A rotina de tratamentos com a pele, o “skincare”, faz parte do autocuidado há anos. Agora, essa atenção chega ao extremo com o “self-care íntimo”, voltado para a região da vulva. Não demorou para que o mercado oferecesse alternativas como desodorantes e perfumes íntimos, cremes e hidratantes para a genitália. Embora a motivação pareça positiva, a prática pode levar mulheres a consumirem produtos que façam mal à vulva e à vagina e desenvolverem mais inseguranças em relação ao próprio corpo.
Nas redes sociais, bombam os conteúdos produzidos sobre “higiene íntima”. Geralmente, influenciadoras de beleza compartilham produtos, “truques” e formas de disfarçar o cheiro íntimo feminino. Outras ensinam como tornar a vulva mais atraente e remover pelos.

Segundo a ginecologista e obstetra Carolina Alves, a vagina tem, naturalmente, um pH ácido, que a protege contra infecções. O uso de produtos íntimos pode alterá-lo, facilitando a ocorrência de infecções bacterianas e fúngicas. A profissional argumenta que a região íntima feminina tem uma capacidade de se “autolimpar”, dispensando o uso de quaisquer outras formulações além de água e sabão neutro:
— Alguns produtos possuem álcool e outros ingredientes irritantes, o que pode causar desconfortos, coceiras e irritações. O risco é agravado para quem tem a pele sensível.
Carolina reconhece que há, culturalmente, uma associação da “percepção genital da mulher com a sujeira”. Com frequência, a profissional se depara com pacientes à procura de métodos para camuflar aspectos naturais da vulva.
— Muitas mulheres tentam disfarçar seu odor natural a partir de alimentos, plantas e medicamentos, como cremes, pomadas e comprimidos. São tentativas de matar bactérias que fazem parte da flora vaginal, o que desequilibra o pH e pode trazer questões psiquiátricas. É uma busca por algo que não existe — completa.
Na adolescência, a sexóloga Mariah Prado, de 29 anos, percebeu que sua genitália era distinta daquelas exibidas pelas atrizes de filmes adultos. As vulvas eram “supersimétricas e branquinhas”, sem cicatrizes ou pelos. Mariah começou a se sentir insatisfeita.
— Quando iniciei a vida sexual, comecei a ter insegurança em relação ao cheiro e ao gosto. Ao me tocar, percebi que eram diferentes do resto do meu corpo. Não deixava os meus parceiros fazerem sexo oral em mim. Não tinha ninguém com quem falar sobre isso — lamenta.
Mariah fundou a plataforma de educação sexual feminina Share Your Sex (SYS).
— Experimentei desodorantes íntimos, mas me sentia insegura em usá-los. Eram cheiros muito artificiais. Não queria mascarar com um cheiro aleatório, só queria um odor “natural”, mas que fosse bom. Depois, descobri que ele já era, só eu que não sabia.
A experiência de Mariah ilustra um dilema feminino comum, segundo a pesquisa “Os estigmas da vagina”, feita pela marca Intimus em 2020. O estudo descobriu que 68% das brasileiras não se sentem satisfeitas com a própria vulva. Os pelos, a cor e o cheiro são as características que mais incomodam, respectivamente com 33%, 18% e 18%.
A partir do crescimento da categoria de cosméticos íntimos, a educadora sexual Clariana Leal sugere que se busque um equilíbrio.