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Energia eólica

Da torre ao emprego: a economia eólica do RN nas terras e mares

Com 319 usinas eólicas em operação, o Rio Grande do Norte prepara uma nova rodada de investimentos
Agora RN
15/08/2026 | 01:52

O vento que movimenta os aerogeradores instalados no interior e no litoral do Rio Grande do Norte também alimenta uma cadeia econômica formada por construtoras, fabricantes de equipamentos, transportadoras, empresas de engenharia, prestadores de manutenção, centros de pesquisa e escolas de formação profissional. O próximo passo consiste em ampliar a parcela dessa atividade que permanece no Estado, transformando capacidade instalada em empregos permanentes, renda municipal e produção industrial.

O Rio Grande do Norte encerrou o primeiro semestre de 2026 com 319 usinas eólicas em operação e 10,76 gigawatts (GW) de potência outorgada. O levantamento, baseado no Sistema de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), coloca o Estado na segunda posição nacional em número de empreendimentos e capacidade, atrás apenas da Bahia. Outros 17 parques, com 496,4 megawatts (MW), estavam em construção, enquanto 39 projetos, que somam 1,50 GW, ainda não haviam iniciado as obras. Se todos forem concluídos, a potência estadual poderá alcançar 12,75 GW.

Aerogeradores em parque eólico de São Miguel do Gostoso
Geração de energia eólica no município de São Miguel do Gostoso — Foto: José Aldenir/Agora RN

A cadeia começa antes da instalação das torres. Inclui a medição dos ventos, os estudos ambientais, o arrendamento de terrenos, o licenciamento, o desenvolvimento financeiro e a contratação da conexão elétrica. Na construção, entram terraplenagem, fundações de concreto, abertura de acessos, transporte de equipamentos, montagem de torres, instalação dos aerogeradores, cabeamento e implantação de subestações. Depois da inauguração, permanecem as atividades de operação, monitoramento, inspeção e manutenção.

O balanço energético estadual referente a 2024 estimou que a implantação de parques eólicos movimentou R$ 7,8 bilhões no Rio Grande do Norte. Foram contabilizados 10.462 empregos diretos e indiretos, dos quais 4.302 diretos e 6.160 indiretos. O número representa postos mobilizados principalmente durante as obras, e não necessariamente um estoque permanente de trabalhadores. Somadas as usinas solares, os investimentos chegaram a R$ 10,1 bilhões e a geração de ocupações alcançou 13.571 naquele ano.

Até 2030, a carteira estadual de projetos renováveis reúne previsão de R$ 55,3 bilhões em aportes, sendo R$ 21,3 bilhões destinados à energia eólica e R$ 34 bilhões à solar. O ritmo efetivo dependerá do licenciamento, do acesso à rede, da contratação da energia e das decisões dos investidores.

Estudo divulgado pela Associação Brasileira de Energia Eólica calcula que cada R$ 1 aplicado no setor produz aproximadamente R$ 3 em efeitos econômicos. A pesquisa estima uma geração média de 10,7 empregos por MW na fase de construção e 0,6 emprego por MW durante a operação e a manutenção.

Aplicada apenas aos cerca de 2 GW representados pelos parques potiguares em construção ou ainda não iniciados, essa referência indica potencial da ordem de 21 mil ocupações ao longo da implantação. A conta não constitui uma projeção oficial e não corresponde a vagas permanentes: os mesmos trabalhadores podem participar de diferentes obras e a quantidade varia conforme tecnologia, duração, conteúdo nacional e contratação local.

A manutenção, por outro lado, sustenta postos de maior duração. Técnicos em eletrotécnica, mecânica e segurança do trabalho dividem espaço com engenheiros, especialistas em dados, operadores de centros de controle, inspetores de pás, profissionais de trabalho em altura e equipes responsáveis por redes e subestações.

O Estado já reúne centros de treinamento, pesquisa e serviços. O Senai-RN mantém programas voltados à operação de parques terrestres e à futura geração marítima. Uma das iniciativas formou 73 mulheres para atividades de operação e manutenção. Natal também recebeu uma estrutura regional da Vestas destinada à gestão de serviços. A fabricante acompanha, a partir do Estado, atividades relacionadas a 60 parques e 3.200 turbinas no País, com capacidade conjunta de 12 GW. A consolidação dessa base pode ampliar a participação potiguar nas etapas de maior valor, como engenharia, monitoramento digital, reparo de componentes e gestão de ativos. Hoje, parte relevante das torres, pás, naceles e equipamentos elétricos ainda chega de outros Estados ou do exterior. Atrair fornecedores exige escala de encomendas, áreas industriais, energia confiável, logística e trabalhadores certificados. O horizonte de expansão inclui oito projetos eólicos offshore em planejamento ou licenciamento no litoral potiguar, com capacidade combinada de 12,77 GW. Por se encontrarem em estágios preliminares, esses empreendimentos não devem ser tratados como investimentos contratados. A implantação depende de estudos ambientais, cessão de áreas marítimas, regras para comercialização e conexão ao Sistema Interligado Nacional.

O Senai-RN conduz medições para uma planta-piloto offshore projetada a aproximadamente 20 quilômetros da costa, nas proximidades do Porto-Ilha de Areia Branca. O projeto busca testar equipamentos, métodos de instalação e condições de operação no mar brasileiro.

Em Caiçara do Norte, o governo estadual e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social avançam na estruturação da parceria público-privada do Porto-Indústria Verde. O empreendimento, estimado em mais de R$ 6 bilhões, foi concebido para atender projetos offshore e atividades relacionadas a hidrogênio, e-metanol e combustível sustentável de aviação. A expectativa divulgada pelo projeto supera 50 mil empregos em diferentes cadeias, projeção condicionada à implantação dos módulos portuários e industriais.

O principal obstáculo imediato não está na disponibilidade de vento. Entre janeiro e 20 de julho de 2026, limitações determinadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico atingiram 23,2% da capacidade potencial de geração eólica e solar do Rio Grande do Norte. Os cortes, conhecidos como curtailment, ocorrem por restrições na transmissão, baixa demanda ou necessidade de manter o sistema elétrico seguro.

O plano de expansão do ONS prevê reforços estruturais para o Nordeste, parte deles com entrada a partir de 2029. Entre as obras licitadas está um circuito de 500 quilovolts entre Ceará-Mirim II e João Pessoa II, seguido pela ligação entre João Pessoa II e Pau Ferro. O conjunto amplia o escoamento regional, embora o próprio operador ainda identifique riscos em contingências envolvendo os corredores entre Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Pernambuco.

O armazenamento abre outra frente de negócios. A Aneel colocou em consulta os primeiros leilões nacionais de baterias, marcados para 2 e 4 de dezembro de 2026, com contratos de 15 anos e início de suprimento em 2028. Foram cadastrados 6.091 projetos, com 296,8 GW — manifestação de interesse que ainda passará por habilitação e disputa.

Para o Rio Grande do Norte, baterias instaladas junto aos parques ou em pontos selecionados da rede podem armazenar parte da energia produzida em períodos de excesso e devolvê-la quando o sistema necessitar de potência. Além de reduzir perdas, essa atividade cria demanda por integradores, eletricistas, operadores, especialistas em software, segurança e reciclagem. Assim, a economia do vento deixa de terminar no aerogerador: avança pela rede, chega à indústria e converte a torre em emprego.

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