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Cesariana

Pesquisa aponta que fatores sociais e estruturais impulsionam alta taxa de cesarianas no Brasil

Pesquisa do Unicef mostra que medo da dor, violência obstétrica e fatores sociais e estruturais influenciam a escolha da via de nascimento, contribuindo para as altas taxas de cesarianas no Brasil.
Por O Correio de Hoje
15/07/2026 | 16:40

A elevada proporção de cesarianas realizada no Brasil está relacionada a fatores que vão além da decisão individual das gestantes. Pesquisa divulgada na segunda-feira 13 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) conclui que aspectos sociais, psicológicos, econômicos e estruturais influenciam diretamente a escolha da via de nascimento, contribuindo para que muitas mulheres deixem de ter o parto normal desejado no início da gravidez.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que até 15% dos nascimentos ocorram por cesariana, procedimento indicado principalmente em situações de risco para a mãe ou o bebê. No Brasil, entretanto, mais de 60% dos partos são realizados por cirurgia. Na rede privada, esse percentual se aproxima de 90%, colocando o país entre aqueles com as maiores taxas de cesarianas do mundo.

Pesquisa aponta que fatores sociais e estruturais impulsionam alta taxa de cesarianas no Brasil - Agora RN
Maioria das gestantes quer parto normal, mas acaba passando por cesariana, aponta estudo - Foto: EBC

O estudo foi desenvolvido a partir de uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgada em 2014, segundo a qual sete em cada dez gestantes pretendiam ter parto normal no início da gestação. A proposta foi identificar quais fatores modificam essa decisão ao longo da gravidez.

Intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, o levantamento entrevistou 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo e Belém, abrangendo atendimentos realizados tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede privada.

Nas duas capitais, os índices de cesariana permanecem elevados. Em São Paulo, 56,19% dos nascimentos ocorreram por cirurgia em 2024, percentual que chega a 71,05% nos hospitais particulares. Em Belém, as cesarianas representaram 69,28% dos partos e alcançaram 80,41% na rede privada. Ambas as cidades possuem legislação que permite à gestante solicitar o procedimento no momento do parto.

A pesquisa identificou que o desejo de protagonismo e de uma experiência positiva permanece presente entre muitas mulheres, mas acaba sendo influenciado por diferentes fatores ao longo da gestação. Entre os aspectos psicológicos, a recuperação mais rápida aparece como um dos principais motivos para optar pelo parto normal. Em contrapartida, o medo da dor continua sendo um dos fatores que mais favorecem a escolha da cesariana.

Segundo a especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, a percepção negativa sobre o parto normal é fortemente alimentada por relatos familiares e experiências anteriores que, muitas vezes, refletem episódios de violência obstétrica.

“Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia presente, com vários procedimentos e intervenções que não eram necessárias, com indução de parto sem necessidade… Todas essas violências estão presentes no imaginário das pessoas.”