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Coluna

Bolsonaro: vivo ou morto para a política?; leia coluna de Ney Lopes

Leia a coluna de Ney Lopes
Ney Lopes
04/01/2024 | 07:26

O livro “Biografia do Abismo” é radiografia da eleição de 2022. Analisa as causas da derrota do ex-presidente Bolsonaro e se ele continua vivo na política brasileira. Trata-se de visão realista, que deveria servir de reflexão ao bolsonarismo extremado e inflexível, para evitar a continuidade de erros, que em 2022 ajudaram a eleição do presidente Lula.

Bolsonaro poderia ter ganho a eleição se não tivesse adotado algumas posturas. Vejamos. Permitiu o ministro Paulo Guedes, técnico competente, negar o discurso da distribuição de renda. Levou o governo a insurgir-se contra o serviço público e a classe média.

Ex-presidente Jair Bolsonaro - Foto: Divulgação
Ex-presidente Jair Bolsonaro - Foto: Divulgação

A orientação econômica encampou a tese dos “lobbies” econômicos de considerar demagogia e populismo as políticas sociais distributivas. As ações de governo devem buscar o equilíbrio fiscal. Inclusive, porque as “políticas distributivas de isenções, incentivos” etc., sem prestação de contas (tratam-se de impostos não recolhidos) conspiram também contra a redução do déficit fiscal, mas são necessárias.

Bolsonaro abriu “frentes” ao negar a vacina, confrontar-se com o STF/TSE (discordar é legítimo, através de recursos), atritar-se com estados e municípios, criar a ficção de fraude nas urnas eletrônicas e uma política externa isolacionista. Transmitiu a ideia da demonização do serviço público, privatização ilimitada e liberdade de mercado sem regulação, o que não existe nem nos Estados Unidos.

O governo afastou-se do liberalismo social. A história mostra que, o liberalismo social contestou normas sociais vigentes, como o privilégio hereditário, Estado confessional, monarquia absolutista, o direito divino dos reis e implantou o imposto de renda.

A equipe de ministros de Bolsonaro foi um ponto positivo, com resultados pouco divulgados na eleição. O único que apareceu foi o das Comunicações, Fábio Faria, que montou farsa com a propaganda eleitoral e ajudou na derrota. Foi o primeiro a afastar-se, depois da eleição. Ao contrário, o ministro Rogério Marinho correu risco de atritar-se com o “poderoso” Paulo Guedes e alertou sobre a necessidade do governo investir em obras públicas. Ajudou na reeleição.

Resta saber se Bolsonaro está morto politicamente. O livro “Biografia do abismo” diz que “a política é um dos poucos lugares em que você pode ressuscitar, sem precisar morrer antes”. Lula e ex-governador Eduardo Campos (PE) foram vítimas de campanhas sórdidas. No final, o petista voltou à presidência e o pernambucano elegeu-se governador duas vezes e fez ainda o sucessor.

A conclusão é que Bolsonaro está vivíssimo. A eleição de 2022 foi a mais acirrada da história, desde 1989, tendo sido decidida por 1.8 pontos percentuais entre o primeiro e o segundo colocado. Lula sabe disso e já procura cooptar quem não votou nele no agronegócio, evangélicos (planeja pacote de isenção fiscal para igrejas) e até militares. Caso o Bolsonaro revise posicionamentos e ouça mais quem deve ouvir, o presidente Lula terá dificuldades e poderá até perder adeptos.