Uma pesquisa nacional sobre o impacto das apostas online entre mulheres voltou atenção especialmente para o Nordeste e o Sudeste, onde foram realizadas entrevistas qualitativas com mulheres de 18 a 58 anos das classes C, D e E. O levantamento mostra que as bets estão cada vez mais associadas à tentativa de complementar a renda e pagar despesas do dia a dia.
O estudo “Mulheres & Bets”, divulgado nesta segunda-feira 17 pelo estúdio CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, combinou uma pesquisa quantitativa nacional com entrevistas qualitativas realizadas entre junho e agosto. Nessa segunda etapa, foram ouvidas 60 pessoas, com foco nas regiões Nordeste e Sudeste.

Embora o levantamento não apresente percentuais separados exclusivamente para o Nordeste, os relatos colhidos na região ajudam a compreender como as apostas têm penetrado principalmente entre mulheres em situação de maior vulnerabilidade econômica.
Bets aparecem como alternativa para complementar renda
Os números nacionais reforçam o cenário observado nas entrevistas. Entre as mulheres pesquisadas, 42% afirmaram que apostam ou já apostaram em plataformas online. Outros 12% disseram não jogar, mas ter algum apostador na família. Somados, os dois grupos representam 54% das brasileiras.
A busca por dinheiro aparece como uma das principais motivações. Entre as entrevistadas, 21,5% disseram apostar em busca de renda extra, enquanto 19% mencionaram a possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente. Outras 16% citaram o pagamento de despesas básicas e 11,5% afirmaram recorrer às apostas para quitar dívidas.
O cenário ajuda a explicar por que órgãos de defesa do consumidor passaram a acompanhar com mais atenção os efeitos desse mercado. Em Natal, o tema já entrou na pauta do Procon por causa dos riscos de superendividamento associados às bets.
Segundo a cientista social Beatriz Della Costa, fundadora e codiretora da CLARICE, as apostas têm sido apresentadas como uma saída rápida diante das dificuldades para equilibrar o orçamento, especialmente entre as classes D e E.
Mulheres com filhos apostam mais
A pesquisa também identificou uma presença maior das apostas entre mães. Entre as mulheres com filhos, 22,7% aparecem como apostadoras, contra 14,6% entre aquelas que não têm filhos. Além disso, 72% das apostadoras entrevistadas são mães.
O levantamento associa esse comportamento à pressão financeira e à necessidade de cobrir gastos familiares. Esse aspecto ganha relevância nas entrevistas feitas com mulheres de baixa e média renda do Nordeste e Sudeste, justamente o público priorizado na etapa qualitativa do estudo.
Os impactos financeiros das apostas já vêm sendo medidos em outros levantamentos. Estudo divulgado anteriormente apontou que as apostas online podem gerar prejuízo econômico e social de R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil, considerando efeitos sobre renda, saúde e endividamento.
Cassinos online são os preferidos entre mulheres
Enquanto os homens aparecem mais ligados às apostas esportivas, 48% das mulheres que jogam afirmam preferir cassinos online, como roleta e jogos semelhantes ao chamado “Tigrinho”.
As redes sociais também têm papel importante na entrada das mulheres nesse mercado. Segundo a pesquisa, 24% conheceram as apostas pelas redes sociais, 23% por meio de amigos, 18% por influenciadores e 14% através de familiares.
Outro dado aponta que 37% das apostadoras já receberam algum tipo de benefício para indicar plataformas a outras pessoas.
Impactos emocionais também aparecem na pesquisa
Além dos prejuízos financeiros, o estudo registra relatos de ansiedade e depressão entre mulheres depois do início das apostas. Apesar disso, apenas 13% das mulheres que apostam ou já apostaram procuraram algum tipo de ajuda.
O número contrasta com o crescimento de mecanismos para interromper o acesso aos jogos. Dados divulgados anteriormente mostram que quase 700 mil pessoas já recorreram à autoexclusão de sites de apostas.
A pesquisa quantitativa ouviu 2.008 pessoas em todo o Brasil nos dias 8 e 9 de julho, respeitando a distribuição populacional do Censo 2022 e da Pnad 2025. Já a etapa qualitativa foi realizada entre junho e agosto com 60 participantes e concentrou-se em mulheres das classes C, D e E do Nordeste e Sudeste.