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Editorial

Um exemplo de como Natal é carente de espaços públicos de convivência

Confira o editorial do Agora RN desta sexta-feira 9
Editorial
08/01/2026 | 21:10

A sensação do momento em Natal é o banho de mar à noite na Redinha. Após a reabertura do mercado público e a instalação de uma boa iluminação no local, natalenses e turistas passaram a frequentar a praia após o pôr do sol, e as imagens da atração ganharam as redes sociais nos últimos dias. A beleza do cenário, composto por águas cristalinas e calmas e pela Ponte Newton Navarro atrás, rapidamente viralizou.

Esse fenômeno inspira uma reflexão. Mais do que uma “modinha” de momento, o banho noturno na Redinha revela algo mais profundo sobre a cidade: mais uma vez, está claro como Natal é carente de espaços públicos de lazer e convivência. Além disso, estamos diante de uma prova do potencial que iniciativas simples têm de transformar a relação das pessoas com o espaço urbano.

redinha
Um exemplo de como Natal é carente de espaços públicos de convivência - Foto: Reprodução

O investimento público para criar o novo “point” da cidade foi mínimo. A retomada do funcionamento do Mercado da Redinha durante a alta estação, somada à iluminação adequada do entorno, foi suficiente para ativar uma área que já existia, mas que não era utilizada à noite. O resultado veio rápido. Movimento maior, sensação de segurança, circulação de pessoas, encontros espontâneos. A praia, que sempre esteve ali, passou a ser usada de outra forma. O lazer emergiu quase naturalmente, sem grandes anúncios, sem obras complexas, sem investimentos vultosos.

Se a atração persistir, logo também o comércio no entorno – normalmente restrito ao dia – colherá os frutos e poderá ter de maneira fixa um horário estendido para funcionar na região.

Há uma lição clara nesse processo. Natal não carece apenas de grandes projetos estruturantes. A cidade também precisa de decisões objetivas, de ações práticas que compreendam como o natalense ocupa o espaço público e o quanto ele valoriza oportunidades simples de estar na rua, na praia, nos parques. A resposta ao “banho noturno da Redinha” mostra que há demanda reprimida. Quando o espaço convida, a população ocupa.

A Praça Cívica é outro exemplo. Após um investimento de R$ 2,5 milhões – custo modesto, diante da grandiosidade do orçamento público –, a cidade ganhou outro ponto de encontro para as famílias. Um local degradado se transformou também em um importante espaço de lazer e convivência. Moradores do entorno que antes limitavam a circulação à área comum do condomínio agora saem à rua para ir à praça.

Esse movimento também ajuda a relativizar uma ideia recorrente de que ampliar opções de lazer urbano exige, sempre, grandes volumes de recursos ou intervenções complexas. A experiência recente mostra o contrário: iluminação pública funcional, equipamentos abertos, gestão ativa do espaço e alguma previsibilidade no uso já são capazes de gerar novas dinâmicas urbanas. O ganho social e simbólico costuma ser maior do que o custo financeiro.

O episódio do banho de mar noturno na Redinha, assim como o sucesso de público frequentando a Praça Cívica, evidencia a necessidade, cada vez mais urgente, de Natal destravar projetos que garantam ao natalense a possibilidade de desfrutar mais de sua própria cidade.

Por isso, iniciativas como a ideia de abrir um novo espaço ao público dentro do Parque das Dunas, na margem da Avenida Roberto Freire – o famigerado Parque Linear, são extremamente necessárias. O fenômeno do banho noturno na Redinha deveria servir de combustível para que Prefeitura do Natal e Governo do Estado se entendam rapidamente para que esse novo espaço seja viabilizado. O natalense aguarda ansiosamente por isso.

Natal cresceu sem consolidar uma rede consistente de espaços públicos atrativos. A consequência é visível: poucas opções de lazer ao ar livre, concentração de atividades em determinados pontos da cidade e uma dependência excessiva de iniciativas privadas para suprir algo que deveria ser, em grande parte, uma política pública. Quando surge uma alternativa acessível e aberta, como na Redinha, ela rapidamente se torna um ponto de encontro.

O desafio que se impõe ao poder público é transformar episódios pontuais em estratégia. Não basta celebrar o sucesso momentâneo de uma iniciativa simples; é preciso aprender com ela. Identificar áreas que podem ser requalificadas, abrir equipamentos que permanecem fechados, investir no básico — iluminação, limpeza, segurança, manutenção — e, sobretudo, destravar projetos que ampliem o repertório de espaços urbanos disponíveis à população.

A cidade ganha quando oferece opções diversas de convivência, espalhadas pelo território e integradas ao cotidiano das pessoas. O banho noturno na Redinha não nasceu de um grande plano, mas de uma combinação acertada de decisão e oportunidade. Que ele sirva de sinal. Natal precisa olhar com mais atenção para o valor do simples e entender que, muitas vezes, é justamente aí que começam as transformações mais duradouras.