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Relato
“Queria ser padre. Mas, após expulsão do seminário, me entendi travesti”
"Eu não me entendia como gay, mas eu sabia que sentia atração por homens —e, naquela época, eu pensava que era pecado", disse Ana Alice
Universa
23/12/2021 | 11:28

“Nasci em uma colônia alemã, que fica numa cidadezinha no interior do Paraná, e lá comecei a frequentar a Igreja de forma ativa, participando do grupo de jovens. A presença da Igreja Católica foi muito marcante na minha adolescência. Entrei no Seminário aos 15 anos, quando estava no primeiro ou segundo ano do Ensino Médio —era o Seminário Menor Mãe de Deus, em Irati (PR).

Passei um ano lá. Eu realmente tinha a perspectiva de ser padre, de seguir a vida religiosa, mas hoje entendo que essa foi uma experiência muito ruim. A vida no Seminário era extremamente regrada, tinha hora para tudo: acordávamos às 6h e às 6h30 já estávamos na missa. Das 7h às 11h45, tínhamos aula. Almoçávamos até as 13h e depois cumpríamos tarefas como carpir o terreno e fazer faxina. Por volta das 16h, íamos estudar. Às 18h, preparávamos comida, jantávamos e, às 21h, íamos para a cama.

De manhã a gente rezava as laudes, às 12h as médias e às 18h as vésperas. No meio dessa rotina, a gente não tinha acesso ao celular durante a semana, só aos sábados e domingos. No Seminário, acabei refletindo muito sobre a minha vida, e principalmente sobre a minha sexualidade. Eu tentava não pensar muito sobre isso, porque esse é um confronto muito grande para quem cresce dentro de ambientes religiosos.

Eu não me entendia como gay, mas eu sabia que sentia atração por homens —e, naquela época, eu pensava que era pecado.

Mesmo me sentindo extremamente culpada, percebi que, felizmente ou infelizmente, não tinha como fugir dessas questões, porque faz parte de quem eu sou.

‘Sofri muita rejeição’

Foi um ano muito intenso. A convivência com os outros seminaristas era boa, éramos todos amigos, mas, ao mesmo tempo, foi um lugar em que eu sofri muita rejeição, porque os outros seminaristas eram brancos, e eu sou negra. O Seminário foi um ambiente extremamente racista.

Além disso, eu não tinha uma convivência muito boa com o padre. Eu o achava muito bravo, tinha um certo medo, e evitava conviver. Por causa desses atritos, acabei saindo do Seminário —na verdade, fui expulsa.

Dois anos depois, comecei meu processo de transição. Passei a me identificar como uma travesti.

O começo da minha transição de gênero foi bastante complicado, porque aconteceu ainda dentro da colônia alemã. Mesmo tendo saído do Seminário, o discurso religioso ainda era muito forte. Acabei me mudando para Salvador justamente por não me sentir segura no interior do Paraná.

Hoje eu não frequento nenhuma religião, mas também não odeio a religiosidade. O que faço é tentar identificar as problemáticas do catolicismo, que é a religião que eu conheço, e entender o que sobra para mim, o que me faz bem.

‘O discurso religioso é muito violento para pessoas como eu’

É um discurso muito pesado, de discriminação e até de morte. Por isso, hoje eu tento ressignificar o que é religioso, o que é sagrado.

Penso muito sobre criar um Deus para mim. Gosto muito do que a Linn da Quebrada [atriz e cantora] fala: que eu só posso acreditar em um Deus que acredite em mim também, na minha existência.”

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