A iminente inclusão do camarão vannamei (o mais produzido no Rio Grande do Norte) na lista de “espécies exóticas invasoras” é mais do que um equívoco técnico: é uma ameaça direta a um dos setores mais dinâmicos da economia potiguar e um exemplo corrosivo de como parcelas do movimento ambientalista, descoladas da realidade produtiva, insistem em transformar o País em um campo minado de insegurança, burocracia e retrocessos.
Trata-se de uma medida que não se sustenta nem do ponto de vista científico, nem econômico, nem ambiental. Caso avance, produzirá impactos devastadores sobre milhares de famílias que dependem da criação de camarão no Estado.

A decisão está na mão do Conabio, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e que já colocou o camarão, a tilápia e outros produtos em uma lista preliminar. O setor produtivo, claro, tem protestado.
A carcinicultura potiguar gera cerca de 30 mil empregos diretos e movimenta cadeias completas de produção, logística, comércio e exportação. É um dos raros setores do Nordeste capazes de competir globalmente, colocando o RN no mapa internacional do agronegócio com aproximadamente 35 mil toneladas produzidas por ano. Nada disso é obra do acaso. É fruto de investimento, tecnologia, adaptação climática, inovação e empreendedores que ousam em um ambiente de negócios já bastante hostil.
A retórica catastrofista de alguns ambientalistas — que enxergam desastre ecológico em cada tanque de produção — ignora deliberadamente um fato essencial: as licenças ambientais existentes já preveem medidas rigorosas para evitar fuga de espécies, e os produtores cumprem protocolos que vão muito além do mínimo legal. O cultivo é realizado em viveiros controlados, com cercamento, drenagem monitorada, canais estruturados e fiscalização constante. Não se trata de improviso, mas de um setor extremamente profissionalizado.
Se prevalecer o argumento de que há risco de fuga de espécies, virtualmente qualquer cultura agrícola — da manga ao eucalipto — passa a ser passível de restrição. E o País desce a ladeira do obscurantismo regulatório.
A verdade é outra: não há justificativa técnica plausível para transformar uma atividade consolidada em alvo de cerco burocrático. Os efeitos, porém, seriam muito reais. A começar pela criação de uma enorme insegurança jurídica. Ao estigmatizar a espécie, qualquer expansão produtiva passará a depender de licenças mais lentas, mais caras e mais complexas. Investidores verão risco onde hoje existe previsibilidade. Linhas de crédito serão reduzidas. Pequenos produtores — que não têm estrutura para enfrentar um labirinto regulatório — serão expulsos do mercado.
Além disso, o impacto sobre a imagem internacional do Brasil seria imediato. O País disputa espaço em mercados exigentes, nos quais estabilidade regulatória, segurança sanitária e responsabilidade ambiental são critérios decisivos. Rotular como “invasor” o produto que exportamos é chutar a própria escada. É oferecer munição para concorrentes internacionais que competem conosco e adorariam ver o Brasil autossabotando sua própria economia. É difícil imaginar um erro diplomático e comercial mais evidente.
Ao atacar a carcinicultura, certos grupos ambientalistas revelam mais uma vez seu viés de criminalização da produção. Sob o pretexto da defesa da biodiversidade — um valor, claro, essencial — tentam impor uma visão míope e punitiva, em que qualquer atividade econômica é tratada como ameaça a ser contida. Não se cogita que sustentabilidade e produção possam, sim, caminhar juntas. Não se admite que, ao longo de décadas, o setor aprendeu a operar sem agredir o ecossistema. Ignora-se que o Rio Grande do Norte é referência nacional precisamente porque alia potencial natural à regulamentação responsável.
Seria ingenuidade ignorar que exista, em certos nichos ambientalistas, uma espécie de antipatia histórica a tudo que produza riqueza, gere empregos e exija infraestrutura. É um reflexo de um pensamento que enxerga o meio ambiente como realidade intocada e estática, e não como patrimônio a ser conservado, manejado e utilizado com racionalidade. A marca desse ativismo é o radicalismo: vale mais impedir do que regular, punir do que orientar, travar do que aprimorar.
A carcinicultura não é um problema ambiental. É parte da solução econômica do Nordeste. É fonte de renda, de inclusão social e de desenvolvimento regional. Só não enxerga isso quem não quer — ou quem prefere manter o País numa bolha de atraso, incapaz de reconhecer que progresso exige compatibilização de interesses, e não guerra ideológica permanente.
É preciso dizer de maneira clara: colocar o camarão vannamei na lista de espécies exóticas invasoras seria um golpe injustificável contra milhares de produtores, trabalhadores e comunidades inteiras que dependem dessa cadeia produtiva. É impor mais burocracia onde já existe rigor. É criar insegurança onde há estabilidade. É prejudicar exportações, investimentos e empregos sem oferecer qualquer benefício ambiental real.