Uma revisão de 41 estudos publicados entre 1973 e 2023 encontrou associação consistente entre alimentos altamente processados e a maior parte do que as pessoas consomem durante episódios de compulsão alimentar: cerca de 70% dos alimentos ingeridos nesses momentos pertencem a essa categoria, contra aproximadamente 15% de opções minimamente processadas.
O trabalho, assinado por Julia Worth, Tera Fazzino, Kendrin Sonneville, Kelly Klump e Ashley Gearhardt, reúne pesquisadores da Universidade de Michigan, da Universidade do Kansas e da Michigan State University, e foi publicado no International Journal of Eating Disorders sob o título “Highly Processed Foods in Binge-Eating Episodes: The Importance of Improving Food Reporting”.

Dois números complementares reforçam o achado: todos os estudos analisados relataram ao menos um alimento altamente processado nos episódios de compulsão, enquanto apenas 32% registraram o consumo de algum alimento minimamente processado. Nenhum estudo identificou episódios compostos exclusivamente por alimentos in natura, como frutas e hortaliças. Entre os itens mais citados aparecem bolo, sorvete, biscoito, chocolate, pizza e salgadinhos.
Uma distinção que muda a leitura
Vale precisar o vocabulário. A revisão trabalha com a categoria “alimentos altamente processados”, definida na literatura internacional principalmente pela combinação de gordura e carboidrato refinado em alta densidade — critério que não coincide exatamente com “ultraprocessados” da classificação NOVA, desenvolvida na Universidade de São Paulo e adotada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. Há grande sobreposição entre as duas listas, mas os conceitos não são intercambiáveis, e leitores acostumados ao vocabulário brasileiro podem interpretar o dado de forma mais ampla do que os autores propõem.
O objetivo declarado do estudo, aliás, é metodológico: os pesquisadores argumentam que décadas de pesquisa sobre compulsão alimentar trataram o problema como questão essencialmente psicológica ou comportamental, com pouca atenção ao que efetivamente é ingerido — e defendem que o registro alimentar nas pesquisas passe a discriminar o grau de processamento.
O que caracteriza a compulsão
A compulsão alimentar é definida por episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida acompanhados da sensação de perda de controle. Para fins diagnósticos, os episódios precisam ocorrer pelo menos uma vez por semana durante três meses.
“Para fins diagnósticos, é importante observar o contexto em que essa ingestão ocorre, além da frequência e do sofrimento emocional associado”, afirma a psicóloga Patrícia Cristina Gomes, especialista em transtornos alimentares do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.
Estima-se que o transtorno afete entre 1% e 3% da população. Uma pessoa nessa condição pode consumir até 5.000 calorias em um único episódio — para comparação, a média diária recomendada para a população geral fica entre 1.800 e 2.000 calorias.
Por que o alimento entra na conta
Segundo a psicóloga, características desses produtos favorecem o consumo excessivo. “Não é só uma questão de ‘falta de controle’ ou preferência. Os ultraprocessados têm características que favorecem o consumo excessivo, como serem muito palatáveis, combinarem açúcar e gordura, serem absorvidos rapidamente e ativarem o sistema de recompensa”, diz. Algumas pessoas são mais sensíveis a esses estímulos, o que pode elevar o risco.
Situações de estresse, ansiedade e tristeza também aumentam a busca por esse tipo de comida. E a restrição alimentar excessiva funciona como fator de risco: quando a pessoa volta a ter contato com alimentos que tentou evitar, cresce a chance de perda de controle. Por isso a orientação clínica é manter uma rotina alimentar regular e trabalhar a relação com a comida sem culpa ou pensamentos de “tudo ou nada”.
A associação observada não é, contudo, relação de causa. “A compulsão alimentar é multifatorial, envolve aspectos emocionais, cognitivos, sociais e biológicos. Nem todas as pessoas expostas a esses alimentos desenvolvem o transtorno”, pondera Gomes. A revisão foi noticiada originalmente por O Correio de Hoje, em reportagem sobre a presença de processados nos episódios de compulsão.
Havendo suspeita da condição, a orientação é procurar atendimento especializado, preferencialmente com equipe multidisciplinar formada por nutricionista, psicólogo e médico psiquiatra.