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Ciência

Foguete com laboratório espacial é lançado da Barreira do Inferno

Missão leva plataforma brasileira a mais de 100 km de altitude e testa sistema para recuperar experimentos por paraquedas
Agora RN
15/09/2026 | 22:44

O Brasil lançou nesta terça-feira 15, a partir do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Parnamirim, na Grande Natal, um foguete que transporta a Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R), equipamento desenvolvido para funcionar como um laboratório espacial. A missão prevê atingir mais de 100 quilômetros de altitude, realizar experimentos em condições de microgravidade e trazer as amostras de volta à Terra por um sistema de paraquedas.

A operação testa principalmente a capacidade de recuperar a plataforma e os materiais científicos depois de condições reais de voo. Se a missão for concluída como planejado, será a primeira vez que uma plataforma brasileira usada em pesquisa será recuperada com os experimentos para análises posteriores. Hoje, uma das formas usadas no País para obter as informações é a telemetria, com a transmissão dos dados a distância.

Foguete decola deixando rastro de fumaça no céu durante lançamento
Lançamento do foguete VS-30 V16 no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim — Reprodução

A expectativa é que a plataforma retorne ao mar e seja localizada e recolhida por equipes da Força Aérea Brasileira (FAB), com apoio de helicóptero. A missão integra uma operação iniciada em 31 de agosto e prevista para terminar em 19 de setembro. A PSM-R tem capacidade para transportar até 50 quilos de experimentos.

A plataforma foi instalada na parte superior do foguete brasileiro VS-30 V16, desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE). Com aproximadamente nove metros de comprimento, o equivalente à altura de um prédio de três andares, o veículo é classificado como suborbital: sua finalidade não é permanecer em órbita, e sim alcançar altitudes superiores a 100 quilômetros e retornar.

Durante o voo, a plataforma é separada do foguete e permanece alguns minutos em condições de microgravidade, período em que os experimentos são realizados. O professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Luis Cláudio de Oliveira Silva estima que essa etapa dure entre seis e oito minutos.

A missão transporta três experimentos externos. Um deles analisa os efeitos da microgravidade em microrganismos, com possibilidade de aplicação em culturas de grão-de-bico e batata-doce. Outro observa fenômenos de mecânica clássica com molas e ímãs. O terceiro avalia os efeitos da microgravidade sobre a estabilidade do secretoma de células-tronco mesenquimais, o conjunto de proteínas liberadas pelas células e relacionado à regeneração de tecidos.

As condições encontradas nesse tipo de voo permitem pesquisas que não podem ser reproduzidas integralmente na superfície terrestre. Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), a microgravidade pode ser usada em estudos de materiais, processos de combustão, medicamentos e agricultura espacial.

Depois de atingir o ponto mais alto do trajeto e concluir os experimentos, a plataforma inicia a descida. Primeiro, o equipamento entra em queda livre. Em seguida, um paraquedas guia é acionado para reduzir a velocidade e preparar a abertura do paraquedas principal, responsável por permitir uma chegada que preserve o equipamento e sua carga científica.

A plataforma tem GPS e um sistema de transmissão por rádio para facilitar a localização, e foi projetada para flutuar. Depois da queda no mar, as coordenadas são transmitidas para orientar a equipe responsável pelo resgate. A previsão é que um helicóptero da FAB localize e recolha o equipamento.

Enquanto o foguete usado no lançamento não pode ser reaproveitado, a plataforma poderá ser utilizada em até quatro missões, segundo a AEB. A possibilidade de reutilização busca reduzir custos e o intervalo necessário para novos experimentos.

O Brasil já usa plataformas semelhantes para pesquisas em microgravidade, mas os equipamentos são comprados no exterior. A qualificação da PSM-R poderá permitir que o País passe a realizar missões periódicas com uma plataforma desenvolvida nacionalmente. “Seremos capazes de produzir nossa própria plataforma. É um avanço na direção de nossa autonomia em voos suborbitais”, afirmou o presidente da AEB, Marco Antonio Chamon.

O lançamento ocorre quatro anos depois de o Brasil testar, a partir da base de Alcântara, no Maranhão, o Modelo de Qualificação da Plataforma Suborbital de Microgravidade. Na missão de 2022, os resultados dos experimentos foram acompanhados por telemetria. Desta vez, a operação realizada no Rio Grande do Norte se concentra na recuperação física da plataforma depois do voo.

O Centro de Lançamento da Barreira do Inferno foi inaugurado em 1965 e se tornou o primeiro centro de lançamentos espaciais da América do Sul. Desde então, participou de mais de 400 lançamentos e acompanhou mais de 3 mil veículos espaciais.