A Casa da Ribeira inicia em 2026 as comemorações pelos seus 25 anos de atuação cultural com a realização do Festival Verão Aquilombado, programado para sexta 6, sábado 7 e domingo 8, em Natal. O evento terá programação gratuita dentro e fora do espaço cultural e marca o início das atividades comemorativas do equipamento cultural independente.
Instalada em um casarão centenário localizado na rua Frei Miguelinho, no bairro da Ribeira, a Casa da Ribeira completa um quarto de século de funcionamento como espaço dedicado à criação artística, à educação pela arte e ao encontro comunitário. Antes de se consolidar como centro cultural, o prédio funcionou como hospedaria, padaria e armazém e permaneceu fechado por cerca de dez anos até ser ocupado, no fim dos anos 1990, por integrantes do Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare e produtores independentes que buscavam um local para ensaios e apresentações.

A mobilização para restaurar o imóvel resultou na aprovação do projeto nas leis de incentivo Lei Rouanet e Lei Câmara Cascudo. A captação de cerca de R$ 819 mil contou com ações culturais abertas ao público, como o projeto “Na Rua da Casa”, iniciado em 11 de julho de 1999, que ocupou as ruínas do casarão e a rua Frei Miguelinho com apresentações gratuitas de música, teatro, dança, circo e exposições. Em 2000, apoios de instituições e empresas, entre elas Cosern (à época grupo Iberdrola) e Petrobras, além de empresas locais, viabilizaram a restauração do espaço.
Ao longo dos anos, a Casa da Ribeira passou a integrar iniciativas de restauração urbana e fortalecimento cultural do bairro histórico da Ribeira. Em 25 anos de atividades, o espaço registra 542.981 espectadores, 2.810 espetáculos apresentados, 51 exposições de artes visuais, 54 projetos artísticos, culturais e educativos realizados, 28 editais de ocupação abertos e seis prêmios locais e nacionais.
Atualmente, a instituição é conduzida pela presidente Alessandra Augusta, atriz e pesquisadora de Teatro Negro, Feminismo e Ancestralidade; pelo diretor social Henrique Fontes, dramaturgo premiado nacionalmente; pela diretora administrativa-financeira Ana Cláudia Viana, pesquisadora e bailarina com mais de três décadas de atuação; e pela gerente administrativa Jeane Ataíde, especialista em gestão de projetos culturais incentivados.
Em uma fala coletiva, a liderança da Casa afirma. “Ao completar 25 anos, a Casa da Ribeira reafirma que cultura não é ornamento: é fundamento. O passado sustenta, o presente pulsa e o futuro se constrói no encontro. Em cada espetáculo, exposição ou debate, a Casa segue sendo abrigo de ideias, território de resistência e educação através das artes independentes em Natal, no Rio Grande do Norte e no Brasil”.
Segundo a instituição, a Casa da Ribeira está entre os espaços culturais independentes do país que permanecem em atividade por 25 anos, com apenas uma interrupção registrada em 2004, quando a diretoria precisou suspender as atividades por três meses.
Festival Verão Aquilombado
O Festival Verão Aquilombado abre o calendário comemorativo entre os dias 6 e 8 de março de 2026, reunindo mais de 30 atrações. A programação inclui dança, música, teatro, contação de histórias, artes visuais, cinema, culturas tradicionais e uma feira de afroempreendedorismo instalada na rua, com artesanato, moda e gastronomia.
O evento também propõe debates e atividades ligadas à economia criativa, decolonialidade e práticas antirracistas, além de reunir narrativas negras e LGBTQIAPN+ em diferentes linguagens artísticas.
O projeto foi aprovado no Edital de Fomento às Artes Integradas e Outras Expressões Artísticas – 08/2024 – Ações Culturais – Faixa 02 – PNAB SECULT/RN e conta com apoio da Fundação José Augusto, por meio da Secretaria de Cultura do Rio Grande do Norte, do Governo do Estado do RN, do Sistema Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
“Eu Fêmea” leva ao palco as vivências e resistências da mulher negra
A programação do festival inclui a apresentação do solo de dança contemporânea “Eu Fêmea”, interpretado pela bailarina Rozeane Oliveira, marcada para sexta-feira 6, às 20h, com entrada gratuita. O espetáculo investiga a experiência da mulher negra a partir de vivências atravessadas por violências históricas, simbólicas e cotidianas, além de abordar resistência, força e transformação.
Para a artista, participar do festival tem significado especial. “Estar inserida nessa programação, que potencializa a arte de artistas pretos da nossa cidade, e ainda celebrar os 25 anos da Casa da Ribeira, um espaço tão importante para a cena cultural de Natal, torna tudo ainda mais grandioso. Voltar a esse palco agora, depois de tanto tempo, carrega um peso emocional e artístico muito profundo”, afirma.
A apresentação marca o início do projeto de circulação do espetáculo “Eu Fêmea”, contemplado pela Lei Aldir Blanc no Edital de Fomento à Dança 11/2024. Após a estreia no festival, o solo seguirá para apresentações em Recife e João Pessoa, além de uma nova sessão em Natal prevista para maio.
Rozeane retorna ao espetáculo após sofrer um acidente com deslocamento de quadril e segue em tratamento enquanto retoma as apresentações. “Meu corpo de hoje exige cuidados extremos para estar em cena, e minha rede de apoio tem sido fundamental para que eu me sinta segura”, destaca.
A artista conta com suporte da Team Max, sob assessoria de treino de Alline Silva e preparação corporal de Ana Claudia Albano, responsáveis pelo fortalecimento muscular e pelas adaptações coreográficas.
“Confesso que o frio na barriga é inevitável. Em outubro, cheguei a me apresentar com o Coletivo CIDA, mas ali estava amparada pelo grupo. Agora, o desafio é o solo: serei eu, sozinha em cena, durante 30 minutos. É um processo de entrega e confiança no tratamento que sigo realizando até junho. Apesar do nervosismo natural dessa volta, sinto-me firme e feliz. Tenho uma equipe preparada para que tudo corra bem e acredito que será uma grande noite de celebração, acolhimento e o marco de um novo ciclo de circulação que me deixa muito entusiasmada”, conclui.