A trajetória política dos brasileiros nascidos entre 2000 e 2009 não segue os extremos ideológicos tradicionais. Segundo levantamento da Quaest, esses jovens enxergam no centro político — combinando pautas historicamente associadas tanto à esquerda quanto à direita — uma alternativa mais viável para enfrentar os desafios do país, com foco em soluções práticas e menor dependência do Estado.
A conclusão integra um estudo que analisou o posicionamento de diferentes gerações em temas centrais do debate público, como economia, costumes e políticas sociais. A pesquisa foi conduzida pelo cientista político e diretor da Quaest, Felipe Nunes, e aponta que os brasileiros têm adotado, cada vez mais, uma postura híbrida, alternando visões progressistas e conservadoras conforme o assunto.

Uma das mudanças metodológicas do estudo foi a criação de uma classificação geracional própria, baseada na realidade brasileira e inspirada no livro Brasil no Espelho, de autoria do próprio pesquisador. O modelo substitui categorias estrangeiras, como “baby boomers” e “millennials”, por quatro grupos: Bossa Nova (1945-1964), Ordem e Progresso (1965-1984), Redemocratização (1985-1999) e Geração .com (2000-2009).
“Faz tempo que me incomodava a importação de uma classificação norte-americana para se referir às gerações brasileiras. Não temos baby boomers, e o que passamos aqui é diferente do que definia a classificação deles. Era hora de entender as diferenças geracionais a partir da nossa realidade”, afirmou Felipe Nunes.
Para mapear o posicionamento ideológico, a Quaest utilizou um método estatístico que calcula um “score ideológico” com base no conjunto de respostas dos entrevistados. Com isso, os participantes são posicionados de acordo com suas opiniões concretas, e não apenas por autodeclaração.
O estudo mostra que a Geração .com é a mais progressista entre os grupos analisados, embora não se alinhe automaticamente à esquerda, como ocorria com jovens de décadas anteriores. Já a geração da Redemocratização aparece como a mais conservadora. As gerações Ordem e Progresso e Bossa Nova ocupam posições mais centrais, ainda que com inclinação ao conservadorismo.
“A Geração .com não é de esquerda, como eram os jovens da década de 80; tampouco são de direita, como são os jovens de outros países. Temos uma geração de centro, preocupada em fugir da polarização, voltada para o futuro e em busca de soluções práticas. Há frustração com o papel do Estado, mas também a percepção de que algum nível de apoio é necessário”, explicou o pesquisador.
Costumes
No campo dos costumes, a Geração .com tende a adotar posições menos conservadoras em comparação às demais. O grupo registra menor apoio à proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo (37%, frente a 50% na geração da Redemocratização) e maior abertura ao debate sobre sexualidade nas escolas, com 65% favoráveis.
Ainda assim, há divisões internas. Entre os mais jovens, 44% consideram o feminismo um exagero, enquanto 51% dizem se incomodar ao ver casais do mesmo sexo demonstrando afeto em público. Neste último ponto, o maior índice de desconforto aparece na geração Bossa Nova, com 63%.
Em temas como aborto, prevalecem posições conservadoras. Apenas 21% dos integrantes da Geração .com defendem a legalização, número próximo à média geral (18%). Já 55% concordam que mulheres que abortam devem ser presas.
Outro dado relevante diz respeito à chamada “palmada pedagógica”: a maioria dos brasileiros, em todas as gerações, considera aceitável que pais batam em filhos desobedientes. Entre os mais jovens, o índice é ainda maior, chegando a 83%, enquanto na geração Bossa Nova atinge 76%.
Valores sociais
Há convergência entre as gerações em temas estruturais, como saúde pública e valores familiares. A maior parte dos entrevistados concorda que o Estado deve garantir um sistema universal de saúde de qualidade, além de apoiar a preservação de valores tradicionais, especialmente entre os integrantes da geração Ordem e Progresso.
As diferenças surgem em temas como cotas raciais e regulação das plataformas digitais. A Geração .com é a que mais apoia políticas de cotas, com 64%, enquanto a menor adesão aparece na geração da Redemocratização (46%).
Regulação das redes
A regulação das redes sociais para combater desinformação conta com apoio majoritário em todas as gerações. No total, 90% dos entrevistados concordam com a necessidade de medidas nesse sentido. Entre os mais jovens, esse percentual chega a 95%. Na geração da Redemocratização, o índice é de 92%; na Ordem e Progresso, 89%; e na Bossa Nova, 87%.
Proteção social
Políticas de proteção social também reúnem amplo respaldo. Há apoio significativo à manutenção do Bolsa Família, à taxação de pessoas mais ricas e ao perdão de pequenas dívidas. A Geração .com se destaca como a mais favorável a essas iniciativas.
Por outro lado, menos da metade dos entrevistados em todas as gerações avalia que sua vida melhorou durante governos do PT. O maior percentual de percepção positiva aparece na geração Bossa Nova (48%), enquanto o menor está na geração da Redemocratização (34%).
Estrutura de estado
A eliminação de privilégios no funcionalismo público é uma pauta com amplo consenso: 85% dos brasileiros concordam com essa medida. Mesmo entre os mais jovens, onde o apoio é menor, o índice chega a 78%.
Em relação à privatização, há maior apoio entre as gerações Redemocratização e Ordem e Progresso à ideia de vender a maioria das empresas públicas. Já entre os mais jovens (48%) e na geração Bossa Nova (46%), a adesão é menor.
Segurança pública
Na área de segurança, a proposta de criação de um sistema nacional unificado tem apoio superior a 79% em todas as gerações. Também há maioria favorável à classificação de organizações criminosas como terroristas, ideia defendida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com maior adesão entre os mais jovens.
Já a flexibilização do porte de armas para civis, medida associada ao governo de Jair Bolsonaro, encontra baixa aceitação em todos os grupos, com apoio em torno de 20%.
Vota para presidente
Os dados mais recentes, coletados em março de 2026, indicam que a maioria dos brasileiros não se identifica com a polarização política. Os eleitores independentes predominam em todas as gerações, com exceção da Bossa Nova, onde há leve vantagem numérica de simpatizantes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Quando somados os eleitores que não se identificam diretamente como “lulistas” ou “bolsonaristas”, o percentual de distanciamento da polarização ultrapassa 50% em todos os grupos, chegando a 76% na Geração .com.
A geração da Redemocratização concentra o maior contingente de eleitores à direita, enquanto a Bossa Nova reúne a maior proporção de apoiadores do lulismo.
A avaliação do governo Lula é majoritariamente negativa em quase todas as gerações, com exceção da Bossa Nova. Já a Geração .com concentra maior volume de avaliações consideradas regulares.
O estudo também aponta que 48% dos mais jovens defendem mudanças profundas no país, enquanto apenas 9% preferem a manutenção do modelo atual.
Na simulação de primeiro turno, Lula lidera entre os jovens e amplia vantagem entre os mais velhos. Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresenta melhor desempenho na geração da Redemocratização. No segundo turno, ele só aparece numericamente à frente nesse mesmo grupo.
A pesquisa combina duas rodadas, realizadas em outubro de 2025 e março de 2026, com 2.004 entrevistas em cada etapa. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-09285/2026.
As gerações de brasileiros
- Geração .com (2000–2009) – Representa 12% do eleitorado
- Primeira geração de nativos digitais. Cresceu em um contexto marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), baixo crescimento econômico e pandemia. É impactada por políticas de igualdade e pela retomada da direita no país. Tem menor vínculo com o trabalho formal com carteira assinada.
- Primeira geração de nativos digitais. Cresceu em um contexto marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), baixo crescimento econômico e pandemia. É impactada por políticas de igualdade e pela retomada da direita no país. Tem menor vínculo com o trabalho formal com carteira assinada.
- Geração Redemocratização (1985–1999) – Representa 29% do eleitorado
- Formada no período pós-ditadura, acompanhou a consolidação democrática e a ampliação de direitos sociais durante governos como os de FHC e Lula. Já nasceu em um ambiente com presença de internet e celulares.
- Formada no período pós-ditadura, acompanhou a consolidação democrática e a ampliação de direitos sociais durante governos como os de FHC e Lula. Já nasceu em um ambiente com presença de internet e celulares.
- Geração Ordem e Progresso (1965–1984) – Representa 36% do eleitorado
- Filhos do período da ditadura militar e do chamado “milagre econômico”. Vivenciaram mudanças sociais importantes, como a entrada das mulheres no mercado de trabalho, e o fortalecimento de partidos como o PT.
- Filhos do período da ditadura militar e do chamado “milagre econômico”. Vivenciaram mudanças sociais importantes, como a entrada das mulheres no mercado de trabalho, e o fortalecimento de partidos como o PT.
- Geração Bossa Nova (1945–1964) – Representa 23% do eleitorado
- Passou a juventude ou início da vida adulta durante a ditadura militar. Foi a primeira geração a ingressar no mercado de trabalho sob regime CLT, ainda na era Getúlio Vargas. Também acompanhou movimentos culturais como a bossa nova e mudanças no papel da mulher no trabalho.
O que a Geração .com espera de um presidente
- Mudar radicalmente o que está aí: 48%
- Promover mudanças lentas e graduais: 40%
- Manter as coisas como estão: 9%
- Não sabe / não respondeu: 3%