Hoje Luiz Fux decidiu falar grosso no Supremo Tribunal Federal. Seu voto, anunciado com pompa e recheado de citações jurídicas, buscou aparentar tecnicidade e rigor. Contudo, a cada linha, ficava a dúvida: estaríamos diante de um voto puramente técnico ou de um discurso embalado para fortalecer a narrativa política da extrema direita mirando já as eleições de 2026?
É inegável que alguns trechos de sua posição sustentam pilares constitucionais importantes, como o acesso irrestrito à ampla defesa. Porém, ao mesmo tempo, o ministro tropeça em suas próprias contradições. Onde a toga deveria ser uniforme, vimos costuras frouxas: a técnica cedia espaço à política, e a argumentação jurídica parecia mais um rascunho de palanque.

O paradoxo é gritante: Fux votou para condenar os golpistas de 8 de janeiro, mas agora se esforça para dizer que não havia organização criminosa. Como assim? Para piorar, condena Mauro Cid justamente pelo crime de organização criminosa. Seria um “crime de um homem só”? O próprio voto mostra que Cid interagiu com outras pessoas — mas, na mesma fala, Fux afirma que a organização não existia. Em bom português: Fux votou contra o próprio Fux. A lógica jurídica que se sustenta num dia evapora no seguinte.
E não é a primeira vez. Na Lava Jato, foi linha-dura: defendeu a competência da operação, cravou que ali era o foro adequado e ajudou a dar sustentação a um processo que depois desmoronou em nulidades. Agora, como num giro de conveniência, afirma que o STF não tem competência em casos semelhantes. Mudança de entendimento ou apenas adaptação ao clima político? O mesmo ministro que já se apresentou como punitivista agora parece descobrir virtudes no garantismo, desde que isso agrade a plateias específicas.
Nas redes sociais, Fux virou o “novo messias” togado, recebido como herói de guerra que trouxe munição fresca ao arsenal eleitoral. Sua fala não derruba condenações, mas alimenta narrativas — e narrativas, como sabemos, são armas letais em tempos digitais. Moro já havia cunhado “em Fux we trust”. Ironia das ironias: em 2020 Bolsonaro desafiou a autoridade de Fux como presidente do STF. Hoje, os mesmos que o atacaram o aplaudem.
Entre governistas e juristas, o voto foi visto como confuso e perigoso. Contradições não faltaram, e as críticas alertam para o risco de fragilizar a credibilidade do Supremo em um momento em que a democracia precisa de firmeza, não de ambiguidades.
Quem se agradou com o espetáculo? Proteger um presidente que conspirou contra o sistema eleitoral e cortejou quartéis soa sensato? Hoje, parece ter encarnado aquilo que tanto se criticou nos EUA, onde a Suprema Corte hesitou em responsabilizar Trump após o Capitólio. A toga brilhou, mas não sabemos se pela razão ou pelos refletores da política.