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Editorial

Crise que abre caminhos: tarifaço acelera busca por novos mercados para o RN

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 15
Editorial
15/01/2026 | 05:25

A elevação de tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, anunciada em julho do ano passado, foi recebida no Rio Grande do Norte com apreensão. O chamado “tarifaço” atingiu setores sensíveis da economia potiguar, como o sal e o pescado, altamente dependentes do mercado norte-americano. O impacto inicial foi real, gerou incerteza e exigiu respostas rápidas.

Ainda assim, os dados consolidados do comércio exterior ao fim do ano indicam que a crise, longe de produzir apenas perdas, acabou funcionando como um vetor de reorganização e abertura de novas oportunidades para as exportações do Estado.

Crise que abre caminhos: tarifaço acelera busca por novos mercados para o RN - Foto: Sandro Menezes
Crise que abre caminhos: tarifaço acelera busca por novos mercados para o RN - Foto: Sandro Menezes

O resultado mais visível está no saldo da balança comercial. Mesmo em um cenário adverso, o Rio Grande do Norte encerrou 2025 com superávit de US$ 649,6 milhões, crescimento de 18,7% em relação a 2024. Trata-se de um desempenho que contrariou expectativas mais pessimistas, diante das barreiras comerciais impostas pelo principal parceiro histórico em alguns segmentos.

Parte relevante desse resultado decorre da estratégia adotada pelo Estado para enfrentar o choque externo. Em vez de limitar a resposta à reclamação formal ou à espera por uma reversão das medidas americanas, o governo estadual buscou mitigar os efeitos imediatos e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência de um único mercado. Incentivos fiscais, ampliação da desoneração de ICMS e antecipação de créditos deram fôlego às empresas exportadoras num momento de forte pressão de custos. Paralelamente, houve um esforço deliberado para diversificar destinos.

Esse movimento produziu efeitos concretos. Ao longo de 2025, o Rio Grande do Norte conseguiu acessar 14 novos mercados internacionais, incorporando países que não figuravam de forma relevante na pauta anterior. A diversificação não elimina os problemas impostos pelo tarifaço, mas cria alternativas e reduz riscos estruturais. Ainda que nem todos os setores consigam se reposicionar com a mesma facilidade, a ampliação do leque de destinos permitiu preservar operações, contratos e, sobretudo, empregos.

É preciso reconhecer que o choque não foi homogêneo. Algumas cadeias produtivas, como a do pescado, seguem praticamente sem alternativas de curto prazo ao mercado dos Estados Unidos, já que a União Europeia permanece fechada a esse tipo de produto brasileiro. Isso significa que parte das perdas foi, de fato, inevitável. Por outro lado, outros segmentos conseguiram redirecionar parte de sua produção, mantendo volumes relevantes de exportação e até ampliando presença em determinados mercados.

Nesse contexto, ganha relevância o destravamento das negociações do acordo entre União Europeia e Mercosul, ocorrido em meio a esse cenário de reorganização do comércio internacional. A eventual entrada em vigor do acordo pode representar uma nova fronteira para produtos potiguares, com potencial de acesso a um mercado amplo, estável e de alto poder aquisitivo. Ainda que seus efeitos não sejam imediatos, o simples avanço nas negociações sinaliza que o ambiente externo não permanecerá indefinidamente hostil e que oportunidades adicionais podem surgir no médio prazo.

Outro ponto a ser considerado é a própria natureza do tarifaço. Medidas dessa magnitude dificilmente se sustentam no longo prazo sem gerar custos internos ao país que as impõe. Mudanças no ciclo político norte-americano, pressões empresariais ou rearranjos no comércio global tendem, mais cedo ou mais tarde, a provocar recuos ou flexibilizações. Nesse sentido, o esforço de adaptação feito agora pode deixar o Rio Grande do Norte em uma posição mais sólida quando o cenário voltar a se normalizar.

A perspectiva para 2026 reforça essa leitura. A expectativa é de continuidade na abertura de mercados, impulsionada por iniciativas como o programa RN Mais Exportação, que pretende oferecer apoio estruturado às empresas interessadas em internacionalizar seus produtos. Ontem, em entrevista à TV Agora RN, o superintendente do Sebrae no Estado, Zeca Melo, revelou que interlocutores potiguares estão em Dubai nesta semana, em busca de destravar uma nova rota comercial. O dado, ainda preliminar, ilustra como a estratégia de diversificação segue em curso.

O balanço de 2025 sugere, portanto, que a crise imposta pelo tarifaço teve um efeito ambíguo. Gerou perdas pontuais e expôs fragilidades, mas também forçou o Estado a acelerar um movimento que já era necessário: reduzir a dependência de poucos mercados e buscar maior inserção internacional. O resultado final, traduzido no aumento do superávit comercial, indica que a reação foi mais eficaz do que se imaginava. Em um ambiente global cada vez mais volátil, essa capacidade de adaptação pode se revelar um ativo tão importante quanto os próprios produtos exportados.