O Clube do Livro reúne, a cada mês, avaliações das repórteres da Cultue sobre a obra escolhida para leitura coletiva.
Belita Lira – ⭐⭐⭐⭐
Ler Água Viva foi uma experiência diferente de qualquer outra. Em vez de tentar entender cada frase, eu simplesmente me deixei levar. E percebi que a graça do livro está justamente nisso. A frase tão repetida sobre Clarice Lispector – “não é sobre entender, é sobre sentir” – faz todo sentido aqui. A leitura não pede explicações lógicas, mas abertura para sentir o que existe nas palavras. Clarice parece atravessar emoções profundas e estados de alma tão intensos que me peguei pensando: como alguém consegue sentir tanto assim?

Em Água Viva, Clarice se entrega por completo. O texto parece um grande devaneio, mas ao mesmo tempo existe uma lucidez escondida ali. Pode parecer contraditório, mas com Clarice as contradições fazem parte da beleza. Ela brinca com as palavras, cria novos sentidos, desmonta a lógica comum e constrói outra forma de pensar e escrever. A metalinguagem também aparece de maneira forte – ela fala da própria escrita enquanto escreve – e isso torna tudo ainda mais fascinante.
Ao mesmo tempo, não é uma leitura fácil. A ausência de enredo tradicional, a fragmentação e o fluxo de consciência podem causar estranhamento e até cansaço em quem espera uma narrativa linear. A voz da pintora solitária que conduz o livro é intensa, cheia de reflexões sobre existência, identidade e linguagem, mas exige entrega total do leitor. Não há respostas claras nem explicações fechadas. É uma obra que desafia, que desconforta, e que justamente por isso se torna tão potente e única dentro da literatura brasileira.
Foi uma viagem profunda e diferente. Daquelas que não se esgotam em uma única leitura. Água Viva é um livro que pode ser revisitado muitas vezes, e a cada nova leitura surgem novas paisagens, sensações e descobertas pelo mesmo caminho.
Isabelly Noemi – ⭐⭐
Eu costumo gostar muito dos livros e contos da Clarice Lispector. Acho a escrita dela intensa, sensível e cheia de reflexões interessantes. Por isso, comecei Água Viva com expectativa, mas a leitura acabou não funcionando para mim.
O livro não tem uma história tradicional, nem personagens ou enredo bem definidos. A narrativa é mais parecida com um fluxo de pensamentos, em que a narradora reflete sobre o tempo, a linguagem, o existir e as sensações. A proposta é diferente, mas, em vários momentos, senti que o texto se tornava confuso e difícil de acompanhar.
Algumas reflexões são bonitas e profundas, mas muitas partes parecem repetir ideias parecidas, o que deixou a leitura cansativa. A falta de acontecimentos concretos também dificulta o envolvimento, já que não há uma progressão clara ou algo que prenda a atenção ao longo do livro.
Outro ponto é que o texto é muito abstrato. Em comparação com outros livros da Clarice, em que mesmo a introspecção vem acompanhada de situações e personagens marcantes, Água Viva parece mais fechado em si mesmo, o que pode afastar o leitor.
Reconheço que é uma obra importante e experimental, e que muita gente pode gostar justamente dessa proposta mais livre e filosófica. Mas, como leitura, não foi uma experiência prazerosa para mim, mesmo eu gostando da autora. Por isso, dei 2 estrelas. Água Viva tem momentos interessantes, mas achei a leitura difícil – em comparação com outras obras da Clarice Lispector.
Karen Sousa – ⭐⭐⭐
Água Viva é bonito, mas complexo. Não sei se entendi tão bem assim o livro, mas também acho que ele não é muito sobre entender, é mais sobre sentir. É até difícil descrever, pois não é o tipo de livro que estou acostumada e também não é o que me agrada muito, mas a obra se mostrou impressionante dentro da sua própria capacidade.
O livro é bem abstrato e, assim como o título sugere, se parece com um mergulho profundo em palavras, frases e ideias soltas, que ficam flutuando dentro de um oceano que vamos descobrindo à medida que lemos – mas que, da mesma forma, não conseguimos desvendar por completo.
Clarice falou sobre vida, morte, amor, alegrias, tristezas, emoções, sentimentos, dúvidas, flores e tudo o que encontramos no caminho de nossas vidas num fluxo de consciência que é difícil de acompanhar. Enquanto você lê e digere as palavras escritas em uma linha, na próxima, a autora já expõe outra ideia. Esse ritmo me pareceu tão inesperado e oscilante que fiquei em dúvida se era inconsciente ou proposital por parte dela, até porque essa foi a primeira vez que li uma obra de Clarice, então não tenho familiaridade.
Apesar de extraordinário, bonito e, para mim, de certa forma nostálgico, confesso que não gostei tanto do livro. Quando terminei a leitura, disse que ele era repetitivo e até egoísta. Depois de digerir o texto, vi que, em Água Viva, a linguagem de Clarice é quase como mágica ou mística, o que não me encanta mas me faz ter curiosidade por quais artifícios, figuras e ideias ela utiliza em outras obras.
Mas Clarice é genial e está certa quando diz que a palavra é sua “quarta dimensão”, ou que a troca de aspirações “é uma das coisas mais belas que já ouvi dizerem da vida”, ou que “lembrar-se com saudade é como se despedir de novo”.
Luzia Cavalcanti – ⭐
Quando minhas amigas surgiram com a ideia de criar um clube do livro, a empolgação foi imediata.
Nunca tinha participado de nenhum, mas sempre fui fascinada pela imagem quase cinematográfica de um grupo de mulheres reunidas em uma cafeteria, comentando a leitura do mês com entusiasmo enquanto se deliciam com uma fatia de bolo e um café superfaturado.
Tudo muito perfeito no mundo das ideias. Mas a vida adulta é casualmente cruel – e faz questão de provar que, no caos do dia a dia, mal temos tempo de cumprir as tarefas básicas. Foi nesse contexto que nasceu meu primeiro “fracasso” literário: a tentativa de ler Água Viva, de Clarice Lispector.
Como boa millennial, sempre relutei em ler Clarice por puro preconceito. Depois de uma enxurrada de frases fora de contexto transformadas em legendas de fotos no Facebook e no Instagram, acabei associando a autora a uma estética de autoajuda existencial que me afastava mais do que atraía.
No ano passado, porém, resolvi enfrentar esse ranço com uma motivação pouco nobre: “deixa eu criticar isso aqui com propriedade”. Escolhi A Hora da Estrela e fui completamente arrebatada. A escrita visceral me lançou sem anestesia na vida da retirante Macabéa – uma personagem de existência tão miserável que “não sabia que era infeliz, por isso era feliz”.
Ali eu entendi que o problema nunca foi Clarice. Era a caricatura que fizeram dela.
Por isso, fui ler Água Viva disposta a me apaixonar por mais um personagem criado por ela. Mas me deparei com algo completamente diferente: uma obra densa, sem enredo tradicional, sem personagens delineados, sem a estrutura confortável de começo, meio e fim. Não há uma história para acompanhar – há uma voz.
Em Água Viva, Clarice propõe ao leitor que pare. Que respire. Que desacelere. Que se conecte com emoções muitas vezes dolorosas de acessar. A obra mergulha em reflexões sobre abandono, insegurança e perdas, mas não de forma narrativa – e sim sensorial. É quase uma tentativa de capturar o instante antes que ele se dissolva.
A obra não tem nada de errado. O erro foi tentar ler Clarice nas horas que sobram entre um compromisso adulto e outro, espremida em um ônibus lotado na volta para casa, no horário de pico. Água Viva não se oferece ao leitor apressado. Ela exige entrega. Clarice merece mais do que uma leitura casual e fragmentada. Sua escrita exige dedicação, atenção e, principalmente, conexão. Exige silêncio interno. Exige tempo – esse artigo de luxo da vida adulta.
Daí o meu fracasso.
Mas fica em mim um desejo pulsante de retornar a essa leitura com a reverência que ela pede. Porque, no fundo, sei que não abandonei Água Viva. Apenas ainda não estava pronta para ela.
Nathallya Macedo – ⭐⭐⭐⭐⭐
Ler Água Viva, de Clarice Lispector, foi como entrar em um fluxo de consciência que pulsa página após página. Foi exatamente essa sensação que tive no meu primeiro contato com a autora. Eu já conhecia o peso do nome de Clarice na literatura brasileira, mas só agora mergulhei de fato em sua escrita – e a experiência foi intensa.
O que mais me chamou atenção foi esse despejo de palavras que parece ignorar as pausas convencionais. Em muitos momentos, a leitura me deixou até sem ar, como se eu precisasse acompanhar a velocidade dos pensamentos que atravessam o livro. Não há exatamente uma trama tradicional; o que existe é um movimento contínuo de reflexão.
Talvez por isso eu tenha me reconhecido tanto no texto. Também sou alguém que pensa muito, em várias coisas ao mesmo tempo. Às vezes, esse turbilhão interno se estende pela madrugada e dificulta o sono. A ansiedade já me atravessou em muitos momentos, e ler aquelas páginas deu a impressão de que alguém tinha traduzido em palavras algo que normalmente fica só dentro da cabeça.
Há algo de muito íntimo nessa forma de escrita, confessional, mas ao mesmo tempo universal. Em vários trechos, tive a sensação de que aquela voz poderia ser a de muitas mulheres tentando entender a própria existência. A escrita de Clarice parece abraçar essa complexidade sem tentar organizá-la demais.
Depois de me acostumar com esse ritmo particular, percebi que a leitura deixou uma espécie de eco.
Fiquei com vontade de continuar nesse universo literário, como se agora eu tivesse aprendido a ouvir melhor o que a autora propõe.
Por isso, o próximo passo já está decidido: A Hora da Estrela. Depois de experimentar esse primeiro encontro com Clarice, a curiosidade aumentou – não apenas para conhecer outra história, mas para continuar explorando essa escrita.

