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Comportamento

Repetir o mesmo filme ajuda no desenvolvimento infantil, apontam especialistas

Psicólogos afirmam que rever animações como Moana fortalece memória, linguagem, compreensão emocional e aprendizagem durante a infância
Por O Correio de Hoje
15/07/2026 | 17:02

Quem convive com crianças pequenas provavelmente já ouviu o mesmo pedido dezenas de vezes: assistir novamente ao mesmo filme. Seja Moana, Frozen, Encanto ou outra animação, a repetição pode parecer cansativa para os adultos, mas, segundo especialistas, ela desempenha um papel importante no desenvolvimento infantil.

O exemplo da pequena Rory Henry, de 2 anos, ilustra esse comportamento. Moradora de Fort Worth, no Texas (EUA), ela assistiu à animação Moana cerca de 40 vezes ao longo de um ano e meio. A paixão pelo filme ultrapassou a televisão: Rory possui um boneco do porquinho Pua, personagem da história, um microfone de karaokê com músicas de Moana 2, além de vestidos, óculos escuros e acessórios inspirados na protagonista. Em casa, os pais chegaram ao ponto de evitar mencionar a chamada “palavra com M” para não despertar imediatamente o desejo da filha de assistir ao filme novamente.

moana
Desde 2016, Moana tornou-se o filme mais assistido da história do Disney+, com mais de 1,5 bilhão de horas reproduzidas no app - Foto: divulgação

O caso está longe de ser isolado. Desde seu lançamento nos cinemas, em 2016, Moana tornou-se o filme mais assistido da história do Disney+, acumulando mais de 1,5 bilhão de horas de reprodução na plataforma de streaming. A sequência, lançada em 2024, também entrou para a lista das dez animações de maior bilheteria da Disney, consolidando a franquia entre os maiores sucessos do estúdio.

Para especialistas, o fenômeno não se explica apenas pela qualidade da animação ou pela trilha sonora. Segundo Cristel Antonia Russell, professora de marketing da Universidade Pepperdine, na Califórnia, a preferência por histórias conhecidas está relacionada ao chamado “paradoxo da escolha”, conceito apresentado pelo psicólogo Barry Schwartz em 2004.

De acordo com a pesquisadora, quando as pessoas se deparam com um número muito grande de opções, tendem a recorrer ao que já conhecem e sabem que lhes proporciona satisfação.

“É aquela coisa de que você tem certeza absoluta que vai gostar”, explica Russell.

Ela compara esse comportamento ao chamado “efeito cardápio chinês”, em que consumidores acabam escolhendo repetidamente o mesmo prato diante de inúmeras alternativas disponíveis. Esse comportamento, segundo os pesquisadores, torna-se ainda mais intenso entre as crianças porque o cérebro infantil está em pleno processo de desenvolvimento.

O psicólogo Sam Wass, diretor do Instituto de Ciência da Primeira Infância e Juventude da Universidade de East London, explica que rever a mesma história permite que a criança desenvolva habilidades cognitivas relacionadas à memória, à linguagem, à compreensão emocional e à capacidade de prever acontecimentos.

Segundo ele, o aprendizado acontece em uma faixa intermediária entre o totalmente previsível e o completamente desconhecido, conceito conhecido entre psicólogos como “Zona Cachinhos Dourados”.

“Os psicólogos às vezes chamam isso de ‘Zona Cachinhos Dourados’”, afirma.

Como as crianças pequenas possuem um repertório de experiências menor do que os adultos, elas conseguem atingir essa zona ideal de aprendizado tanto com histórias simples quanto com narrativas mais complexas, desde que tenham oportunidade de revê-las diversas vezes.

“O que para nós parece entediante, da perspectiva do cérebro de uma criança de 3 anos pode ser o nível certo de desafio”, explica Wass.

Embora para os pais o filme pareça exatamente igual a cada exibição, o cérebro infantil processa informações diferentes a cada vez.

Inicialmente, a criança compreende apenas os acontecimentos principais da história. Nas exibições seguintes, passa a perceber detalhes como expressões faciais, emoções, vocabulário, relações entre personagens, piadas e motivações que antes haviam passado despercebidos.

“Em certo sentido, elas estão fazendo o mesmo experimento repetidas vezes, mas extraindo novas informações a cada vez”, afirma o psicólogo.

Segundo Wass, esse processo explica também por que crianças costumam pedir a mesma história antes de dormir, insistem em brincar da mesma maneira, preferem comer os mesmos alimentos e, muitas vezes, repetem inúmeras vezes uma mesma atividade.

“Da perspectiva de um adulto, nada de novo está acontecendo. Da perspectiva da criança, ela está refinando e testando milhares de pequenas previsões a cada segundo.”

Para ele, quanto mais complexo for o conteúdo apresentado e mais jovem for o cérebro, maior será a necessidade de repetição para consolidar o aprendizado.

“Quanto mais complexo for o conteúdo e mais jovem o cérebro, mais vezes é preciso rever algo até que aquilo se torne previsível e a pessoa pare de aprender ao assistir.”

Sucesso de Moana

Além dos aspectos ligados ao desenvolvimento infantil, especialistas apontam características próprias da animação que ajudam a explicar seu sucesso.

Cristel Russell afirma que Moana reúne uma protagonista diferente dos modelos tradicionais das princesas da Disney, uma narrativa voltada ao empoderamento e uma trilha sonora marcante, composta por Lin-Manuel Miranda.

Para ela, músicas como “De Nada”, “Para Ir Além” e “Saber Quem Sou” ampliam o vínculo emocional do público com a história e contribuem para que as crianças queiram reviver a experiência.

“Você não precisa rever um musical para reviver a experiência do filme”, afirma Russell. “Você pode ouvir uma música no rádio e ainda sentir todas as emoções positivas associadas a ele.”

Segundo os especialistas, essa combinação entre previsibilidade, aprendizado e vínculo emocional ajuda a explicar por que tantas crianças pedem para assistir repetidamente ao mesmo filme e por que, para muitos pais, decorar as músicas das animações acaba sendo praticamente inevitável.