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Vagner Araujo

O preço de confundir popularidade com competência

Confira o artigo de Vagner Araujo desta terça-feira 20
Vagner Araujo
20/01/2026 | 05:17

Na política brasileira, há uma confusão recorrente — e cara — entre carisma eleitoral e capacidade de gestão. O bom político, no sentido clássico do termo, costuma ser aquele de sorriso fácil, fala envolvente, presença constante nas ruas, ouvido sempre aberto e respostas prontas para agradar. Diz “sim” com rapidez, promete com entusiasmo e cria uma sensação permanente de proximidade com o eleitor. Esse perfil, eficiente para ganhar eleições, raramente é o mesmo que garante governos organizados, sustentáveis e eficazes.

O bom gestor, por sua vez, quase sempre carrega outra estampa. É mais reservado, desconfiado de soluções mágicas, avesso a improvisos. Trabalha com números, projeções, cenários e limites. Tem visão de longo prazo, responsabilidade fiscal e consciência de que cada decisão tomada hoje cobra seu preço amanhã. Analisa, pondera, calcula riscos. E, justamente por isso, muitas vezes é visto como frio, distante ou pouco empático — atributos que não rendem muitos votos em campanhas marcadas por emoção e imediatismo.

Partidos de esquerda têm pior desempenho em grandes cidades brasileiras desde 2000, revela levantamento - Foto: José Aldenir/Agora RN
O preço de confundir popularidade com competência - Foto: José Aldenir/Agora RN

Na cultura política brasileira, o resultado dessa dicotomia é conhecido. Ganha eleição quem é bom político, não necessariamente quem é bom gestor. E isso ajuda a explicar por que o país convive, há décadas, com um ciclo persistente de subdesenvolvimento institucional, baixa qualidade do gasto público e crises gerenciais que se repetem nas três esferas de governo. Promessas fáceis vencem diagnósticos difíceis. Discursos empolgam mais do que projetos. O curto prazo atropela o planejamento.

É claro que reunir as duas qualidades — ser bom político e bom gestor — é possível. Há líderes que conseguem dialogar com a população sem abrir mão do rigor técnico, que mantêm carisma sem abdicar da responsabilidade. Mas é preciso reconhecer: esses casos são raros. Exceções que confirmam a regra.

Tive o privilégio de trabalhar com alguns desses líderes, e entre eles destaco Wilma de Faria. Wilma era política e gestora ao mesmo tempo. Tinha carisma genuíno, conexão direta com o povo e sensibilidade social, mas sabia fazer contas — e levava isso a sério. Reunia-se semanalmente em torno de mesas cobertas de planilhas, dados e projeções. Decisões só eram tomadas com base em informações consistentes. Lia documentos extensos, questionava técnicos, debatia alternativas e se angustiava quando algo não estava suficientemente claro.

Esse equilíbrio — raro, exigente e pouco glamouroso — talvez seja uma das maiores lições da boa política. Governar não é apenas conquistar votos. É, sobretudo, assumir responsabilidades. E isso exige muito mais do que carisma: exige método, coragem para dizer “não” e compromisso com o futuro.