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Eleições 2026

Ministério Público vê “esquema organizado” de pesquisas fraudulentas que puseram Álvaro Dias na liderança

Parecer aponta irregularidade nas sete pesquisas favoráveis ao candidato do PL e pede investigação da Polícia Federal
Agora RN
01/09/2026 | 15:26

O Ministério Público Eleitoral (MPE) identificou indícios de um “esquema organizado de produção e divulgação de pesquisas fraudulentas” em levantamentos que colocaram Álvaro Dias (PL) na liderança da disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte. A conclusão consta em parecer juntado a um processo que tramita no Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN).

Assinado pelo procurador eleitoral auxiliar Kleber Martins de Araújo, o documento sustenta que as irregularidades não estariam restritas a uma pesquisa. Ao analisar levantamentos registrados entre abril e julho, o MPE afirma ter identificado a repetição de problemas metodológicos, a participação recorrente dos mesmos profissionais e possíveis conexões entre institutos e empresas contratantes.

Álvaro Dias fala diante de microfone durante entrevista em estúdio
Álvaro Dias, candidato do PL ao Governo do RN: parecer do MPE analisa sete pesquisas que o colocaram na liderança. Foto: José Aldenir

Foram registradas 26 pesquisas sobre a disputa pelo Governo do Estado entre 3 de abril e 13 de julho. Desse total, 19 apontaram Allyson Bezerra (União) na liderança e sete colocaram Álvaro à frente. O parecer afirma que todas as sete favoráveis ao candidato do PL apresentariam irregularidades documentadas, envolvendo os institutos Veritá, PNH/Affare, Consult, Ipsensus e Média.

Entre os elementos comuns, o Ministério Público destaca problemas relacionados à distribuição dos entrevistados por renda e a atuação do estatístico Augusto da Silva Rocha e do empresário Thales da Silva Vale, sócio-administrador do instituto Média. O parecer ressalta que Rocha foi suspenso por 12 meses pelo Conselho Regional de Estatística em 2023 e chegou a responder por 937 pesquisas em uma única campanha. Sobre Thales, afirma que ele ocupou cargo comissionado em um gabinete de comunicação municipal vinculado ao pré-candidato beneficiado pelos levantamentos que inverteram a liderança.

Para o MPE, a reunião desses elementos “indicia a existência de esquema organizado de produção e divulgação de pesquisas fraudulentas destinadas a influenciar a formação da vontade do eleitorado”. O órgão acrescenta que o caso recomenda uma “apuração em amplitude máxima”.

A pesquisa da Média

O parecer foi apresentado na sexta-feira 28 em uma representação eleitoral ajuizada pela coligação Esperança e Trabalho, que apoia Allyson, contra o instituto Média. O processo discute a execução e a integridade dos dados da pesquisa RN-08092/2026, que mostrou Álvaro com 32,1% das intenções de voto e Allyson com 27,5%. O levantamento foi registrado em 3 de julho: a empresa declarou ter realizado 2 mil entrevistas presenciais em 85 municípios entre os dias 3 e 8 daquele mês, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais. A pesquisa foi contratada pela Potengi Comunicação por R$ 20 mil e divulgada em 9 de julho.

O primeiro problema apontado é a realização de 450 entrevistas antes do período informado à Justiça Eleitoral. Os questionários, equivalentes a 22,5% da amostra, teriam sido preenchidos em Natal no dia 2 de julho, véspera do registro. O instituto alegou que se tratava de um pré-teste, mas o MPE afirma que o próprio relatório operacional identifica a data como o primeiro dia da coleta efetiva.

Outra inconsistência envolve as coordenadas geográficas: conforme o parecer, nenhuma das 2 mil localizações de GPS estaria dentro do município declarado, e os 85 municípios informados corresponderiam, na prática, a apenas 31 localidades. As 450 entrevistas atribuídas a Natal apareceriam georreferenciadas em Ielmo Marinho (210 registros), Santana do Matos (140) e Lajes (100), em pontos a distâncias que chegariam a 158,8 quilômetros da capital. A defesa atribuiu a divergência a um problema na conversão entre sistemas cartográficos — explicação que o MPE considerou “tecnicamente insustentável”.

Os microdados também registrariam 168 mudanças de município em intervalos incompatíveis com deslocamentos terrestres: para cumprir os trajetos no tempo informado, os entrevistadores precisariam alcançar velocidades entre 211 km/h e 337 km/h. Em um dos exemplos citados, a distância de 77,2 quilômetros entre Itaú e Luís Gomes teria sido percorrida em pouco mais de 13 minutos. Para a Procuradoria, as justificativas apresentadas evidenciariam a “fabricação dos horários para simular uma cadência de campo inexistente”.

O parecer destaca ainda uma uniformidade considerada incompatível com coleta presencial: todos os 56 registros de dias trabalhados pelos entrevistadores começariam entre 7h30 e 7h39, sem um único intervalo entre questionários inferior a seis minutos e meio. O padrão constitui, para o MPE, “indício veemente de preenchimento automatizado ou ‘escritório’, e não de coleta real em ambiente urbano ou rural”.

O ponto classificado como de “maior gravidade” envolve a renda dos entrevistados. A distribuição registrada na base reproduziria, com precisão de centésimos, os percentuais previstos no plano amostral — segundo o parecer, a probabilidade estatística de essa coincidência ocorrer naturalmente seria de uma em 10,8 bilhões. Um teste de independência teria indicado que os dados de renda foram atribuídos aleatoriamente, e não obtidos durante as entrevistas.

O documento responsabiliza solidariamente a Potengi Comunicação, na condição de contratante e veiculadora, e aponta o descumprimento da decisão que havia suspendido a circulação da pesquisa. O órgão pede a execução da multa diária de R$ 10 mil, a remoção das postagens remanescentes, a proibição definitiva da divulgação e multa acima do mínimo legal às duas empresas.

Investigação criminal

Paralelamente, o procurador encaminhou uma notícia-crime para apuração na esfera penal, apontando, em tese, os crimes de divulgação de pesquisa fraudulenta, embaraço à fiscalização e falsidade ideológica eleitoral. As duas primeiras infrações podem resultar em detenção de seis meses a um ano e multa; a falsidade ideológica eleitoral pode levar à reclusão de até cinco anos quando praticada em documento público. O MPE propõe que a apuração alcance também o levantamento RN-09520/2026, do instituto Ipsensus, no qual dois códigos de entrevistadores responderiam por 73,1% das 1,5 mil entrevistas e três concentrariam 90,1% da amostra.

Segundo o parecer, as equipes declaradas pela Ipsensus coincidem com profissionais ligados à Média, o endereço comercial desta última seria o mesmo da empresa contratante da pesquisa da Ipsensus e representantes da Média compareceram às diligências sobre o segundo instituto — conjunto que indicaria o possível uso da Ipsensus como “pessoa jurídica interposta a serviço do mesmo grupo”.

As empresas representadas contestaram a ação e defenderam a regularidade do levantamento da Média. Também alegaram inadequação do processo e duplicidade em relação a outra representação, além de questionarem o emprego de ferramentas de inteligência artificial na análise apresentada pela coligação. O Ministério Público rejeitou esses argumentos. O parecer ainda será analisado pela Justiça Eleitoral e não representa condenação.

O caso foi publicado na edição desta terça-feira 1º do jornal O Correio de Hoje.

Em agosto, o Agora RN mostrou que as pesquisas pró-Álvaro eram as únicas sob inquérito criminal no Estado (leia mais).