Maria Rita revelou que enfrentou um dos períodos mais difíceis da carreira ao ser diagnosticada com um quadro grave de burnout, que a afastou dos palcos por quase dois anos. A crise, agravada pelo roubo do caminhão que transportava os equipamentos de seus shows — patrimônio construído ao longo de mais de duas décadas de trabalho —, provocou um abalo financeiro e emocional que levou a cantora a interromper a rotina de apresentações e buscar tratamento. Em entrevista ao jornal O Globo, ela contou que viveu uma crise existencial, passou a duvidar do próprio talento e encontrou no repertório de Elis Regina a força para retomar a carreira com a turnê “Redescobrir Vol. 2”.
“Foi uma busca consciente pelo colo da minha mãe”
Ao comentar o significado da nova turnê, Maria Rita afirmou que o projeto nasceu em um momento de grande fragilidade pessoal e profissional.

“Muita coisa. Ela não estava no meu horizonte. Vivia um momento profissional e pessoal desafiador. Um dia, estava olhando para o nada, sem rumo, sem entender o que tinha feito de errado e me veio a imagem de um palco branco e eu de vermelho, no centro. Foi um recado mesmo. Bem no período em que o caminhão com minha carga de equipamento foi roubado. Aquilo mexeu muito comigo. Já estava me sustentando com pouco e, com o assalto, eu quebrei. Levei um tempo para até perceber que aquela imagem era um colo, um coração pulsante em cima do palco. Diante de tantos questionamentos, só uma pessoa poderia me fortalecer. Foi uma busca consciente pelo colo da minha mãe.”
Segundo a cantora, ao contrário da primeira edição do espetáculo, apresentada em 2012 como uma homenagem a Elis Regina, a nova montagem representa um reencontro consigo mesma.
“É um show para mim, das questões do ofício de cantar num mercado em constante mutação. O vermelho é o coração pulsando, com imperfeições, desafios, oscilações, ansiedades, mas também com amor, família, todo o simbolismo de um coração criando, vivendo e sobrevivendo. Canto ‘Maria Maria’ chorando porque me sobe um nó… Me leva para um outro lugar agora.”
Burnout e crise existencial
Maria Rita revelou que permaneceu trabalhando mesmo após receber o diagnóstico de burnout, decisão que hoje afirma não recomendar.
“O diagnóstico de um burnout pesado. Quando veio continuei trabalhando, o que não recomendo. A sensação era das coisas saindo do controle afetivo, emocional de mim mesma no palco, da paixão, da entrega. Isso começou a me escapar e virou uma bola de neve. Porque veio uma crise existencial, me senti uma mentira. Nunca parei de entregar o que meus fãs estão acostumados, mas olhava aquele roteiro no chão e falava: ‘O que eu estou fazendo? Que enganação eu sou’. Não é a síndrome da impostora, que também já tive, era mais complicado…”
Ela contou que passou a sentir medo de situações simples durante os shows.
“Medo de dar boa noite para o público, de não lembrar de letra, de travar na boca do palco. Aí falei: ‘Caralho, mano, se eu não parar…’. Essa turnê me ajuda nesse lugar de colo, de ressignificar sentenças, poesias, melodias, de me permitir. Então, fiz tudo que queria, de um jeito bem exibido, enchendo meus olhos para encher os do público também.”
O legado de Elis Regina
Ao falar sobre o repertório da turnê, Maria Rita afirmou que interpretar clássicos eternizados por Elis representa um desafio artístico.
“Porque são canções que marcaram não só a mim como filha, mas o arranjador, o trombonista que cresceu ouvindo, o outro que estudou aquele repertório, o músico que nunca soube, mas sempre teve o sonho de tocar com a minha mãe. É difícil deslocar na sonoridade porque há uma identidade forte. Ainda tem a mão do meu pai (César Camargo Mariano, pianista e arranjador) nos arranjos. E agora estou tocando com meu filho (Antonio Baldini toca violão e percussão), aquela barriga virou um músico.”
A cantora também relembrou a amizade entre Elis Regina e Rita Lee, que inspirou seu nome.
“Elas não se conheciam. E Rita estava presa, grávida. Minha mãe, furiosa com uma mulher como a Rita presa, fez um escarcéu na delegacia até soltarem ela, darem comida e água para a grávida. Elas ficaram melhores amigas de infância naquele momento. Brincavam que eram amigas de internato. Rita chamava minha mãe de Maria Elis, e minha mãe chamava ela de Maria Rita.”
Luto, fé e amadurecimento
Maria Rita afirmou que a morte precoce da mãe marcou profundamente sua relação com a espiritualidade.
“Quando eu tinha uns 8 anos, uma amiga na escola um dia falou: ‘Uai, por que você não acredita em Deus?’. E eu: ‘Vou acreditar num cara que tira a mamãe de uma criança?’. Então, teve, sim.”
Ela disse que encontrou no candomblé uma nova forma de compreender a espiritualidade.
“Fui percebendo a grandeza de Deus na natureza. Por isso o candomblé faz tanto sentido pra mim. A partir do momento que desenvolvo essa relação com o orixá, entendo a força maior de uma vida.”
A artista também reconheceu que a perda da mãe deixou uma tristeza permanente, mas afirma que aprendeu a conviver com ela.
“Sim. Uma tristeza que eu acolho, mas cuido só para ela não me paralisar. A gente cresce dessas coisas. A solidão ensina. O silêncio, a sombra são necessários. A sombra só existe porque tem luz.”
Comparações com Elis
Ao comentar as constantes comparações com Elis Regina, Maria Rita disse que não aceita mais ataques relacionados ao tema.
“A questão de não abordar mais o assunto é nessa comparação agressiva, que diminuiu muito, mas tem. (…) Sou filha dela, que me tirou da mão do médico e não largou mais. Vou catar ela no meu colo, não largo e não permito mais isso.”
Segundo a cantora, a maturidade permitiu transformar o legado da mãe em alicerce, e não em peso.
“Hoje estou muito bem sendo quem eu sou.”
Machismo na música
Questionada sobre as dificuldades enfrentadas na carreira, Maria Rita afirmou que ainda precisa conquistar respeito no meio artístico e avaliou que o machismo contribuiu para a imagem de Elis Regina como uma artista “temperamental”.
“Tenho ainda. Mas tive sorte de ter como meu primeiro grande aliado o Tom Capone. Minha batalha nunca foi por bobagem, mas para pagar melhor os músicos, um hotel bom para todos, não subir ao palco enquanto não estiver com a voz aquecida.”
Ao responder se o machismo ajudou a construir a fama da mãe, concluiu:
“Eu tenho também. E eu sou mesmo. Mas nunca xinguei ninguém (risos). Minha mãe não tinha escolha. Eram outros tempos, ela tinha um metro e meio, saiu do Rio Grande do Sul. Eu tenho 1,58 m, morei em Nova Iorque, falo três idiomas. E já sou filha da Elis. Ela era filha da costureira.”