BUSCAR
BUSCAR
Tarifas dos EUA

Tarifas com EUA devem ser mantidas

Planalto acredita que eventual sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros poderá ser discutida apenas após a definição do próximo governo
Por O Correio de Hoje
16/07/2026 | 15:38

Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalham com a hipótese de que uma eventual tarifa de 25% sobre produtos brasileiros proposta pelos Estados Unidos só venha a ser efetivamente negociada após as eleições gerais de outubro. A avaliação, segundo auxiliares do Palácio do Planalto, é que a administração do presidente Donald Trump poderá aguardar o resultado da disputa presidencial antes de definir os termos de uma negociação comercial com o Brasil.

O cenário ganhou força às vésperas da decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), prevista para a última quarta-feira, 15, sobre a adoção de novas medidas comerciais contra produtos brasileiros. No governo brasileiro, a expectativa é de que, além da confirmação ou não da sobretaxa, o órgão norte-americano detalhe o cronograma de implementação e os produtos atingidos.

Lula RS
Lula acredita que problemas com os EUA só serão resolvidos após o resultado das eleições em outubro - Foto: ricardo stuckert / pr

Auxiliares de Lula afirmam que ainda não é possível antecipar qual será a decisão da Casa Branca, mas avaliam que Washington poderá reduzir a urgência na implementação das tarifas e aguardar a definição do novo governo brasileiro. Na avaliação do Planalto, uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) abriria espaço para uma negociação em bases distintas das atuais, enquanto a reeleição de Lula representaria a continuidade da política comercial baseada no multilateralismo e nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo brasileiro também avalia que existem temas considerados inegociáveis nas tratativas com os Estados Unidos. Entre eles está o sistema de pagamentos instantâneos Pix, administrado pelo Banco Central, citado na investigação do USTR como um modelo que poderia favorecer o operador público em relação a empresas privadas estrangeiras do setor de meios de pagamento. Outro ponto sensível é a eventual eliminação da tarifa de importação sobre o etanol norte-americano, medida que, segundo integrantes do governo, teria impacto direto sobre o mercado interno brasileiro.

A estratégia do Planalto é aguardar a publicação da decisão americana antes de definir uma resposta oficial. Integrantes do governo afirmam que qualquer eventual medida de reciprocidade dependerá da lista de produtos atingidos e da extensão das novas tarifas. A avaliação é que somente após a divulgação detalhada da decisão será possível medir os impactos econômicos e elaborar uma reação proporcional.

A investigação conduzida pelo USTR foi aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo utilizado pelos Estados Unidos para apurar práticas comerciais consideradas discriminatórias ou que imponham restrições ao comércio norte-americano. O mesmo instrumento já foi empregado em disputas comerciais envolvendo a China e outros parceiros dos Estados Unidos.

Além do Pix, o relatório preliminar do USTR questiona decisões do Poder Judiciário brasileiro relacionadas à atuação de plataformas digitais. O documento sustenta que tribunais brasileiros emitiram determinações sigilosas para remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em redes sociais, inclusive de usuários residentes nos Estados Unidos, o que, na avaliação do órgão, poderia afetar empresas americanas do setor de tecnologia.

O debate ganhou dimensão política após a divulgação de documento enviado por Flávio Bolsonaro ao USTR. No texto, o senador argumenta que a adoção imediata da sobretaxa daria ao presidente Lula “exatamente a vitória política que ele vem buscando” e defende que uma eventual negociação seja realizada apenas após as eleições gerais.

“Separadamente, e como uma questão de momento, e não de quem se beneficia: o Brasil realizará eleições gerais em outubro de 2026, e o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias. Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso favoreça. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior”, afirmou o parlamentar ao USTR.

A manifestação foi posteriormente utilizada por Lula para criticar o senador, sob o argumento de que o pedido buscava apenas adiar, e não impedir, a aplicação das tarifas. Enquanto aguarda a decisão americana, o governo brasileiro concentra esforços na avaliação técnica dos possíveis impactos sobre as exportações e mantém a expectativa de que eventuais negociações ocorram dentro dos canais diplomáticos e comerciais já existentes entre os dois países.