BUSCAR
BUSCAR
Editorial

A experiência de Álvaro Dias à frente de Natal o credencia para governar o RN?

Confira o editorial desta sexta-feira 23
Editorial
23/01/2026 | 06:51

A decisão de Álvaro Dias (Republicanos) de se colocar como pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte desloca o debate sobre sua trajetória administrativa para outro patamar. Já não se trata apenas de avaliar uma gestão municipal, mas de perguntar se o percurso como prefeito de Natal é suficiente para credenciá-lo a administrar um Estado inteiro, com problemas estruturais muito mais profundos e complexos.

É inegável que a gestão Álvaro foi acompanhada de uma comunicação eficiente, com narrativa bem construída ao longo dos anos. Mas, quando se ultrapassa a superfície da forma e se avança para o conteúdo, resta a pergunta essencial: qual foi, afinal, o legado concreto deixado após seis anos à frente da capital?

‘Paulinho foi eleito com nosso apoio e vai caminhar conosco’, diz Álvaro Dias
Álvaro Dias (Republicanos) - Foto: José Aldenir/Agora RN

Evidente que é preciso considerar o contexto em que Álvaro assumiu a Prefeitura. Herdou um cenário político conturbado após a renúncia do então prefeito Carlos Eduardo Alves e enfrentou, logo no início do mandato, a maior crise sanitária do século. Durante a pandemia de Covid-19, tomou decisões que o colocaram em evidência, adotando posição política clara no debate nacional, aproximando-se do bolsonarismo e utilizando, inclusive, sua condição de médico como elemento de autoridade pública.

Medidas como a criação do Hospital de Campanha foram amplamente divulgadas e, segundo avaliações recorrentes de analistas políticos, tiveram peso decisivo na sua reeleição.

Passada a pandemia, contudo, o que se viu no mandato renovado foi uma gestão que pareceu evitar enfrentar os gargalos históricos de Natal. Na saúde, área sensível e frequentemente citada pelo próprio prefeito, o maior símbolo anunciado — um novo hospital — jamais se concretizou plenamente. A obra foi “entregue” sem funcionamento integral, enquanto a rede básica permaneceu praticamente a mesma: sem novas UPAs, sem expansão estrutural relevante, reproduzindo o modelo herdado de gestões anteriores.

Na educação, os indicadores tampouco avançaram. Natal não ascendeu em rankings, não apresentou política estruturante capaz de alterar o cenário de aprendizagem, e o tema raramente ocupou lugar central no discurso administrativo. Aliás, assim como o Estado, Natal é lanterna no Ideb – no caso, entre as capitais. O mesmo se pode dizer da coleta de lixo, que seguiu operando sob arranjos tradicionais, arcaicos, sem inovação de modelo ou salto de eficiência.

E a mobilidade urbana? Talvez o ponto mais emblemático da estagnação. Durante seis anos, foram poucos os avanços no sistema de transporte público. Ao contrário: a gestão manteve uma relação de acomodação com o Seturn e os empresários de ônibus. Tentativas sucessivas de licitação foram anunciadas, mas jamais se soube se houve, de fato, disposição política para realizá-las. O resultado concreto é simples: Natal continua com um precário modelo no transporte.

As obras que o prefeito costuma listar como realizações tampouco resistem a uma análise mais atenta. Em grande parte, tratam-se de despesas executadas a toque de caixa, viabilizadas com recursos captados em Brasília, mas com impacto limitado no desenvolvimento urbano da cidade. Não houve construção de parques estruturantes, ginásios de grande porte, políticas públicas consistentes voltadas à juventude, ao esporte ou ao lazer. Houve, sim, poucas empreitadas que movimentaram setores da construção civil — o que não é desprezível —, mas que não necessariamente deixaram retorno duradouro para a população.

A engorda de Ponta Negra, frequentemente citada como exceção, também suscita questionamentos. Foi uma obra realizada como política de Estado do município ou como projeto pensado prioritariamente para ser entregue dentro de um calendário político? A transferência da areia avançou, mas etapas fundamentais de infraestrutura e drenagem ficaram pelo caminho. Nenhuma outra orla da cidade foi reformada.

Há ainda intervenções urbanas que parecem ter atendido interesses privados específicos, como no caso da Praça Cívica, e um Plano Diretor cuja tramitação e objetivos continuam gerando debates sobre a quem, de fato, beneficiou. O próprio programa de asfaltamento, frequentemente apresentado como grande investimento, levanta dúvidas conceituais: trata-se de investimento estruturante ou mera manutenção das vias, rotulada por uma linguagem de marketing?

Outro caso emblemático é o Complexo Turístico da Redinha, que engloba o Mercado da Redinha e seu entorno. A reforma física do mercado foi concluída, mas o equipamento não entrou em operação regular. Coube ao sucessor na Prefeitura modelar uma concessão que realmente desperte interesse da iniciativa privada.

Na questão fiscal, a gestão Álvaro Dias encerrou com Natal ostentando nota C na Capacidade de Pagamento (Capag), índice do Tesouro Nacional que avalia a saúde financeira dos entes federativos. Na prática, a classificação em Capag C impede o município de contratar novos empréstimos e buscar financiamentos internacionais.

A situação fiscal é tão difícil que Natal precisou aderir, neste ano, já sob a gestão Paulinho, ao Programa de Promoção do Equilíbrio Fiscal (PEF). A iniciativa é voltada para estados e municípios com dificuldades financeiras.

Diante desse conjunto, a provocação se impõe. Esse é o portfólio esperado de um gestor que pretende comandar um Estado? É esse histórico que será apresentado como credencial administrativa ao eleitor potiguar?

A resposta não precisa ser dada de forma apressada nem definitiva. Caberá aos adversários desconstruírem a narrativa oficial ou revelarem as lacunas deixadas. Caberá ao próprio Álvaro explicar por que considera essas realizações marcos administrativos relevantes. Ao eleitor, resta o papel fundamental de olhar além da estética e questionar se a gestão que governou Natal está, de fato, à altura do desafio de governar o Rio Grande do Norte.

O debate está posto. E ele precisa ir além da forma.