BUSCAR
BUSCAR
Oriente Médio

ONU acusa Hamas de obstruir ajuda em Gaza

Nações Unidas relatam intimidação de trabalhadores e invasões a centros de distribuição; Hamas afirma que protege operações de assistência
Por O Correio de Hoje
16/07/2026 | 16:54

As Nações Unidas acusaram o Hamas de dificultar a distribuição de ajuda humanitária na Faixa de Gaza e alertaram para o aumento dos riscos enfrentados por trabalhadores humanitários no enclave palestino. Em comunicado divulgado na segunda-feira (14), o coordenador especial adjunto da ONU para o processo de paz no Oriente Médio, Ramiz Alakbarov, afirmou que integrantes ligados ao grupo islamista têm intimidado equipes de assistência e comprometido operações de entrega de alimentos em diferentes pontos do território.

Segundo Alakbarov, os episódios mais recentes ocorreram no sábado, em um centro de distribuição de ajuda em Jabalia, no norte da Faixa de Gaza. De acordo com a ONU, homens armados vinculados ao Hamas invadiram as instalações e também entraram em um armazém do Programa Mundial de Alimentos (PMA), onde teriam agredido dois motoristas responsáveis pelo transporte de suprimentos.

Sede da ONU Copia
ONU afirma que ações do grupo colocam trabalhos humanitários em risco - Foto: reprodução / internet

Para o representante das Nações Unidas, os incidentes “colocaram em risco o pessoal humanitário, intimidaram os trabalhadores encarregados da distribuição de ajuda alimentar vital e interromperam operações essenciais”.

O dirigente afirmou ainda que os acontecimentos não representam casos isolados, mas refletem uma “tendência cada vez mais preocupante de intimidação, violência e obstrução” às operações humanitárias. As declarações ocorrem em um momento em que a assistência internacional enfrenta dificuldades logísticas e de segurança, mesmo após o acordo de cessar-fogo firmado entre Israel e o Hamas em outubro do ano passado.

Hamas nega acusações

O Hamas rejeitou as denúncias feitas pela ONU. Em declaração à agência AFP, um funcionário do Ministério do Interior administrado pelo grupo classificou as acusações como “infundadas” e afirmou que as forças de segurança locais continuam protegendo caminhões de ajuda e centros de distribuição.

Segundo o representante, o Hamas facilita o trabalho das organizações internacionais e não permite “qualquer tipo de ataque” contra operações humanitárias.

As críticas da ONU foram imediatamente repercutidas por Israel. O Cogat, órgão do Ministério da Defesa israelense responsável pela coordenação de assuntos civis nos territórios palestinos, afirmou que o episódio seria “mais uma prova de que o Hamas explora cinicamente o sistema humanitário e a ajuda destinada aos moradores da Faixa de Gaza em benefício próprio”.

O governo israelense sustenta que os obstáculos à distribuição de alimentos são causados pelo grupo islamista.

Disputa sobre responsabilidade pela crise humanitária

As acusações ocorrem em meio a um debate internacional sobre as condições da assistência humanitária em Gaza. Organizações internacionais e entidades de direitos humanos também responsabilizam Israel por impor restrições à entrada de suprimentos, equipamentos e combustível, além de apontarem riscos enfrentados por trabalhadores humanitários durante as operações.

O governo israelense nega as acusações e afirma que cerca de 600 caminhões com ajuda entram diariamente na Faixa de Gaza, volume que considera suficiente para atender às necessidades previstas no acordo de trégua.

Na semana passada, outro episódio ampliou as críticas sobre a condução das operações militares israelenses. O motorista palestino Ahmad Nasser Salim, de 30 anos, morreu após ser atingido por disparos enquanto transportava alimentos da organização humanitária World Central Kitchen (WCK).

Segundo testemunhas e representantes do setor de transporte em Gaza, o comboio havia sido previamente coordenado com a ONU e com autoridades israelenses. Israel confirmou o disparo, alegou que o motorista foi identificado como uma ameaça durante uma abordagem militar e informou que o caso está sob investigação.

Cessar-fogo segue sem avanço

O impasse ocorre enquanto a segunda fase do cessar-fogo permanece paralisada. O acordo previa o desarmamento do Hamas e a retirada gradual das tropas israelenses, mas as negociações não avançaram nos últimos meses.

Israel ampliou sua presença militar e atualmente controla cerca de 60% da Faixa de Gaza, enquanto o Hamas mantém influência sobre o restante do território, apesar de ter anunciado recentemente a dissolução do órgão de 15 integrantes que administrava o enclave havia quase duas décadas.