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Editorial

O primeiro passo contra o domínio do crime organizado

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 7
Editorial
07/11/2025 | 05:06

Vem em boa hora a decisão do governo federal de implantar no Rio Grande do Norte um projeto-piloto de desocupação de áreas controladas pelo crime organizado. Os governos federal e estadual ainda vão divulgar um balanço oficial, mas já há resultados concretos da estratégia: uma operação no mês passado terminou com 32 presos, além de drogas e armas apreendidas durante o cumprimento de 34 mandados de prisão, busca e apreensão.

A medida, além de inédita, é um reconhecimento da gravidade do problema que o Estado enfrenta e da necessidade de uma ação coordenada para enfrentá-lo. O investimento se justifica plenamente: o RN, por sua dimensão territorial e densidade populacional mais enxuta, oferece condições ideais para testar um modelo de intervenção com maior potencial de sucesso — e que, se bem-sucedido, poderá ser replicado em outras regiões do País.

O primeiro passo contra o domínio do crime organizado
O primeiro passo contra o domínio do crime organizado - Foto: José Aldenir/Agora RN

A escolha do Rio Grande do Norte para sediar o projeto também carrega um simbolismo político. Representa, de certa forma, o fortalecimento da parceria entre o governo da presidente Lula e a governadora Fátima Bezerra, uma aliança cuja efetividade vinha sendo cobrada por aliados e pela população. Trata-se de mais um resultado concreto que se soma a outras iniciativas conjuntas, como o avanço do projeto de duplicação da BR-304 e a conclusão das obras da barragem de Oiticica.

O Rio Grande do Norte tem muito a ganhar com essa ação, tanto em termos de segurança pública quanto de autoestima social. O domínio territorial de facções é uma chaga que corrói a presença do Estado, alimenta o medo e as desigualdades e impõe um regime paralelo onde a lei não chega. Retomar o controle dessas áreas é mais que uma medida policial: é uma afirmação de soberania e de cidadania.

Mas é preciso ter clareza de que a operação, por mais importante que seja, não basta por si só. Desarmar o poder das organizações criminosas requer mais do que presença ostensiva das forças de segurança. Exige enfrentar as causas estruturais que alimentam o crime — a ausência de oportunidades, a precariedade da educação, o desemprego e a falta de políticas de qualificação profissional e inclusão social. Nenhuma ação de ocupação será duradoura se não for acompanhada de um pacote consistente de políticas públicas que devolvam dignidade e perspectiva de futuro às comunidades atingidas.

É preciso, portanto, atacar não apenas as consequências, mas as origens da criminalidade. O Estado e a União devem agir em conjunto, garantindo que as áreas reconquistadas pelo poder público recebam escolas, unidades de saúde, creches, espaços culturais e políticas de emprego e renda. Só assim o território deixará de ser fértil para o crime e passará a ser terreno de cidadania.

Os municípios também precisam se envolver nesse esforço. É nas cidades que o abandono se materializa, e é nelas que o poder público tem mais condições de agir preventivamente. Programas sociais, ações educativas e iniciativas de inclusão produtiva devem caminhar lado a lado com o policiamento. Combater a degradação social é papel de todos os entes federativos — e a omissão local pode comprometer o sucesso do projeto federal.

O impacto político da operação, inevitavelmente, será objeto de disputa. Mas é importante que o debate não desvirtue o propósito da iniciativa. Seria lamentável se a governadora Fátima Bezerra enxergasse o projeto apenas como uma oportunidade de melhorar sua imagem perante o eleitorado, ou se a oposição tentasse desqualificá-lo unicamente por razões ideológicas, ignorando os benefícios concretos que o Estado pode colher em caso de êxito.

O Rio Grande do Norte precisa de menos cálculo político e mais compromisso com resultados. Se o projeto for bem executado, trará ganhos inestimáveis para a segurança e para a vida das comunidades que hoje vivem sob o domínio do medo. O governo federal acerta ao começar por aqui — e acerta mais ainda se mantiver o foco em construir, com o Estado e os municípios, uma resposta completa, que una repressão eficaz e políticas sociais transformadoras.

Que a iniciativa tenha êxito. Que o Estado volte a ser dono de seu território — e que o exemplo do Rio Grande do Norte sirva para mostrar que o Brasil ainda é capaz de se recompor onde o crime parecia ter tomado conta. O primeiro passo foi dado. Que não seja o último.