A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mantém o protocolo de distribuição de ivermectina para o tratamento da Covid-19, mesmo após a fabricante do medicamento informar que não há evidências de que o antiparasitário seja eficaz no combate ao coronavírus. Na última sexta-feira 5, a farmacêutica estadunidense Merck Sharp and Dohme (MSD), que produz a ivermectina, afirmou que não existe base científica que ateste eficácia ou traga benefícios aos pacientes infectados.
Em comunicado, a Merck, que não vende o produto no Brasil, enfatizou que não há “nenhuma base científica para um efeito terapêutico potencial contra Covid-19 de estudos pré-clínicos”, além de não existir “nenhuma evidência significativa para atividade clínica ou eficácia clínica em pacientes com doença Covid-19”. A farmacêutica disse que ainda que não acredita que “os dados disponíveis suportem a segurança e eficácia da ivermectina além das doses e populações indicadas nas informações de prescrição aprovadas pela agência reguladora”.

A fabricante segue o entendimento da Sociedade Brasileira de Infectologia, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de que não há medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da Covid-19 no Brasil. Na contramão das recomendações das autoridades sanitárias, o vermífugo que é utilizado para eliminação de parasitas, segue no receituário dos três centros de tratamento de Covid-19. O suposto tratamento precoce tem a chancela da Associação Médica do Rio Grande do Norte (AMRN) e do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte.
A reportagem do Agora RN visitou o Centro de Atendimento para Enfrentamento à Covid-19 montado no Palácio dos Esportes, na Zona Leste de Natal, para acompanhar o atendimento dos pacientes, desde a triagem até a medicação. Com tosse e incômodos na garganta, Roberto Alves, de 65 anos, foi um dos atendidos na unidade, na terça-feira 9. Ele foi medicado com azitromicina e ivermectina. “Acordei meio mole, espirrando e com a garganta ruim, aí decidi vir aqui e já vou começar o tratamento”, conta o idoso.
Moema Oliveira, de 56 anos, também recebeu assistência no Centro após apresentar sintomas de Covid-19, como tosse, garganta inflamada e perda do paladar e olfato. Ainda sem o diagnóstico confirmado para a doença, ela recebeu orientação médica para iniciar o tratamento com ivermectina e azitromicina. De acordo com João de Deus, que coordena a unidade do Palácio dos Esportes detalha que além da ivermectina são distribuídos xaropes, paracetamol, dipirona, azitromicina e prednisona.“
O paciente que apresenta algum sintoma passa pela triagem e é encaminhado para o médico. Caso esteja dentro do protocolo da saúde, do Ministério da Saúde, ele faz a coleta do swab [para detecção do coronavírus] e esse resultado sai entre três e cinco dias. Apresentando os sintomas o médico já libera o paciente com a medicação aqui no Palácio dos Esportes e independente do resultado ser positivo ou negativo, o paciente já inicia o tratamento a partir do momento em que ele sai daqui”, detalhou João de Deus.
A medida vai ao encontro da recomendação da Associação Médica do Rio Grande do Norte (AMRN), que voltou a defender o uso do antiparasitário como tratamento precoce em um evento na terça 9. Segundo um estudo apresentado pela instituição, 10 mil pacientes apresentaram algum tipo de benefício utilizando a ivermectina. O ensaio foi publicado no site c19study. “É fundamental que a comunidade médica se una, aprofunde e conheça esses estudos para que mais vidas possam ser salvas”, defendeu o médico infectologista Fernando Suassuna.
O protocolo de tratamento precoce para a Covid-19 em Natal é reprovado por Luiz Paulo Rosa, médico de família e comunidade, que atua em Sítio Novo, no interior do Rio Grande do Norte. “O tratamento precoce em si é uma falácia, já que não existe comprovação da eficácia. Do ponto de vista ético também é um absurdo porque a gente não pode expor o paciente a um tratamento que não traga benefício para ele. É um absurdo também do ponto de vista de investimento, de política pública. Como é que você utiliza recursos públicos para distribuir medicamentos que são comprovadamente ineficazes para uma doença em um contexto de pandemia?”, questiona.

Riscos
Luiz Paulo, que atuou em Natal no ano passado, faz um alerta para o que ele chama de “falso tratamento”, com remédios comprovadamente ineficazes. De acordo com ele, a medicação pode causar sensação de falsa proteção nas pessoas, o que prejudicaria a adoção de medidas realmente eficientes para contenção do vírus. “Utilizar isso como política pública em uma pandemia não faz nenhum sentido e chega a ser antiético porque você passa a falsa ideia de que ele vai se curar. Isso estimula comportamentos negacionistas contra medidas eficazes, como máscara, isolamento social e a própria vacina”, explica o médico, que também é professor de medicina de família e comunidade na UFRN.
Além de comprometer a adoção de ações coletivas de controle da pandemia, o uso indiscriminado de remédio para tratar precocemente uma doença que não possui tratamento precoce aprovado pode causar outras enfermidades, segundo o médico Luiz Paulo Rosa. “As consequências disso são inúmeras e vai depender do medicamento. A ivermectina pode causar uma série de reações adversas e inclusive simula o próprio quadro de Covid: podendo causar diarreia, sensação de fraqueza, manchas na pele, edemas de face e hepatite medicamentosa, que é uma doença mais grave. No caso da azitromicina, que é um antibiótico, existe uma grande chance do aumento da resistência bacteriana para condições que antes eram tratadas com a azitromicina, como a gonorreia e algumas infecções sexualmente transmissíveis”, explica.
A indicação da ivermectina é amplamente divulgada pelo médico e prefeito de Natal Álvaro Dias (PSDB). Em janeiro passado, o chefe do Executivo municipal se envolveu em uma polêmica ao declarar que seria a primeira pessoa a receber a vacina contra a Covid-19 em Natal, mas acabou recuando após repercussão negativa sob a justificativa de que estaria protegido por tomar regularmente o vermífugo. Dias determinou a distribuição gratuita do medicamento em todas as unidades de saúde e indicou o uso profilático (para prevenir a doença) em contraponto à orientação de autoridades científicas.
O que diz a SMS
A Secretaria de Saúde de Natal não quis se manifestar sobre o assunto. Questionada, a assessoria de imprensa se limitou a delegar o posicionamento da pasta ao titular George Antunes. O secretário não respondeu às tentativas de contato telefônico e também não foi localizado pela reportagem. Ele participaria do início da aplicação da 2ª dose da vacina contra a Covid-19 nesta quarta 10, mas cancelou o compromisso.