Ano após ano, Natal desperdiça um potencial que nenhuma outra capital brasileira pode explorar na mesma proporção. Apesar de sua vocação turística e do nome que faz alusão ao nascimento de Cristo, a capital potiguar se ornamenta de forma muito tímida para o período do ano em que justamente poderia atrair ainda mais visitantes.
É no verão que a cidade recebe seu maior fluxo de turistas. É em dezembro que praias, hotéis e restaurantes entram em alta temporada. E é exatamente nesse mesmo intervalo que o calendário celebra o Natal, data que, para outras cidades, é sinônimo de espetáculo urbano, movimento econômico e identidade cultural. Natal, porém, ainda não conseguiu ser referência nacional em celebração natalina.

A cidade que leva o nome da data mais simbólica do ano não a trata com a atenção que merece. Enquanto destinos consolidados transformaram dezembro em temporada de encantamento, aqui o Natal segue modesto e aquém diante daquilo que a cidade deveria ser capaz de oferecer.
É verdade que 2025 trouxe avanços. A Árvore de Mirassol voltou maior, mais estruturada e com cerca de 20% a mais de luminosidade. O entorno foi reorganizado, ganhou atrativos com opções gastronômicas, casa do Papai Noel e túnel de luz, tornando-se espaço mais acolhedor e convidativo. Em Ponta Negra, também houve melhorias e inovações, como os 100 mil pontos de luz distribuídos em peças temáticas ao longo de toda a Avenida Praia de Ponta Negra.
Mas Natal pode, e deve, ir muito além. Basta olhar para exemplos consolidados no País. Gramado, no Rio Grande do Sul, construiu uma política permanente de valorização do período natalino e se transformou em referência nacional, atraindo visitantes por semanas, movimentando hotéis, restaurantes, comércio e serviços. Mais recentemente, Fortaleza, a capital do Ceará, também apostou forte em decoração e programação e colheu elogios pela ambientação e pelo impacto visual.
Na capital potiguar, é justo reconhecer os méritos da atual gestão. O prefeito Paulinho Freire sinalizou uma mudança importante ao iniciar a decoração pela Zona Norte — região historicamente esquecida nas gestões passadas quando o assunto era Natal. A área próxima ao ginásio Nélio Dias virou polo e foi a primeira a receber iluminação, além de estrutura própria. O gesto é simbólico, mas também concreto: descentraliza, inclui e amplia o alcance da celebração.
Mas vale frisar também: a Zona Norte merece melhores efeitos. Assim, os moradores da região não precisariam cruzar a cidade para contemplar a decoração. A árvore natalina poderia estar à altura da de Mirassol. A árvore da ZN tem 30 metros de altura, contra 110 metros da árvore da Zona Sul.
Outra iniciativa acertada são as caravanas que percorrerão bairros com programação itinerante, além dos shows de maior porte prometidos para a orla da praia de Ponta Negra. Há, portanto, um esforço de interiorização e democratização da agenda, o que é louvável.
Também é preciso reconhecer as limitações orçamentárias. Paulinho realizou o que era possível dentro de um orçamento herdado da gestão anterior, com margens estreitas e pouca flexibilidade para grandes saltos. O próprio prefeito disse que buscou emendas parlamentares para complementar o orçamento da festa e o que será realizado foi o possível diante da disponibilidade financeira.
Não há mágica quando o caixa não ajuda. Mas é justamente por isso que o debate precisa avançar para além do presente.
O orçamento de 2026 já começa a ser desenhado, e é nele que Natal pode decidir se continuará entregando um evento melhorado ou se passará a estruturar um projeto de cidade.
Se os recursos forem insuficientes, há caminhos: parcerias público-privadas, patrocínios, adoção de espaços por empresas, editais temáticos, incentivos culturais, concurso de iluminações em prédios residenciais. O próprio Marco Legal das PPPs, aprovado já na gestão atual de Paulinho Freire, é ferramenta pronta para ser usada.
Além da árvore, Natal pode criar circuitos temáticos, corredores iluminados, fachadas decoradas, ruas cenográficas, programação cultural descentralizada, concursos de vitrines, festivais de corais e espetáculos de projeção mapeada em prédios históricos. Pode fortalecer a marca da cidade como destino nacional de dezembro. Pode vender não apenas praias, mas experiência urbana.
Nem precisa falar no impacto que uma ornamentação portentosa poderia trazer a Natal, que poderia virar destino preferencial quando o assunto é festa de fim de ano. O Natal, bem estruturado, gera emprego, renda, autoestima e visibilidade.
A cidade que se chama Natal não deveria aceitar ser apenas figurante no próprio nome. Ela pode ocupar o protagonismo que sua identidade sugere. Transformar símbolo em política, nome em produto e fim de ano em motor econômico. Natal precisa ser Natal todos os anos, para quem mora aqui e para quem vem de fora.