A conta da guerra no Irã chegou às urnas nos Estados Unidos. O conflito, aberto por americanos e israelenses em 28 de fevereiro, pesou contra Donald Trump na votação de meio de mandato desta terça-feira 3, ao encarecer a energia no mercado internacional, apertar o orçamento das famílias e aumentar o descontentamento com a política externa da Casa Branca. Depois da vitória do Partido Democrata, o próprio Trump admitiu que a ofensiva influenciou o voto, mas continuou defendendo a decisão de levar o ataque ao território do Irã.
“Acho que parte disso se deve ao Irã, mas, ao mesmo tempo, as pessoas entenderam a importância do que eu fiz com o Irã”, afirmou o presidente à Fox News. Ao Wall Street Journal, disse ter feito “a coisa certa” e que “faria novamente”, com o argumento de que era preciso impedir o Irã de desenvolver armas nucleares. O vice-presidente, JD Vance, também reconheceu que a guerra pesou no resultado dos republicanos, num momento em que os custos econômicos e políticos da operação passaram a ser questionados.

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Combustível
O impacto no bolso veio sobretudo do Estreito de Ormuz, onde o tráfego de navios sofreu restrições. Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo negociado no mundo passava por ali, e a interrupção do fluxo prejudicou o abastecimento e fez subir as cotações de energia. Na véspera da votação, o galão da gasolina comum custava em média US$ 4,17 nos Estados Unidos, e o do diesel passava de US$ 6, conforme dados da Associação Americana de Automóveis (AAA) reunidos no levantamento. Esses preços encareceram o transporte, a produção e o consumo.
A tensão no Golfo já vinha empurrando o mercado havia meses. Em 15 de setembro, o barril do Brent fechou a US$ 108,75 em Londres, com a dúvida sobre as exportações da Arábia Saudita depois de ataques à sua infraestrutura de energia, como registrou o Agora RN. Na mesma época, o Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos estimava em US$ 38 bilhões o custo do conflito até o fim de julho, com gasto adicional de cerca de US$ 3 bilhões por mês se as operações continuassem.
Pesquisas
A insatisfação aparece nos números. Pesquisa do Pew Research Center divulgada em outubro mostrou que 65% dos americanos desaprovavam a condução da guerra. Mesmo entre os republicanos, o apoio à atuação de Trump no conflito estava em 63% em outubro, ante 69% em março. Outro levantamento do instituto indicou que 84% dos eleitores apontavam a economia como um dos fatores mais importantes na escolha do voto, o que ajuda a entender a pressão sobre o governo numa disputa dominada pela preocupação com preços e renda.
O cientista político Pedro Abramovay, vice-presidente de programas da Open Society Foundations, avalia que a Casa Branca subestimou a resistência da população a uma guerra longa. “Trump recebeu conselhos militares equivocados. Ele achou que seria uma guerra curta, que ia fazer no Irã o que fez na Venezuela. Ele não consegue voltar atrás e reconhecer que está errado”, afirmou ao jornal O Globo. Para ele, a soma dos gastos militares com o aumento das despesas dentro de casa contribuiu para o resultado das urnas.
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Campo
As áreas agrícolas sentiram o golpe de forma particular, porque o diesel responde por uma fatia importante dos custos de produção e de transporte no campo. Além da energia mais cara, as tarifas comerciais impostas pelo governo aumentaram os gastos com fertilizantes, máquinas e outros insumos importados. Segundo reportagem da agência Reuters publicada nesta quinta-feira 5, o aperto sobre agricultores e comunidades rurais ajudou a tirar votos dos republicanos em estados que tradicionalmente apoiam o partido.
Mercado
O resultado eleitoral também mexeu com as apostas no mercado de petróleo. Nesta quarta-feira 4, o Brent caiu 8,7%, para US$ 94,62 o barril, e o WTI, referência americana, recuou 8,3%, para US$ 88,12. De acordo com a Reuters, os investidores passaram a contar com a chance de uma saída negociada para a guerra depois do avanço democrata no Congresso. A baixa, no entanto, traduz expectativas sobre o rumo do conflito e não significa que o abastecimento mundial tenha voltado ao normal.
Congresso
A nova correlação de forças em Washington pode aumentar o controle dos parlamentares sobre a condução da guerra e sobre os gastos militares. Com os democratas no comando do Congresso, o governo deve encontrar mais dificuldade para aprovar novas despesas com defesa. Conforme o Washington Post, a operação já tinha custado mais de US$ 47 bilhões até meados de outubro, cerca de US$ 30 bilhões deles em munições, o que pesa ainda mais sobre o orçamento federal.
Não há definição sobre o futuro da ofensiva. Trump segue defendendo a operação militar, enquanto Vance tem demonstrado preferência por um acordo que encerre o conflito. Na leitura de Abramovay, a derrota dos republicanos aumenta a pressão por uma mudança de rota, mas não permite prever o que a Casa Branca vai decidir. Com esse quadro, a política externa e os seus reflexos na economia devem estar entre os principais focos de embate entre governo e oposição nos dois anos que restam do mandato, conforme publicou O Correio de Hoje.
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