Um motorista que trabalhava para o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, informou à portaria da Câmara dos Deputados que tinha como destino o gabinete do deputado federal Benes Leocádio (União-RN) ao entrar na Casa em 8 de fevereiro de 2024. O registro foi revelado nesta terça-feira 28 pela coluna da jornalista Andreza Matais, do portal Metrópoles, a partir de documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Conhecido como “Kiko”, o motorista Sidney Santos esteve pelo menos quatro vezes na Câmara ao longo daquele mês e indicou como destinos os gabinetes de quatro parlamentares. Além de Benes, foram mencionados Geraldo Mendes, o “Homem do Chapéu” (União-PR); Pedro Westphalen (PP-RS); e Sanderson (PL-RS). Todos negaram conhecer Sidney ou ter mantido encontro com ele.

No caso do deputado potiguar, a entrada foi registrada em 8 de fevereiro, às 9h. À coluna de Andreza Matais, Benes afirmou que nunca teve contato, reunião ou conhecimento sobre as pessoas citadas na reportagem e ressaltou que a indicação fornecida na portaria não comprova que o visitante tenha efetivamente comparecido ao gabinete.
“Eventuais informações prestadas na portaria não significam que tenha havido ingresso ou atendimento no meu gabinete, até porque qualquer pessoa pode informar o destino que desejar ao acessar o prédio. No caso mencionado, não há qualquer registro de entrada ou atendimento no meu gabinete”, declarou Benes em nota enviada após a publicação da reportagem.
O parlamentar acrescentou que não estava em Brasília na data registrada e apresentou um comprovante da viagem para demonstrar sua ausência. “Além disso, conforme comprovante de viagem que encaminho em anexo, eu não estava em Brasília na data mencionada”, afirmou.
Quem é o motorista
Sidney Santos não é investigado. O nome dele aparece indiretamente em uma decisão proferida em maio pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou buscas em endereços ligados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). No documento, o ministro descreveu a relação entre Ciro e Vorcaro e relatou que o ex-banqueiro enviou um motorista à casa do senador em novembro de 2023 para buscar rascunhos de um projeto de lei.
De acordo com a decisão, os documentos foram revisados por um escritório indicado por Vorcaro e depois devolvidos ao senador. Sidney seria o responsável por transportar os papéis entre os endereços. Os textos tratavam de dois projetos relacionados à regulamentação do comércio de créditos de carbono, assunto de interesse direto de Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro.
Na decisão, André Mendonça reproduziu a avaliação dos investigadores de que os cuidados adotados no transporte dos documentos poderiam indicar algo além das formas habituais de relacionamento entre agentes políticos e representantes da iniciativa privada. Segundo o ministro, Daniel Vorcaro orientou que a devolução fosse feita de modo que “o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar” e que “o envelope utilizado não faça referência ao Banco Master”.
Outros deputados
Além do registro relacionado a Benes, os documentos da Câmara apontam que Sidney informou o gabinete de Geraldo Mendes como destino em 7 de fevereiro de 2024, às 16h33. Em 15 de fevereiro, às 10h43, teria indicado o gabinete de Pedro Westphalen; cinco dias depois, em 20 de fevereiro, às 10h45, declarou que se dirigiria ao gabinete de Sanderson.
Procurado pela coluna do Metrópoles em junho para comentar o episódio, Sidney evitou prestar esclarecimentos. “Eu quero é distância desse povo, tá bom?”, respondeu, antes de interromper a conversa.
Os outros três deputados também negaram ter recebido o motorista. Sanderson afirmou que não conhece Sidney, nunca o viu e não conversou com ele em seu gabinete ou em qualquer outro local. O parlamentar disse que sua agenda oficial registra as pessoas recebidas no dia citado e repudiou qualquer tentativa de vinculá-lo ao motorista ou às pessoas envolvidas no caso do Banco Master.
Segundo Sanderson, seu mandato é conduzido com transparência e os registros oficiais comprovam as agendas realizadas. O deputado acrescentou que recebe milhares de pessoas anualmente na Câmara e em compromissos políticos pelo País e classificou como “capciosa” qualquer tentativa de concluir, apenas com base no registro da portaria, que ele tenha recebido uma pessoa que trabalhava como motorista de alguém posteriormente relacionado a uma investigação criminal.
Pedro Westphalen informou que sua chefe de gabinete não encontrou registro da visita. O parlamentar explicou que a entrada é anotada pela portaria da Câmara, mas não existe verificação posterior para confirmar se a pessoa realmente se dirigiu ao local declarado. Também ressaltou que não é necessária autorização prévia do gabinete para o ingresso de cidadãos nas dependências da Casa. Após saber que Sidney mantinha uma empresa de locação de veículos e prestava serviços como motorista, o gabinete afirmou que continuaria procurando informações para saber se ele chegou a comparecer ao local.
Geraldo Mendes declarou que o nome de seu gabinete foi registrado indevidamente. Segundo ele, a indicação feita na portaria constitui um procedimento unilateral e administrativo, sem autorização prévia do deputado. Sua equipe informou que solicitaria imagens das câmeras internas para afastar qualquer suspeita de encontro.
Mendes também afirmou que sua atuação sobre créditos de carbono é pública e institucional. Ele é autor do Projeto de Lei nº 5.157/2023, relacionado a créditos de carbono voltados à agricultura familiar, e ocupou a 2ª Vice-Presidência da Comissão de Minas e Energia da Câmara entre 2023 e 2024. Segundo a nota, essas funções explicam seu interesse legislativo no assunto, sem relação com os fatos descritos na reportagem. O deputado acrescentou que assinou o pedido de criação da CPI do Banco Master e que levará o episódio ao Poder Judiciário.