A jovem Manuella, de 22 anos, afirmou que ainda tenta lidar com os impactos emocionais da injúria racial e da importunação sexual que sofreu dentro de um mercadinho no bairro Golandim, em São Gonçalo do Amarante. O caso aconteceu na última segunda-feira (20), quando um homem de 57 anos a abordou enquanto ela fazia compras e, após ter a investida recusada, passou a ofendê-la. Segundo a Polícia Civil, o suspeito permanece preso após audiência de custódia.
Em entrevista, Manuella contou que havia saído do trabalho e passou no mercado antes de voltar para casa. Como costuma frequentar o estabelecimento, conversou com funcionários do açougue antes de seguir para o setor de frutas e verduras, onde foi abordada pelo homem.

Segundo a jovem, o suspeito perguntou se ela o queria e insistiu na aproximação. Depois de receber uma resposta negativa, voltou minutos depois e passou a fazer ofensas raciais.
“Ele disse que eu não o queria porque eu era preta e que eu não valia nada.”
Após as ofensas, Manuella gravou o homem com o celular. Segundo ela, ao perceber que estava sendo filmado, ele mudou a versão dos fatos e passou a fazer elogios em tom de deboche.
“Pode se notar no vídeo que ele fala de forma muito debochada. Ele ri, inclusive. Mudou totalmente a narrativa dele. Ele disse que eu era linda, que eu era maravilhosa. Eu disse que ia chamar a polícia e, novamente, ele continuou falando de forma debochada.”
A jovem afirma que o episódio deixou marcas que vão além do momento da agressão e diz que pretende buscar acompanhamento psicológico.
“Eu espero que ele fique preso, espero que ele pague, porque o que ele me falou não vai sair da minha cabeça. Eu tenho que começar a procurar um tratamento psicológico, porque são coisas que, ao decorrer do tempo, vão machucando, fazendo a gente se sentir acuada para frequentar certos lugares.”
Manuella contou que, embora já tivesse percebido situações de discriminação ao longo da vida, nunca havia sofrido uma ofensa racial de forma tão explícita.
“A gente que é negro sabe que, em determinados lugares, é olhado de forma diferente, tratado de forma diferente de uma pessoa branca. Mas falado assim, alto e bom som, para todo mundo escutar, foi a primeira vez.”
Além da injúria racial, ela relata que também foi vítima de importunação sexual e afirma que esse tipo de situação faz parte da realidade enfrentada diariamente por muitas mulheres.
“A gente que é mulher está propensa a isso acontecer a todo momento. Minha mãe já passou por isso, minhas irmãs já passaram por isso. Já é parte da rotina ouvir uma buzinada, ouvir uma gracinha.”
Para a jovem, tornar casos como esse públicos é uma forma de combater a naturalização do racismo e do assédio.
“É muito importante que isso seja falado para que passe a ser desnaturalizado, porque a gente vive numa sociedade racista. Dar oportunidade para a vítima relatar o que aconteceu é muito importante.”
Ao final da entrevista, Manuella fez um apelo para que outras vítimas procurem os meios legais e não deixem episódios semelhantes sem resposta.
“Nunca deixem que isso fique por isso mesmo. As mulheres não se calem diante do assédio. Pessoas pretas não se calem diante do racismo, porque a gente tem, sim, que se posicionar.”
O caso aconteceu na última segunda-feira (20) e foi registrado pelas câmeras de segurança do estabelecimento. As imagens mostram a aproximação do suspeito e parte da discussão após as ofensas. Em nota, a Polícia Civil informou que o homem permanece preso depois de passar por audiência de custódia.