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Saúde

Treinar corrida cedo demais pode causar lesões em crianças e adolescentes, alertam médicos

Especialistas afirmam que correr como brincadeira é saudável desde a infância, mas treinos estruturados devem começar apenas por volta dos 12 anos, com progressão gradual e acompanhamento profissional.
Por O Correio de Hoje
15/07/2026 | 16:53

O crescimento do número de praticantes de corrida de rua no Brasil também tem despertado o interesse de crianças e adolescentes pela modalidade. Embora correr faça parte das brincadeiras desde os primeiros anos de vida e seja considerado um estímulo importante para o desenvolvimento motor, especialistas alertam que a prática da corrida como treinamento esportivo deve começar apenas por volta dos 12 anos e sempre de forma leve, progressiva e acompanhada por profissionais.

Segundo médicos e pesquisadores da área de medicina esportiva e educação física, a corrida recreativa, inserida em atividades como pega-pega, jogos e brincadeiras, pode ser estimulada desde a infância. No entanto, quando a atividade passa a envolver treinos estruturados, aumento de volume e participação em provas, são necessários cuidados para evitar lesões por sobrecarga durante o período de crescimento.

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Especialistas recomendam iniciar treinos de corrida apenas a partir dos 12 anos - Foto:

A médica do esporte e ortopedista Ana Paula Simões, diretora da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), afirma que a corrida estruturada deve respeitar as diferentes fases do desenvolvimento físico.

“Correr como parte da brincadeira pode começar na infância, em qualquer idade. Mas a corrida mesmo só deve começar por volta dos 11 a 12 anos. Até essa idade, o foco é brincar e diversificar os esportes. A partir dos 12, pode ser introduzida uma corrida leve e técnicas de movimento e, dos 14, o treino estruturado com progressão de no máximo 10% de volume por semana”, diz.

A avaliação é compartilhada pelo professor Pedro Henrique Deon, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde coordena o Centro do Movimento. Segundo ele, a corrida não deve ser encarada como esporte de rendimento durante a infância.

“Na infância, o mais importante é que a corrida não seja tratada como treino de rendimento. Ao longo da adolescência, a prática pode começar a ganhar um pouco mais de organização, mas ainda exige atenção especial. É uma fase em que o corpo está mudando rápido, e isso pede cuidado com carga de treino, recuperação, técnica de movimento, hidratação, sono e alimentação. Também é importante observar se o jovem está conseguindo se adaptar bem, sem dor persistente, cansaço excessivo ou perda de prazer pela atividade.”

O professor Hugo Tourinho Filho, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), explica que cada faixa etária exige uma abordagem diferente.

Entre 2 e 6 anos, a prioridade deve ser o desenvolvimento motor global. Nessa fase, a corrida deve aparecer apenas como parte das brincadeiras, em deslocamentos curtos, sem qualquer preocupação com desempenho ou competição.

Dos 7 aos 11 anos, período em que ocorre uma evolução importante das habilidades motoras, a recomendação é evitar a especialização precoce. A corrida deve funcionar como atividade complementar a outras modalidades esportivas e, sempre que possível, ser realizada em superfícies macias, reduzindo o impacto sobre ossos, músculos e articulações.

Já entre 12 e 15 anos, fase marcada pelo estirão de crescimento, o treinamento pode começar a ser organizado, mas ainda com prioridade para o aprendizado da técnica e controle rigoroso da carga de exercícios.

“Dos 12 aos 15 anos, temos a fase de estirão do crescimento. Deve-se monitorar de perto as dores nas articulações para evitar lesões por sobrecarga. O treinamento passa a ser mais estruturado, mas ainda priorizando a técnica sobre o volume. E, dos 16 aos 18, quando ocorre a maturação final, permite-se o aumento gradual de volume e treinos de força, desde que supervisionados”, afirma Tourinho Filho.

Progressão

Além da idade, especialistas ressaltam que a evolução dos treinos precisa ocorrer de forma gradual. O aumento brusco da distância percorrida ou da intensidade dos exercícios pode elevar o risco de lesões.

Para Pedro Henrique Deon, a adaptação do organismo deve ser prioridade durante toda a adolescência.

“Alguns pontos são fundamentais, como respeitar períodos de descanso, não antecipar distâncias longas, garantir supervisão e lembrar que, nessa fase da vida, o esporte deve contribuir para a saúde e para o desenvolvimento, e não gerar sobrecarga precoce. Quando a progressão é bem feita, a corrida pode ser uma experiência positiva. Quando há pressa, excesso ou cobrança desproporcional, o risco é transformar uma prática saudável em fonte de desgaste físico e emocional”, afirma.

Segundo o pesquisador, mais importante do que aumentar rapidamente o número de quilômetros percorridos é garantir que o jovem esteja conseguindo se recuperar adequadamente entre os treinos. A participação de crianças e adolescentes em provas de corrida também segue regras específicas estabelecidas pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Os especialistas alertam que o principal risco de iniciar treinamentos intensos antes do tempo é submeter um organismo ainda em desenvolvimento a cargas incompatíveis com sua capacidade física.

Segundo Ana Paula Simões, um esqueleto imaturo pode sofrer diferentes consequências quando exposto ao mesmo volume de treinamento utilizado por adultos.

“Um esqueleto imaturo submetido a volume de adulto pode sofrer maior risco de fraturas por estresse e lesões na região de crescimento, deficiência energética relativa (RED-S) com atraso puberal e perda de massa óssea e maior risco de hipertermia, porque crianças toleram pior o calor”, afirma.

Além dos impactos físicos, Pedro Henrique Deon chama atenção para os efeitos psicológicos da especialização precoce. Segundo ele, a cobrança excessiva pode fazer com que crianças e adolescentes percam o interesse pelo esporte antes mesmo de atingir a idade adulta.

De acordo com o pesquisador, a pressão por desempenho pode provocar um processo semelhante ao burnout, levando ao abandono da prática esportiva. Por isso, a recomendação dos especialistas é que, durante a infância, a corrida seja vista principalmente como uma atividade prazerosa, integrada às brincadeiras e ao desenvolvimento saudável, deixando os treinamentos estruturados para quando o organismo estiver preparado para suportar maiores cargas de exercício.