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Opinião

O CPF de Fátima e a vitória da esquerda

Thiago Medeiros analisa a influência política de Fátima Bezerra e a construção da identidade eleitoral de Cadu Xavier.
Thiago Medeiros
29/10/2026 | 01:24

A eleição de 2026 no Rio Grande do Norte deixa uma lição que merece ser observada para além dos números das urnas. As primeiras pesquisas de avaliação do governo indicavam um caminho aparentemente claro: a população desejava mudança diante do desgaste da gestão estadual. Nesse cenário, a direita encontrava terreno para avançar, enquanto a esquerda precisava superar uma contradição: defender seu legado sem ignorar a insatisfação do eleitorado.

A resposta veio da política. Fátima Bezerra, Cadu Xavier e sua equipe conseguiram apresentar uma alternativa que não exigia uma ruptura completa, mas uma mudança de rota. Uma continuidade diferente, com novas perspectivas e outra configuração. A eleição mostrou que reconhecer o desgaste e reposicionar o projeto pode ser mais eficiente do que simplesmente tentar defender o governo.

Fátima Bezerra com Cadu Xavier e Larissa Rosado
Fátima Bezerra com Cadu Xavier e Larissa Rosado no Centro Administrativo — Foto: Sandro Menezes/Assecom

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Há tempos, este articulista sustentava que o CPF de Fátima era diferente do CNPJ do governo. A eleição reforçou essa distinção. Mesmo diante das dificuldades administrativas e da desaprovação à gestão estadual, a governadora preservou capacidade de articulação, influência sobre sua base e leitura estratégica do jogo político.

Fátima não conseguiu viabilizar sua saída do governo para disputar o Senado como parte do projeto inicialmente imaginado. Isso, entretanto, não significou o desaparecimento de sua força política. Seu faro para a construção de vitórias permaneceu ativo, ajudando a sustentar um projeto que atravessou a disputa estadual, alcançou o Senado com Samanda Alves e se conectou à reeleição de Lula.

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O chamado ser político apareceu justamente nessa capacidade de compreender limites, reorganizar caminhos e encontrar alternativas quando o cenário parecia desfavorável.

Cadu de Lula também oferece uma lição importante. Diferentemente de outros concorrentes, não carregava a experiência de mandatos eletivos nem uma trajetória eleitoral consolidada que o tornasse naturalmente conhecido pelo eleitorado. Precisava construir essa identidade durante a disputa. Sua estratégia foi apostar em referências políticas reconhecidas, fazendo questão de se apresentar como Cadu de Lula e de Fátima. A associação tornou-se parte central de sua identidade eleitoral, conectando um candidato ainda em construção a lideranças com bases políticas consolidadas.

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A esquerda, o lulismo e o fatismo romperam barreiras eleitorais porque souberam transformar referências políticas em identidade, mobilização e voto. Começamos a eleição com centro, direita e esquerda disputando espaço. Ao final, o campo progressista saiu como vencedor da principal batalha, demonstrando capacidade de ocupar territórios políticos que muitos consideravam distantes.

A direita precisa compreender essa lição. Reunir lideranças fortalecidas na disputa majoritária e bons nomes da proporcional é importante, mas insuficiente. É necessário construir um projeto reconhecível, conectado à base social e capaz de oferecer uma perspectiva comum para o Estado.

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A esquerda foi beneficiada pela disputa nacional? Sim. Mas também soube dizer quem era, quem representava e o que pretendia.

Em tempos de tantas indefinições, essa clareza vale muito. A eleição passou. A disputa por território, influência e identidade política, não.

Thiago Medeiros é sociólogo