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Cultura

“A arte me deu chance de sair do armário com força de mil vendavais”, declara atriz Alice Carvalho

Premiada internacionalmente, tem formação de atriz adquirida com grupos como Clowns de Shakespeare, Cia. Teatro Interrompido, SEM Cia. de Teatro e Coletivo Alfenim
Redação
08/01/2022 | 11:20

Alice Carvalho é atriz, escritora, roteirista e dramaturga. Premiada internacionalmente, tem formação de atriz adquirida com grupos como Clowns de Shakespeare, Cia. Teatro Interrompido, SEM Cia. de Teatro e Coletivo Alfenim. Recentemente, a jovem finalizou o curso de Artes Visuais, na UFRN. Na música, tem colaborações notáveis com a banda BaianaSystem.

Em 2016, Alice idealizou, roteirizou e protagonizou a websérie SEPTO, que foi indicada e vencedora de vários prêmios do audiovisual. Em 2019, veio a segunda temporada da websérie. Ela participou ainda da série da TV Globo “Segunda Chamada”. Com uma lista curricular imensa, Alice ocupa todos os espaços que um talento potiguar merece.

Nova série original amazon será estrelada pela atriz potiguar alice carvalho
Alice Carvalho - Foto: Divulgação

Recentemente, a jovem iniciou as gravações da série “Cangaço Novo”, que será lançada pela Amazon Prime Video. Através de um convite para teste, feito em março de 2020, a potiguar passou por algumas avaliações até chegar à personagem Dinorah. “Ela é a imagem da mulher sertaneja, é a Maria Bonita 2.0, que não abaixa a cabeça para macho nenhum, que defende as mulheres e os mais pobres, além de ter uma força física que bota medo em quem cruza seu caminho”, contou Alice.

À Cultue, Alice falou um pouco sobre o que pensa politicamente, representatividade LGBTQIA+, e ainda revelou mais sobre o “Cangaço Novo”. Confira:

Revista Cultue – A série da Amazon tem você como uma das protagonistas, além de outros atores e atrizes potiguares. Esse lugar de representatividade é importante? Aliás, a produção terá a participação de Titina Medeiros, uma das atrizes pioneiras do Rio Grande do Norte…
Alice Carvalho – É um lugar muito importante. Acredito que seja, pra todos nós. É uma reafirmação do nosso valor, da nossa luta e da nossa verdade enquanto agentes do setor cultural do RN – muitas vezes tão menosprezado. Titina e eu somos amigas de longa data, uma amizade que nasceu justamente da admiração. Eu cresci vendo Titina trilhar um caminho muito verdadeiro, ao custo alto de seu suor, sem nunca mudar a essência. Quando fizemos nossas cenas juntas, a emoção tomou conta sem querer. Tem um valor muito alto, nós duas, com nossas trajetórias, finalmente nos encontrando em uma produção de quilate internacional como Cangaço Novo.

Cultue – Como é sua preparação antes de atuar?
Alice Carvalho – Depende bastante da cena. As minhas personagens são encontradas primeiro fisicamente: eu tento entender que tipos de exercícios podem me levar ao lugar onde as encontro através de habilidades a serem desenvolvidas. Para Dinorah eu fiz Hipismo, Muay Thai, Submition e Crossfit. A partir disso meu corpo mudou e esses exercícios me serviram para várias cenas. Emocionalmente, eu faço Bioenergética – instruída por Fátima Toledo – que me deixa mais aberta a certas emoções, sempre associada a músicas que eu escolho e que, para mim, definem o astral de cada personagem.

Cultue – Acredita que ainda precisamos de mais produções autenticamente nordestinas no audiovisual? Como você se sente levando o RN ao cinema mundial?
Alice Carvalho – Quanto mais Nordeste, melhor. E Nordeste verdadeiro, contado por gente nossa, fugindo do óbvio pra quebrar os clichês e desconstruir velhos conceitos preconceituosos sobre nós. Me sinto com uma responsabilidade única, mas me dou a importância de ser mais uma. Ultimamente estamos muito bem representados no estado, com muitos e muitas colegas incríveis. Eu estou aqui pra somar!

Cultue – O audiovisual foi bastante afetado durante a pandemia. Ao mesmo tempo, a cena local ganhou grande projeção com projetos como “Sideral”, por exemplo. Como você classifica essa expansão e como foi esse período para você?
Alice Carvalho – Classifico como mais um degrau na nossa vontade de desenvolver o mercado do setor. Ainda não temos um mercado consolidado, mas esse tipo de acontecimento fortalece nossa briga por políticas públicas e editais maiores. Durante a pandemia eu pude enxergar e estudar isso com mais clareza e me unir aos meus nesse propósito coletivo.

Cultue – Em 2016, você participou da websérie SEPTO, que venceu prêmios no mundo inteiro, com uma história LGBTQIA+. Como atriz que faz parte da comunidade, é importante ocupar esses espaços? Enquanto mulher preta, o reconhecimento pelo seu trabalho é ainda mais poderoso?
Alice Carvalho – É um dever, eu diria. É fisiológico, é político, e é uma outra forma de usar a boca. Eu acredito na máxima de que quando uma mulher preta se move, as bases se modificam também abaixo dela. E eu tenho consciência de que estar e ocupar espaços onde naturalmente eu não estaria é afrontar o sistema e o mundo. Isso me faz feliz. Peitar o sistema me faz feliz.

Cultue – Politicamente falando, a arte é um movimento que pode mudar realidades?
Alice Carvalho – Sem dúvidas. A arte me deu o que comer, o que vestir, pelo quê lutar. Me deu chance de sair do armário com força de mil vendavais, de ajudar outras meninas como eu sem pestanejar, de não me sentir sozinha nunca mais. Minha realidade foi mudada pela arte, e eu vejo o mundo lá fora como um reflexo do que sinto aqui dentro. E eu sou só mais uma artista, imagine quantos não fazem o mesmo movimento e transformam tudo no entorno?