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Covid-19
Situação “descontrolada” da pandemia foi prevista há 2 meses, diz especialista do RN
Astrofísico e professor da UFRN, José Dias do Nascimento afirma que períodos de festas de fim de ano e também o Carnaval foram cruciais para aumento no número de casos de Covid-19 no estado
Douglas Lemos
24/02/2021 | 04:51

Dados do Regula RN, do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), mostram que a taxa de ocupação de leitos críticos Covid se manteve acima de 80% por, pelo menos, seis dias seguidos no Rio Grande do Norte (ver mais nas páginas 8 e 9). Mas um especialista reforça que a situação “descontrolada” que aconteceria em fevereiro já era prevista há mais de dois meses por cientistas.

José Dias do Nascimento, astrofísico e professor do Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE), da UFRN, acredita que mesmo com medidas recentes determinando funcionamento de bares e restaurantes até às 22h para tentar inibir aglomerações tem efeito apenas psicológico. “Se você fizer isso, as pessoas vão se aglomerar antes deste horário. Se nenhuma restrição de circulação acontecer, teremos um aumento expressivo”, apontou. Ele usa uma analogia para simplificar o poder de propagação do vírus. “É muito parecido com fogo na floresta, se você combate o fogo e deixa alguns focos, basta que o vento mude e tenha combustível para o fogo voltar”.

Ainda segundo o professor, os períodos de festas de fim de ano e também o carnaval foram cruciais para aumentar o número de casos no estado. “A questão era saber a intensidade e o tempo. Vi que teríamos um agravamento na segunda onda a partir do final de fevereiro. A Secretaria de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Norte (Sesap) não levou a sério e não vi nenhuma medida de preocupação até o momento. A previsão foi feita, o Carnaval e as festas de fim de ano somente agravaram o que já era grave”, observou o professor.

Algumas situações que diferem Natal de outras cidades da região Nordeste colaboraram para que o impacto não fosse ainda maior. “Nós não temos metrô. Cidades como Recife e Fortaleza têm. Este tipo de coisa nos deixa mais ou menos em uma situação que poderia ser pior”, disse.Ele ainda aponta que as retomadas foram cruciais para a propagação do vírus. “Se você fizer uma análise histórica, quando atingimos a 1ª onda, deveríamos ter segurado mais, mas abrimos. Empurramos o fim da 1ª onda para frente. Quando estava acabando, abrimos em outubro as escolas e as campanhas eleitorais. Em seguida, as festas de fim de ano. A dinâmica favoreceu a volta de casos.

José Dias do Nascimento defende que o intervalo entre a primeira e a segunda onda poderia ter sido uma oportunidade para tentar conter a segunda onda. O astrofísico defendeu que houvesse criação de barreiras sanitárias, incrementar a mais o isolamento social, fechar entradas e saídas para diminuir as variantes do vírus no estado e fiscalizar com mais rigor festas e aglomerações. “Uma série de coisas que deveriam ter sido feitas e em vez de serem colocadas em pauta pelos comitês do Nordeste e do RN, o que houve foi uma tentativa de ou calar ou não dar importância aos modelos”.

Falsa segurança

De acordo com Nascimento, a vacina é importante mas criou a falsa sensação de segurança na população do Rio Grande do Norte, que passou a circular mais nas ruas da cidade. Ele também crê que o tratamento precoce com a ivermectina também causou a mesma sensação. “A vacina não poderia ter sido vendida como a solução do final da pandemia. Ela criou sim um falso conforto que se somou à propaganda enganosa de alguns gestores como o prefeito de Natal sobre o tratamento precoce”, disse.

Ele ainda comentou que o ritmo da vacinação preocupa e que se continuar da mesma forma, serão dois anos até vacinar os 3,5 milhões de habitantes, número estimado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). “Só que a variação do vírus é em tempo muito mais curto. Em um ano já são muitas variações e algumas delas não estão nas vacinas”, observou.

Segundo o especialista, a evolução do Covid-19 no estado é monitorada pelo que os técnicos chamam de dinâmica da população. Em dezembro, Nascimento adiantou que a segunda onda seria mais vigorosa que a primeira em número de casos e que não há possibilidade de solução a curto prazo. “É importante que se deixe claro que os governantes precisam olhar para os dados e para o que os cientistas dizem. Com a taxa de vacinação que temos e as novas cepas, não temos como conter nada a curto prazo”, declarou.

Segundo o professor, o reflexo do quadro atual do estado começou ainda em 2020, no período depois das eleições e antes do Natal, há cerca de 2 meses. “O que já não estava controlado, tornou-se descontrolado”, lamentou.

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