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Editorial

O que Natal aprendeu com a morte de Dr. Araken?

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 26
Editorial
26/11/2025 | 04:59

A morte de Araken Britto de Souza, ocorrida em 24 de fevereiro na Avenida Hermes da Fonseca, não deveria ter sido apenas mais uma tragédia na longa lista de acidentes envolvendo ciclistas em Natal. Mas, infelizmente, parece que sim. Nove meses após a tragédia, Natal ainda convive com condições precárias para ciclistas.

O médico oftalmologista pedalava com amigos nas primeiras horas da manhã quando se desequilibrou e caiu após o avanço de um caminhão na faixa do lado. Com o impacto, seu corpo foi projetado para a faixa da esquerda, onde foi atingido pelo veículo. Morreu na hora.

O que Natal aprendeu com a morte de Dr. Araken?
O que Natal aprendeu com a morte de Dr. Araken? - Foto: Redes sociais

Dr. Araken era um homem ativo, apaixonado pelo ciclismo, defensor da saúde e praticante de esportes de aventura. Teve a vida interrompida de forma brutal. Sua morte comoveu a cidade. Mas, como tantas outras, corre o risco de virar estatística. O Rio Grande do Norte registrou 121 mortes de ciclistas em acidentes de trânsito entre 2020 e 2025.

Ao relembrar a tragédia com Dr. Araken, este jornal questiona: o que, de fato, mudou desde a morte do médico? O que a capital potiguar aprendeu com um episódio tão emblemático, tão doloroso, tão público?

A resposta, infelizmente, não pode ser outra: quase nada.

Natal repete há anos o discurso da sustentabilidade, da vida saudável, da mobilidade inteligente. Promove eventos, incentiva pedaladas, celebra atletas e usa a bicicleta como símbolo de modernidade e qualidade de vida. Mas o discurso não se sustenta quando confrontado com a realidade de ruas que continuam perigosas e hostis para quem ousa pedalar. A cidade estimula, mas não protege. Fala, mas não entrega.

O dado do IBGE é assustador: apenas 0,9% das vias no Rio Grande do Norte têm sinalização para bicicletas. Como estimular que pessoas troquem o carro ou a moto pela bike em seus deslocamentos?

A Avenida Hermes da Fonseca, um dos principais corredores da capital, continua sendo um retrato cruel do desafio: ciclistas dividem espaço com carros, caminhões e motocicletas, espremidos como intrusos em uma via que já deveria ter recebido uma intervenção robusta. Na Prudente de Morais, a faixa “destinada” aos ciclistas é a mesma dos ônibus. Na Via Costeira, os ciclistas só têm a calçada à disposição. Precisam dividir o espaço com os pedestres, outro público que tem dificuldade para encontrar espaços para a prática esportiva.

Onde há faixas exclusivas, como lembrado pelo humorista e ciclista Mafaldo Pinto em postagem nas redes sociais nesta terça-feira 25, o problema passa a ser outro: a violência, a insegurança, o medo de pedalar.

O Ciclocomitê Popular de Luta da Capital, lembra que a bicicleta, além de prática esportiva, é meio de deslocamento para o trabalho da população mais pobre, que não tem opção. “Temos ciclovias feitas para fotos, como a da Praça dos Gringos, em Ponta Negra. O trabalhador que sai de Felipe Camarão, por exemplo, precisa atravessar várias regiões perigosas antes de chegar a um espaço minimamente seguro para pedalar até o trabalho”, critica Daniel Russo, coordenador do grupo.

A morte de Dr. Araken comoveu. Mas, de lá para cá, houve alguma ação consistente? Alguma campanha educativa que lembrasse motoristas sobre a distância mínima de segurança nas ultrapassagens? Alguma requalificação estruturante em ciclovias ou ciclofaixas estratégicas? Alguma política articulada que transformasse a comoção em compromisso público? Ou estamos à espera da próxima tragédia para reiniciar o debate?

Até quando Natal será essa cidade que promete abraçar o futuro, mas mantém os ciclistas relegados à margem — muitas vezes literal.

No calor da emoção após a morte de Dr. Araken, passou a tramitar na Câmara Federal o projeto de lei 792/2025, apresentado pela deputada federal Carla Dickson. A proposta cria as Áreas de Proteção ao Ciclista de Alto Rendimento (APCAR), delimitando espaços exclusivos para ciclistas, com regras claras de prioridade, distância mínima de três metros para ultrapassagens e velocidade controlada para demais veículos. Um bom projeto. Mas que segue nas gavetas do Congresso.

Mas, mesmo que o projeto passasse, só lei não basta. A cidade precisa estruturar políticas, infraestrutura concreta e fiscalização firme.

A pergunta que este editorial precisa reiterar, porque a cidade ainda não respondeu, é: Araken Britto e ao menos outros 121 ciclistas morreram em apenas 5 anos, e o que Natal fez com isso?

É preciso que a cidade assuma suas obrigações públicas, transforme a dor em política, a tragédia em prevenção. Que enfrente o fato de que sustentabilidade real exige ciclovias seguras, campanhas permanentes, engenharia de tráfego baseada em evidências, espaços que não tratem ciclistas como intrusos.

Quantos mais terão de morrer para que Natal finalmente aprenda?