O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), pré-candidato à Presidência da República, voltou a direcionar críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF). A nova investida ocorreu na terça-feira 21, um dia após o ministro Gilmar Mendes encaminhar uma notícia-crime ao colega Alexandre de Moraes, pedindo a abertura de investigação contra o mineiro em razão de um vídeo publicado nas redes sociais com sátiras a decisões da Corte — iniciativa que Zema classificou como “absurda”.
No feriado de Tiradentes, símbolo da Inconfidência Mineira, o ex-governador reforçou o discurso político e defendeu “liberdade”, afirmando que “a luta dos inconfidentes não acabou”. Em material divulgado nas redes, ele comparou o poder dos ministros do STF — chamados por ele de “intocáveis” — ao da antiga Coroa Portuguesa. “Os intocáveis mudaram, mas o legado de Tiradentes permanece vivo”, disse, acrescentando que pretende enfrentar “os poderosos”.

No vídeo, Zema questiona o grau de liberdade no País e faz críticas amplas a diferentes setores. “Você acha que nós somos livres de verdade? Eu acho que não. No lugar da Coroa Portuguesa, se sentaram os intocáveis de Brasília. Os políticos vendidos, os empresários ladrões e os juízes que se acham acima do bem e do mal”, afirmou. Em tom eleitoral, completou: “Nas eleições deste ano, nós vamos decidir quem manda no Brasil, os intocáveis ou os brasileiros de bem”.
A peça também utiliza representações geradas por inteligência artificial de figuras como os próprios Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As críticas foram reiteradas por Zema durante a cerimônia do Dia de Tiradentes, em Ouro Preto, quando voltou a direcionar questionamentos ao STF e, especialmente, a Gilmar Mendes. Em meio ao embate com o decano da Corte, o pré-candidato afirmou que o País atravessa um “momento de vergonha moral”. “Eu pergunto a você, ministro Gilmar Mendes: a Justiça não deveria ser cega?”, declarou, ao mencionar episódios envolvendo magistrados.
No mesmo discurso, o ex-governador acusou o STF de “cometer abusos” e de proteger “os intocáveis”, ampliando a linha de ataque que já vinha adotando nas redes sociais. Ele também levantou suspeitas de conflitos de interesse e criticou decisões judiciais com impacto direto sobre Minas Gerais.
Zema estendeu as críticas ao governo federal e ao que classificou como concentração de poder em Brasília. Segundo ele, há uma engrenagem institucional que “mantém o povo na pobreza”. “Enquanto o brasileiro de bem derrama seu suor para melhorar a vida de sua família, a canetada de quem vive em Brasília mantém o povo na pobreza”, afirmou.
Mantendo o tom político, o mineiro comparou o cenário atual a um “ciclo colonial”, ao sustentar que “Brasília explora o Brasil como os portugueses fizeram”, retomando o paralelo histórico com a Inconfidência Mineira ao longo de sua fala.
Ação no STF
A notícia-crime apresentada por Gilmar Mendes tem como base um vídeo divulgado por Zema em março, no qual integrantes do STF aparecem retratados como fantoches. Em uma das cenas, o ministro Dias Toffoli solicita ao personagem de Gilmar a suspensão da quebra de seus sigilos, determinada pela CPI do Crime Organizado. Em troca, o boneco de Gilmar pede “uma cortesia” em um resort ligado a investigações envolvendo o Banco Master.
Na representação, o empreendimento citado é o Tayayá, que já teve familiares de Toffoli como proprietários e aparece em apurações relacionadas ao escândalo financeiro. No documento enviado a Alexandre de Moraes, Gilmar afirma que o conteúdo “vilipendia não apenas a honra e a imagem deste Supremo Tribunal Federal, como também da minha própria pessoa”.
Zema reagiu publicamente à iniciativa. Pelas redes sociais, afirmou que a medida demonstra que “a carapuça serviu” e classificou o vídeo como uma peça humorística. “Se um teatro de fantoches é visto como ameaça por Gilmar e Moraes é sinal de que a carapuça serviu. Os ministros não gostaram da nossa série ‘os intocáveis’. Beleza. Mas me processar por isso? O humor é usado pra criticar o poder desde que o mundo é mundo”, escreveu. Em seguida, acrescentou: “Pra mim, absurdo é isso. Seguimos em frente contra essa farra dos intocáveis”.
Nos dias anteriores, Gilmar Mendes já havia criticado Zema, apontando contradição entre o discurso atual e a atuação do ex-governador quando esteve à frente do Executivo mineiro. O ministro afirmou ser “no mínimo, irônico” que Zema tenha defendido impeachment e prisão de integrantes da Corte após ter recorrido ao STF para obter decisões favoráveis ao estado.
O decano ressaltou ainda que o então governador acionou o Supremo “inúmeras vezes” para suspender obrigações financeiras de Minas Gerais com a União. “Sem o socorro institucional do STF, o então governador teria enfrentado um cenário de grave desorganização fiscal, com riscos concretos à continuidade de serviços públicos essenciais”, declarou.