A incorporação de exercícios físicos e práticas corporais em sessões de terapia psicológica tem ganhado espaço como alternativa para lidar com traumas e emoções intensas. A proposta, que combina movimento e acompanhamento clínico, busca estimular a liberação de tensões acumuladas no corpo, embora ainda enfrente limitações em relação à comprovação científica.
Em um dos relatos que ilustram essa abordagem, a bióloga e engenheira Bianca Stephens descreve a experiência de incluir movimentos simples durante o processo terapêutico. Em vídeo publicado nas redes sociais, ela movimenta os braços, sacode os pulsos e balança os quadris enquanto relata: “Parece muito idiota”, diz Stephens. “Mas funciona”. Segundo ela, a prática ajudou a liberar “energia estagnada” associada a experiências de estresse.

Após alguns minutos de exercícios, Stephens afirma ter sentido uma mudança no estado emocional, com acesso a sentimentos mais profundos e até lágrimas. A experiência, segundo ela, trouxe uma sensação de alívio que não havia sido alcançada apenas com a terapia tradicional baseada na fala.
A técnica utilizada faz parte do que especialistas chamam de terapia somática, um conjunto de práticas que utiliza o corpo como ferramenta para trabalhar questões emocionais. A abordagem inclui exercícios de enraizamento, técnicas de respiração e movimentos que ajudam a desenvolver a percepção corporal.
Em geral, terapeutas que adotam essa linha de trabalho orientam pacientes a identificar como o corpo reage a diferentes emoções e situações de estresse. Com o tempo, a proposta é que a pessoa consiga modificar padrões de comportamento, adotando posturas que favoreçam o relaxamento e a regulação emocional.
“Não há nada de assustador, diz potencial em algo assim”, afirma Vaile Wright, diretora sênior de inovação em saúde da Associação Americana de Psicologia. “A terapia somática não funciona para todo mundo.”
ecialistas ressaltam que ainda há limitações em relação às evidências científicas disponíveis. Algumas técnicas, como relaxamento muscular progressivo e práticas de respiração, já contam com respaldo de estudos. No entanto, a aplicação combinada dessas estratégias, especialmente dentro da terapia somática, ainda não foi amplamente investigada.
“Algumas técnicas — como relaxamento muscular progressivo e a respiração mindfulness — já estão incorporadas em diversas modalidades de tratamento baseadas em evidências”, afirma Wright. Ela destaca, porém, que o uso integrado dessas práticas em um único modelo terapêutico ainda demanda mais estudos.
Outras pesquisas indicam que a abordagem pode trazer benefícios para pessoas com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Ainda assim, não há consenso sobre sua eficácia como tratamento principal. Em muitos casos, especialistas recomendam que a terapia somática seja utilizada como complemento a métodos tradicionais.
Durante as sessões, o terapeuta pode orientar o paciente a observar sensações físicas associadas a emoções. “Dizemos algo simples como: ‘Onde você sente isso no corpo?’ ou ‘como isso se manifesta em você agora?’”, explica Scott Lyons, psicólogo e fundador da Embody Lab.
A partir dessa percepção, o paciente é incentivado a realizar movimentos que ajudem a liberar a tensão acumulada. Isso pode incluir alongamentos, mudanças de postura ou pequenos exercícios físicos. O objetivo é facilitar a expressão emocional por meio do corpo.
Com o avanço das sessões, o profissional pode propor exercícios mais intensos, desde que o paciente se sinta confortável. A prática é ajustada de acordo com a resposta individual, respeitando limites físicos e emocionais.