A Operação Lectus, deflagrada pela Polícia Federal em 2021 para apurar suspeitas de irregularidades em contratos de leitos de UTI da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) durante a pandemia, virou munição no debate do Grupo Dial Natal na noite desta quarta-feira 2. O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Allyson Bezerra (União) cobrou repetidas vezes explicações do adversário Cadu de Lula (PT) sobre a investigação, e o petista respondeu atribuindo a Allyson a condição de investigado, em referência à Operação Mederi.
O embate começou quando Cadu de Lula lembrou a operação da Polícia Federal que cumpriu mandado contra Allyson Bezerra. O ex-prefeito de Mossoró reagiu e desafiou o petista a reconhecer que o Governo do Estado também havia sido alvo de uma operação. “Você tem coragem de olhar para aquela câmera e dizer que nunca a Polícia Federal bateu na porta do Governo do Estado para fazer uma investigação?”, perguntou.

Cadu devolveu o ataque e acusou Allyson de ser “suspeito de corrupção” e de ter “desviado dinheiro da saúde”, em referência à Operação Mederi, que investiga contratos da Prefeitura de Mossoró. Foi então que Allyson mencionou diretamente a Operação Lectus. “Sabe por que ele não aceita? Porque a Polícia Federal, sim, já bateu à porta do Governo do Estado. Eu estou falando de um escândalo de corrupção que derrubou a secretária de Saúde do Estado”, afirmou.
Em seguida, o candidato do União Brasil cobrou uma resposta sobre a investigação: “Um desvio de leitos de UTI durante a pandemia. O que você tem a dizer para explicar ao cidadão?”.
Cadu sustentou que a governadora Fátima Bezerra (PT) não teve participação nos fatos investigados e adotou as providências necessárias diante das suspeitas. “Tem que dizer que a governadora Fátima teve a hombridade que você não teve de afastar qualquer servidor suspeito, porque ela não tinha envolvimento nenhum com esses fatos”, rebateu.
Allyson contestou a versão e afirmou que o afastamento das servidoras havia sido determinado judicialmente. “Quem afastou foi a Justiça. A Justiça, a pedido da Polícia Federal, afastou a secretária adjunta”, declarou. O candidato acrescentou que a medida teria sido adotada diante da gravidade dos indícios apurados.
Ao longo do debate, promovido pelo Grupo Dial Natal, que reúne as rádios 98 FM e Jovem Pan Natal, Allyson voltou ao tema em diversos momentos, repetiu o nome da operação e pediu que os espectadores pesquisassem o caso. “Operação Lectus. Dê uma olhada em casa agora. Operação Lectus. Polícia Federal na porta do Governo do Estado”, afirmou.
O candidato ainda acusou Cadu de tentar se afastar da gestão da qual participou: “Ele está querendo negar tudo isso e querendo negar os dados de segurança pública. Candidato, assuma o seu governo.”
Cadu, por sua vez, voltou a citar a operação que atingiu o ex-prefeito de Mossoró. “Quem é investigado por corrupção aqui é você, candidato. Você teve a Polícia Federal na sua porta. Eu nunca tive a Polícia Federal na minha porta”, disse o petista.
A Operação Lectus foi deflagrada em 25 de agosto de 2021 pela Polícia Federal, em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Receita Federal. A investigação examinou dois contratos da Sesap, que somavam R$ 13,5 milhões e previam a implantação de 50 leitos de terapia intensiva: dez no Hospital Central Coronel Pedro Germano (Hospital da PM) e 40 no Hospital Dr. João Machado, ambos em Natal.
A operação investigava suspeitas de fraude em dispensas de licitação, peculato, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Uma auditoria identificou indícios de direcionamento na contratação de uma empresa que não teria experiência na implantação de UTIs nem capacidade técnica, econômica e operacional compatível com o serviço. A contratada também teria utilizado equipamentos e materiais da própria Sesap e deixado de disponibilizar todos os profissionais previstos.
Na época, a Justiça Federal determinou o afastamento da então secretária-adjunta da Sesap, Maura Sobreira, e da coordenadora de Atenção à Saúde, Gilsandra de Lira Fernandes. As duas foram posteriormente exoneradas pelo Governo do Estado, com atos publicados no Diário Oficial em 3 de setembro de 2021.
Ou seja, houve inicialmente o afastamento cautelar determinado pela Justiça e, depois, a exoneração administrativa promovida pela governadora Fátima Bezerra — sequência que ajuda a entender a divergência entre os dois candidatos sobre quem afastou as servidoras.