De uns tempos para cá, uma nova febre tem tomado conta das conversas entre governadores e secretários de desenvolvimento: os datacenters. Para quem não está familiarizado, datacenters são grandes estruturas onde são armazenados e processados os dados que usamos todos os dias — desde as mensagens no WhatsApp e as inteligências artificiais até as informações salvas na nuvem de empresas e governos. Em resumo, são as “fábricas” do mundo digital. E como o volume de informações cresce exponencialmente, esses gigantescos galpões de servidores se multiplicam.
Nos últimos anos, empresas globais têm buscado regiões com energia mais barata e estável, clima favorável ao resfriamento dos equipamentos e boa conectividade internacional. O Nordeste brasileiro, com seu potencial de energia limpa (solar e eólica), disponibilidade de água (do mar) e posição geográfica estratégica — ponto de chegada de cabos submarinos de dados vindos da África e da Europa — tornou-se alvo de interesse. Assim, surgem anúncios entusiasmados: o Ceará diz que saiu na frente, o RN afirma estar conversando, e outros estados também se apressam para oferecer incentivos tributários e terrenos. Todos apostam no “ouro digital” como promessa de empregos, investimentos e arrecadação.

Mas, como toda moeda tem dois lados, há vozes dissonantes. O neurocientista Miguel Nicolelis, que tem laços potiguares, tem alertado para um equívoco que passa despercebido na euforia: os datacenters, segundo ele, são uma verdadeira praga ambiental. Geram pouquíssimos empregos diretos, quase não deixam receitas relevantes e consomem quantidades absurdas de energia e água. Em alguns locais dos Estados Unidos, a demanda por resfriamento é tão alta que comunidades têm sido orientadas a tomar menos banho para “sobrar água” para os datacenters. No Chile, há regiões que já cogitam expulsá-los por causa do impacto ambiental.
A questão, portanto, não é apenas correr atrás da moda tecnológica, mas refletir sobre a sustentabilidade dessas escolhas. Governos precisam explicar se têm estratégias sólidas para atrair datacenters de forma responsável — com contrapartidas ambientais, uso de energia realmente renovável, gestão da água e benefícios econômicos concretos — ou se estão, mais uma vez, surfando na onda do momento, movidos mais pela imagem do que pela substância. Porque, no fim das contas, um datacenter pode brilhar muito nos releases oficiais, mas também pode deixar um rastro de calor, consumo e frustração.