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Reino Unido

Extremistas tensionam Reino Unido

Especialistas apontam que ataques isolados têm sido usados por grupos de extrema direita para mobilizar protestos e ampliar a polarização política
Por O Correio de Hoje
15/06/2026 | 14:27

O Reino Unido enfrenta uma escalada de episódios de violência associados à extrema direita, em um cenário marcado pela rápida disseminação de desinformação nas redes sociais, pelo aumento da polarização política e pela crescente hostilidade contra imigrantes. Especialistas apontam que ataques violentos isolados têm sido transformados em catalisadores de protestos e distúrbios, alimentados por narrativas que circulam no ambiente digital e rapidamente se convertem em mobilização nas ruas.

Nos últimos dez dias, dois episódios de violência com faca na Inglaterra e na Irlanda do Norte desencadearam reações que seguiram um padrão já identificado por pesquisadores que monitoram extremismo e desinformação. O processo costuma começar com um crime de grande repercussão, seguido pela circulação de versões distorcidas dos fatos em plataformas digitais e pela exploração política do episódio por grupos e lideranças alinhados a pautas anti-imigração.

Manifestantes ingleses Copia
Extremistas de direita em confronto com a polícia na Irlanda do Norte - Foto: Reprodução / internet

Na Irlanda do Norte, confrontos violentos ocorreram em Belfast após um ataque registrado na última segunda-feira 8, que deixou um homem gravemente ferido. Um vídeo do incidente ganhou ampla circulação nas redes sociais e mostra o refugiado sudanês Hadi Alodid atacando Stephen Ogilvie, que sofreu ferimentos graves, perdeu um olho e permanece hospitalizado em condição estável.

A repercussão do caso desencadeou dois dias consecutivos de tumultos. Manifestantes incendiaram veículos e propriedades, atacaram policiais e promoveram atos de intimidação contra moradores pertencentes a minorias étnicas. Segundo as autoridades, 12 agentes de segurança ficaram feridos e 16 pessoas foram presas durante os distúrbios.

O governo britânico condenou os episódios e classificou os ataques como manifestações de violência racista. O ministro responsável pela Irlanda do Norte, Hilary Benn, afirmou que comunidades inteiras foram submetidas a um ambiente de medo e intimidação.

“Isso é banditismo racista, não há dúvida”, declarou o ministro à emissora Sky News.

O caso ocorreu poucos dias após outra onda de protestos violentos em Southampton, na Inglaterra. Na ocasião, a divulgação de um novo vídeo relacionado ao assassinato de um estudante universitário de 18 anos, ocorrido em dezembro, reacendeu tensões sociais e gerou mobilizações alimentadas por informações falsas e acusações sem comprovação envolvendo questões raciais.

Para especialistas, o fenômeno tornou-se recorrente. Ciarán O’Connor, analista sênior do Instituto para o Diálogo Estratégico, organização dedicada ao monitoramento de extremismo, desinformação e discursos de ódio, afirma que os episódios seguem um roteiro previsível.

“Existe um roteiro. Um incidente de violência como esse é identificado e rapidamente amplificado não apenas por um ecossistema doméstico, mas por um ecossistema global, transnacional e de ultradireita, que usa esses incidentes para absorvê-los em sua própria narrativa internacional”, afirmou.

Segundo ele, a dinâmica tornou-se “alarmantemente familiar e até previsível”, impulsionada pela capacidade das redes sociais de transformar acontecimentos locais em instrumentos de mobilização política em escala internacional.

Pesquisadores observam que o Reino Unido não é um caso isolado. O mesmo padrão vem sendo identificado em diferentes países europeus e nos Estados Unidos, onde partidos e movimentos de extrema direita têm ampliado sua influência política utilizando temas ligados à imigração, segurança pública e identidade nacional.

Na Alemanha, integrantes da Alternativa para a Alemanha (AfD) são frequentemente citados em estudos sobre o uso político de episódios de violência envolvendo estrangeiros. Fenômeno semelhante é observado na atuação do Reunião Nacional, na França.

A professora de Ciência Política da Universidade de Cardiff, Marta Lorimer, avalia que a fronteira entre mobilização digital e ação no mundo real está cada vez mais difusa.

“Passamos de alimentar o ódio on-line para levá-lo às ruas de diversas maneiras”, afirmou. “Estamos testemunhando uma crescente indistinção entre o mundo on-line e o que acontece no mundo real, e parte do problema é que a classe política parece não saber muito bem como lidar com isso.”

A pesquisadora destaca que o Reino Unido possui uma vulnerabilidade específica por compartilhar o idioma inglês com os Estados Unidos, o que facilita a circulação de conteúdos produzidos por grupos extremistas internacionais. Um exemplo citado foi a atuação do empresário Elon Musk, que utilizou a rede social X para incentivar manifestações em Belfast.

Musk compartilhou publicações promovendo protestos e repercutiu conteúdos divulgados por Tommy Robinson, ativista britânico anti-islâmico que acumula condenações criminais e é uma das figuras mais influentes da extrema direita no país.

O crescimento dessas mobilizações também tem reflexos no cenário político. O líder do partido Reform UK, Nigel Farage, utilizou os recentes ataques para reforçar seu discurso contrário à imigração. O partido ampliou sua presença política após vitórias em eleições locais realizadas recentemente e aparece com destaque em pesquisas de intenção de voto no Reino Unido.

Para Sundar Katwala, diretor do centro de estudos British Future, episódios de grande repercussão têm sido utilizados por setores políticos como oportunidades para consolidar apoio entre eleitores que defendem posições mais duras sobre imigração.

Dados oficiais mostram que aproximadamente 500 homicídios foram registrados no Reino Unido no último ano. Especialistas observam, contudo, que apenas parte desses crimes ganha dimensão política e capacidade de mobilização social, geralmente quando os fatos podem ser incorporados a narrativas que associam violência à presença de imigrantes.

As autoridades regulatórias também enfrentam dificuldades para conter a disseminação de conteúdos enganosos. A Ofcom, órgão regulador britânico das comunicações, advertiu plataformas digitais sobre a obrigação de impedir a circulação de conteúdos ilegais capazes de estimular violência e desordem pública. Apesar disso, pesquisadores afirmam que as medidas adotadas até o momento têm sido insuficientes para reduzir a velocidade de propagação de mensagens incendiárias.

Na avaliação de Lorimer, o ambiente político atual é marcado pela normalização de discursos que há duas décadas permaneceriam restritos a grupos extremistas marginais. Paralelamente, partidos de centro e centro-esquerda têm enfrentado pressão para adotar posições mais rígidas em temas ligados à imigração e segurança, ampliando ainda mais a polarização do debate público.

O resultado, segundo especialistas, é um cenário em que episódios isolados de violência se transformam rapidamente em crises políticas e sociais de grandes proporções, alimentadas por redes digitais globais e por disputas cada vez mais intensas em torno da identidade nacional e da imigração.