamentos e casamentos que não tiveram o desfecho esperado.
“Para mim, como já tive relacionamentos e fui casada algumas vezes e não deu certo, percebi que a minha felicidade depende de eu me tornar mais consciente de mim mesma e mais confortável com o fato de que eu faço a minha própria felicidade.”