Uma onda de calor precoce que atinge países da Europa Ocidental elevou a pressão internacional sobre políticas climáticas e levou o secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, Simon Stiell, a classificar os eventos registrados nesta semana como “um lembrete brutal dos impactos crescentes da crise climática”.
França, Reino Unido, Espanha e Irlanda registraram temperaturas recordes para o mês de maio, em um cenário normalmente associado ao auge do verão europeu. Em várias regiões, os termômetros permaneceram acima de 30°C durante dias consecutivos, enquanto autoridades meteorológicas projetam novas elevações de temperatura nos próximos dias.

Segundo Stiell, as ondas de calor extremas estão diretamente associadas às emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de carvão, petróleo e gás natural.
“A ciência é clara ao mostrar que as mudanças climáticas causadas pela ação humana estão tornando essas ondas de calor mais frequentes e extremas”, afirmou o representante da ONU em comunicado divulgado ontem.
O dirigente também citou episódios simultâneos registrados na Índia, onde incêndios florestais e mortes por insolação ampliaram o quadro de emergência climática. Dados da plataforma de monitoramento AQI indicaram que as 45 cidades mais quentes do mundo nesta quinta-feira 28, estavam localizadas em território indiano, todas com temperaturas superiores a 43°C.
“Proteger vidas humanas, empresas e economias do calor extremo e dos muitos outros custos crescentes das mudanças climáticas é uma tarefa central para todas as nações”, afirmou Stiell, ao defender aceleração da transição energética global.
Na Europa, a França concentrou alguns dos registros mais extremos. O serviço meteorológico Météo-France informou que uma “cúpula de calor” — fenômeno atmosférico em que uma massa de alta pressão aprisiona o ar quente — provocou temperaturas entre 10°C e 13°C acima da média histórica para esta época do ano.
A previsão indicava máximas de até 39°C no sul do País nesta sexta-feira 29. O índice térmico médio nacional francês atingiu 24,9°C na terça-feira 26, superando o recorde anterior de 24,6°C estabelecido apenas um dia antes. Autoridades francesas confirmaram sete mortes relacionadas à onda de calor, incluindo casos de afogamento e ocorrências em eventos esportivos.
No Reino Unido, o serviço meteorológico Met Office registrou temperatura de 35,1°C em Kew Gardens, em Londres, superando o recorde anterior de maio de 34,8°C estabelecido no dia anterior. O novo índice ultrapassou também a antiga máxima histórica para o mês, de 32,8°C, observada em 1922 e repetida em 1944.
O país registrou ainda nova “noite tropical” na Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, onde a temperatura durante a madrugada não ficou abaixo de 21,4°C.
Na Espanha, autoridades emitiram alerta laranja para o País Basco diante da previsão de temperaturas de até 37°C. Em regiões do sul do país, os termômetros podem atingir entre 36°C e 38°C. A agência meteorológica espanhola Aemet afirmou que as temperaturas observadas nesta semana são mais características do período de canícula, normalmente registrado entre julho e agosto.
A Irlanda também registrou recordes históricos para maio, com máxima de 28,8°C na segunda-feira, 25.
Especialistas em clima afirmam que o aquecimento global vem alterando o padrão sazonal de ondas de calor, antecipando eventos extremos e prolongando períodos de temperaturas elevadas ao longo do ano. Segundo cientistas, episódios historicamente concentrados no pico do verão tendem a ocorrer com maior frequência já na primavera e até no início do outono.
O diretor de pesquisa climática da Universidade Maynooth, Peter Thorne, classificou os recordes recentes como “absurdamente impressionantes”.
“Sabemos, sem qualquer sombra de dúvida, que eventos como este se tornaram mais prováveis e mais severos devido às mudanças climáticas provocadas pelas emissões de gases de efeito estufa que retêm calor”, afirmou ao jornal britânico The Guardian.
Além do impacto direto sobre a saúde pública, governos europeus monitoram efeitos econômicos associados às temperaturas extremas, incluindo pressão sobre sistemas elétricos, agricultura, logística, abastecimento de água e produtividade do trabalho.
O novo episódio ocorre em meio ao avanço global das discussões sobre segurança energética e redução da dependência de combustíveis fósseis. Para integrantes da ONU e especialistas do setor climático, as ondas de calor registradas simultaneamente em diferentes regiões reforçam o custo econômico crescente das mudanças climáticas e a urgência da transição para fontes de energia de menor emissão de carbono.