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Entrevista
“Não podemos discutir apenas a verticalização”, diz presidente do Crea-RN sobre revisão do Plano Diretor de Natal
Ao Agora RN, Ana Adalgisa Dias Paulino aponta que é necessário entender também o impacto em cada bairro causado pela construção de prédios; ela também falou das fiscalizações nos estádios de futebol
Douglas Lemos
24/02/2021 | 01:22

Participando desde o início das discussões sobre o novo Plano Diretor de Natal, a presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte (Crea-RN), Ana Adalgisa Dias Paulino, afirma que a discussão sobre a revisão da lei precisa ir além do debate em torno da verticalização. Em entrevista ao Agora RN, a presidente do órgão também abordou formas sobre como explorar de forma integrada toda a orla da capital potiguar, começando em Ponta Negra, passando pela Via Costeira e indo até a Praia do Forte, apontando maneiras de como explorar melhor a capacidade turística no município.

A presidente do Crea-RN também falou sobre os resultados que o Plano Diretor precisa alcançar para beneficiar quem vive em Natal. “A gente tem que pensar também no habitante. Ficamos no macro e esquecemos do habitante. Daquele que anda à pé para ir à padaria e não tem segurança, não tem iluminação e não tem calçadas”, observou.

Outro ponto que fez parte da conversa exclusiva do Agora RN com Ana Adalgisa foi a fiscalização dos estádios que receberão jogos do Campeonato Potiguar 2021. O Crea-RN já começou o trabalho de fiscalização dos locais que receberão jogos, como a Arena das Dunas, o Estádio Frasqueirão e também o Estádio Municipal Rainel Pereira, em São Tomé.

Os estádios Estádio Edgar Borges Montenegro, em Assu, e o Manoel Leonardo Nogueira, o Nogueirão, em Mossoró, também passaram por vistorias feitas por equipes do Crea. “Quando se vê um estádio que tem uma estrutura, como um alambrado que não está seguro, isto também é verificado inclusive junto ao Corpo de Bombeiros. Esta é a nossa principal função”, disse.

AGORA RN – O Campeonato Potiguar de Futebol está prestes a recomeçar. Em relação à fiscalização preventiva dos estádios, o que foi feito?
ANA ADALGISA DIAS PAULINO – A fiscalização é chamada de Fiscalização Preventiva Integrada. O Crea-RN coordena juntamente com o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar. Procuramos a Federação Norte-rio-grandense de Futebol (FNF) exatamente para solicitar onde aconteceriam os jogos de futebol, para fazermos essas visitas fiscalizatórias. Verificamos se a parte de manutenção tem um profissional responsável, como está a parte estrutural e o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar identificam os seus critérios.
A gente vai em todos os estádios onde os jogos vão acontecer.

Visitamos Arena das Dunas, Frasqueirão e em um estádio São Tomé. Arena das Dunas tem tudo. Frasqueirão tem o laudo do Corpo de Bombeiros vencido, mas já foi dada a entrada em um novo e verificamos algumas partes estruturais. Em São Tomé, várias adequações serão necessárias para a prática desportiva. Os estádios de Assu e o Nogueirão, em Mossoró, também vão passar por vistorias.

AGORA RN – Há alguma especificidade na avaliação de estádios de futebol em comparação à avaliações de outras edificações?
ANA ADALGISA – Sim. A gente verifica se há um profissional habilitado responsável pela manutenção do gramado, a parte de combate à incêndio… Quando se vê um estádio que tem uma estrutura como um alambrado que não está seguro, isto também é verificado inclusive junto ao Corpo de Bombeiros. Esta é a nossa principal função.

AGORA RN – Mudando um pouco o rumo da nossa entrevista, como o Crea-RN avalia o atual estágio do novo Plano Diretor de Natal, que é algo que está em discussão?
ANA ADALGISA – O Plano Diretor vem se arrastando. Era para ter sido revisado em 2017. Estamos em 2021 e ainda não concluímos. Espera-se que, desta vez, se conclua. Participamos das discussões, vamos continuar participando. A gente acredita que entre na reta final na etapa da Prefeitura e, a partir daí, parte para a entrega da minuta para a Câmara Municipal, onde tenho certeza que, pelo que já foi debatido, abrirão várias discussões e audiências públicas. O Crea-RN estará presente.

A nossa função é ser um ente mediador, um ente técnico. A gente vai defender uma cidade que tenha, além do desenvolvimento, a sustentabilidade e a qualidade de vida para nós, habitantes desta cidade. Costumo dizer que não podemos ficar só na discussão da verticalização. Temos que pensar na cidade como um todo e analisar o impacto que isso causaria em cada um dos bairros. Eu vejo uma cidade que se espalha cada vez mais e a gente poderia ter uma cidade mais compacta.

Tenho certeza que você adoraria morar em uma cidade onde você trabalha próximo de onde mora, tivesse lazer perto, serviços perto e tivesse a oportunidade de ter um transporte público ou mesmo uma calçada adequada para se locomover.

A gente tem que pensar também no habitante. Ficamos no macro e esquecemos do habitante. Daquele que anda à pé para ir à padaria e não tem segurança, não tem iluminação e não tem calçadas.

Eu pratico esportes. Pedalo. Não tenho vias acessíveis que me garantam segurança em toda cidade para vir trabalhar de casa para cá. Eu pratico corrida. Corro no meio da rua. E tem horas que eu tenho que pular para a calçada porque vem um carro e vai me atropelar.

AGORA RN – A questão de altura dos prédios é um dos assuntos mais pautados. Como o Crea-RN analisa esta questão e o que o órgão defende?
ANA ADALGISA – A gente não defende nem a verticalização, nem muito alto nem muito baixo. A gente tem que pensar na qualidade de vida das pessoas, no desenvolvimento. A verticalização tem vários pontos favoráveis. Mas temos que analisar onde esta verticalização vai acontecer.

Não podemos perder nosso poder político, nosso aspecto visual, mas não podemos perder o rumo do desenvolvimento. Natal é uma cidade que está parada. Você anda e não vê obras. Não se vê um prédio sendo erguido, praticamente.

A gente precisa analisar que cidade é esta que nós queremos. Tenho certeza que nenhum habitante de Natal quer a cidade que temos hoje. Hoje não temos a cidade que tenha pujança de emprego, pujança econômica e turística. Algo tem que ser repensado na cidade de Natal. E uma das ferramentas que repensa tudo isso.

AGORA RN – Natal tem uma orla bastante estreita na região de Ponta Negra. Outras cidades do Nordeste como João Pessoa, Maceió e Fortaleza têm orlas robustas e estruturadas, que servem para fomentar o turismo. Falta no Plano Diretor uma mudança em relação à orla? É preciso encontrar um equilíbrio entre o bem estar de quem mora aqui e também entre o turista?
ANA ADALGISA – A gente tem que ter um projeto urbanístico que pense o desenvolvimento da orla de Ponta Negra até o Forte, até a Redinha. Não só verticalizar a orla. É um ponto. Mas a Via Costeira precisa ser repensada de maneira urgente. O natalense que frequenta a Via dá uma caminhada em um trecho, até os Eucaliptos e volta. Precisamos pensar o que fazemos com esta Via Costeira com tantos terrenos vazios ali.

Estamos discutindo um parque há quantos anos? Participei de uma audiência pública sobre o novo projeto do Parque da Via Costeira, representando o Crea-RN, onde a audiência foi parada porque foi discutido o regimento da audiência. O principal não é o regimento e sim o parque, que faz parte da revitalização da Via Costeira.

O que queremos da Via Costeira? Pode ter um parque, restaurantes, uma série de coisas. A Praia do Meio precisa ser repensada. Se não fizermos uma engorda da praia. Em Fortaleza foi feita a engorda de quase 1 Km de praia.Se em Ponta Negra tivesse uma engorda da praia e um calçadão com infraestrutura necessária, com banheiros, com bares, restaurantes e não barracas, turista e morador se sentiriam em casa.

Em frente ao Relógio do Sol, na Praia do Meio, verticalizaram. Tem a escadaria, quadras de beach tennis. Você passa de 5h às 21h, tem gente ali. Você dá vida e segurança ao local. E olha que está próximo a um bairro perigoso, que é Mãe Luiza.

Precisamos pensar um plano urbanístico para a orla de Natal, não só no Plano Diretor, mas de forma integrada. A Via Costeira é do governo. Temos que pensar na revitalização de um todo. Esta é uma bandeira que temos que levantar com Semurb, com Idema. Esta discussão pode começar no Plano Diretor, mas acima de tudo ter um plano de que se pode separar por áreas: hotéis, restaurantes e parques. Assim teremos uma orla integrada, bonita e útil. Não só aos turistas, mas aos moradores de Natal.

AGORA RN – Com a pandemia, houve uma tendência à digitalização. Como o Crea-RN se prepara para esta verdadeira revolução tecnológica?
ANA ADALGISA – Ano retrasado a gente completou 50 anos do Crea-RN e eu estava no meu primeiro mandato. Nestes momentos em que podemos opinar e contribuir para o desenvolvimento da cidade e do Estado, é sempre um grande prazer. Até porque é uma função do Crea-RN também contribuir para o desenvolvimento do RN.

Desde a gestão passada, o Crea-RN já tinha um sistema que nos colocou no mundo digital. Nós aprimoramos isso e todos os nossos processos são digitalizados. Praticamente não trabalhamos com papel. Do nascedouro de um protocolo do profissional até qualquer pagamento, é tudo via sistema.
Tanto que, na pandemia, não tivemos tanto impacto no trabalho porque tudo nosso já é online. O profissional entra contato conosco via WhatsApp ou aplicativo. Respondemos tudo via sistema.

Fazemos reuniões, capacitações durante a pandemia de forma online e com participação de pessoas de todo o Brasil e também reuniões plenárias virtuais. Conseguimos hoje nos adequar porque a gente se preparou para isso.

Elaboramos um Plano Diretor de Tecnologia da Informação (PDTI), estamos trabalhando com a renovação do nosso portal, oferecendo mais serviços, disposição de informações para associados e à sociedade. A era digital é uma constante.

AGORA RN – Em relação da capacitação de profissionais, qual o caminho encontrado durante a pandemia?
ANA ADALGISA – Online. Começamos a divulgar, fazer nossos eventos via plataforma. As pessoas se inscreviam, recebiam uma chave de acesso e poderiam se capacitar pela internet. Vamos continuar trabalhando em fiscalizações integradas e temos um planejamento para traçar um roteiro. Agora estamos em estádios. Iremos para shopping centers, supermercados. Faremos uma série de fiscalizações integradas visando a proteção da sociedade.

Todo ano solicitamos os órgãos públicos federais, estaduais e municipais o histórico de manutenção das obras, de pontes, viadutos, escolas… Infelizmente, ainda não há essa cultura de planejar as manutenções das edificações, mas vamos insistir e ver se conseguimos aprovar um Projeto de Lei para que isso seja uma Lei e que este histórico seja disponível à sociedade. Queremos dar um retorno à sociedade em relação ao trabalho do Crea-RN.

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