Os acontecimentos do fim de semana confirmaram: é real a possibilidade de o vice-governador Walter Alves (MDB) abdicar de assumir o Governo do Estado após a renúncia da governadora Fátima Bezerra (PT), prevista para abril de 2026.
Eleito vice-governador em 2022, Walter Alves passou todo o mandato ocupando essa função. À época, um acordo político firmado com a governadora previa que ele assumiria o governo após a desincompatibilização de Fátima Bezerra para disputar uma vaga no Senado. O roteiro parecia claro: assumir o Executivo, conduzir a máquina no último ano do mandato e, a partir daí, decidir os próximos passos políticos.

Inicialmente, Walter declarou que não seria candidato à reeleição em nenhuma hipótese. Seu papel seria outro: atuar como eixo do sistema político governista, liderando a formação de chapas proporcionais competitivas e ajudando a estruturar o MDB para ampliar suas bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. Um projeto político de médio e longo prazo, voltado mais à construção partidária do que à disputa individual.
O quadro, no entanto, mudou. O vice-governador passou a admitir a possibilidade de renunciar junto com a governadora, abrindo mão de assumir o Executivo para viabilizar um novo projeto político: disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. A motivação, embora não declarada oficialmente nesses termos, é evidente nos bastidores: o receio de assumir uma gestão em um dos momentos mais delicados da história administrativa e fiscal do Rio Grande do Norte.
E o dilema é real. A situação do governo estadual representa um desafio não apenas político, mas sobretudo administrativo. O Rio Grande do Norte, há vários mandatos, convive com baixos indicadores em praticamente todas as áreas — desenvolvimento humano, educação, segurança pública e infraestrutura. Um quadro histórico que atravessou diferentes governos, inclusive gestões comandadas por lideranças da própria família Alves.
Nos últimos anos, porém, esse cenário ganhou um agravante decisivo: a deterioração fiscal. O comprometimento da receita com as despesas com pessoal atingiu patamares críticos, ultrapassando o limite máximo e colocando o Estado na liderança de um ranking nada honroso — o de maior gasto proporcional com folha de pagamento entre os entes da Federação. Essa realidade estrangula investimentos, paralisa projetos estruturantes e compromete serviços essenciais.
As perspectivas para 2026 tornam o quadro ainda mais preocupante. Há projeções de aumento global da folha de pessoal em pelo menos 7%, empurrando o gasto mensal para algo superior a R$ 1,3 bilhão. E nem está nessa conta o reajuste dos professores, que historicamente exerce forte pressão sobre o orçamento. O índice de aumento será definido nos próximos dias.
No apagar das luzes do atual exercício, o próprio governo já admitiu dificuldades para pagar integralmente o 13º salário, sinalizando parcelamento para janeiro. É legítimo perguntar: como será possível administrar esse cenário com despesas ainda maiores?
Assumir o governo nessas condições exigiria de Walter Alves a convicção de que seria pouco possível entregar resultados concretos em prazo exíguo. O risco de desgaste seria elevadíssimo. A hesitação, portanto, faz sentido. Walter é um jovem político (tem 45 anos), herdeiro de um sobrenome com peso histórico no Rio Grande do Norte. Aluízio Alves, o patriarca, deixou marcas profundas no desenvolvimento do Estado; Garibaldi Alves Filho ficou conhecido como o “governador das águas” pelo avanço na infraestrutura hídrica. O nome Alves carrega legado, mas também responsabilidade.
Um eventual insucesso administrativo não recairia apenas sobre Walter, mas poderia manchar um capital político construído ao longo de décadas. O risco é claro: terminar o período à frente do governo com desgaste profundo, comprometendo não apenas o presente, mas todo o futuro da sua trajetória política.
Do outro lado da balança, a alternativa se mostra sedutora. Uma candidatura a deputado estadual, em aliança com o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira — que tende a se filiar ao MDB e disputar a Câmara Federal — abre espaço para a formação de uma ampla bancada e para um compromisso político ainda mais atrativo: a presidência da Assembleia Legislativa. Um caminho mais seguro, previsível e com menor risco de desgaste.
Essa conjuntura leva a uma reflexão final incômoda, porém necessária: o ponto a que chegou a administração pública do Rio Grande do Norte. O que antes seria visto por qualquer político como uma grande oportunidade — assumir o cargo mais importante do Estado, ápice da carreira política — hoje se transforma em um fardo capaz de afastar até quem tem o cargo praticamente assegurado.
Pela primeira vez, o Estado se vê diante da possibilidade de alguém abrir mão do comando do Executivo não por falta de ambição, mas por excesso de riscos. Um sintoma eloquente da gravidade do quadro fiscal, administrativo e político. Walter Alves, ao ponderar entre assumir o governo ou preservar sua trajetória, expõe uma realidade dura: governar o Rio Grande do Norte tornou-se um desafio que poucos, neste momento, estão dispostos a assumir.