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Editorial

Chega de conviver com o inaceitável

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 30
Editorial
30/10/2025 | 05:41

O Rio Grande do Norte tem registrado avanços no enfrentamento da fome. Segundo o IBGE, a proporção de domicílios potiguares com algum grau de insegurança alimentar caiu de 33,7% em 2023 para 29,4% no ano passado. Um avanço importante.

Apesar de positivo, o avanço não foi suficiente para acabar com a fome. Os números continuam pavorosos: cerca de 371 mil lares ainda têm restrição de acesso a alimentos.

Chega de conviver com o inaceitável - Foto: Lyon Santos / MDS
Chega de conviver com o inaceitável - Foto: Lyon Santos / MDS

Como aceitar que quase 3 em cada 10 casas do Estado não tenham certeza sobre se a família vai comer ou não na próxima refeição? Reduzir a fome não basta. É preciso eliminá-la, de forma definitiva. Um país rico como o Brasil, que ajuda a alimentar o resto do mundo, não pode conviver com a chaga da fome.

É justo reconhecer: a ampliação da assistência social e o aprimoramento de ações como o Bolsa Família fizeram diferença. Hoje quase meio milhão de famílias são alcançadas pelo programa federal no RN. Essa proteção de renda sustenta consumo básico, reduz a insegurança alimentar e aquece a economia local — sobretudo no comércio de bairro.

Mas o sucesso do Bolsa Família não elimina a urgência. Ele mitiga a fome, não a erradica.

A pergunta que precisa ecoar nos gabinetes é simples e dura: até quando conviveremos com essa realidade? O RN já provou que é possível avançar, mas “o possível” não é suficiente quando crianças ainda vão dormir sem jantar. Erradicar a fome exige intervenções firmes e focalizadas, capazes de atacar as causas e não apenas os sintomas.

As evidências mostram que direcionar esforços a domicílios com crianças pequenas tem impacto multiplicador: melhora a nutrição, reduz repetência escolar e quebra ciclos de pobreza. Iniciativas como programas de aquisição de alimentos da agricultura familiar, cozinhas solidárias e bancos de alimentos precisam ser aprimorados. Ineficiências precisam ser punidas.

É preciso, ainda, mapear, bairro a bairro, os bolsões de insegurança alimentar e levar a eles frentes de qualificação e inserção produtiva, microcrédito e apoio a pequenos negócios (inclusive em alimentação e hortas urbanas). Não se erradica a fome sem emprego e renda local.

O RN também precisa declarar meta de erradicação da fome com prazo e marcos trimestrais, publicar painéis de acompanhamento por cidade (insegurança alimentar, estoques de merenda, volume de compras da agricultura familiar, famílias atendidas e desatendidas). Sem medir, cobrar e corrigir rota, a boa intenção não vira política eficaz.

A sociedade também precisa olhar para o espelho. Campanhas de arrecadação patinam não apenas por falhas de organização, mas por indiferença social. Doações recorrentes — mesmo modestas — a cozinhas solidárias, bancos de alimentos e fundos municipais de assistência devem virar hábito cívico, não ação episódica. Empresas podem ser pontos de doações, doar excedentes com qualidade e apoiar logística. Universidades e igrejas podem ofertar cozinhas comunitárias. Cada um tem um papel — e a fome não espera.

Por fim, erradicar a fome exige ambiente econômico estável. A inflação corrói o poder de compra dos mais pobres com violência silenciosa. Enquanto a inflação não convergir de forma sustentada para patamar mais baixo, cada ida ao mercado sabota as políticas de renda. Equilíbrio fiscal não é jargão tecnocrático: é condição para manter programas sociais, baixar o custo do dinheiro e atrair investimento que gera emprego e renda. Austeridade inteligente — que corta desperdício, combate fraudes e prioriza quem mais precisa — é parte da solução, não o problema.

O RN mostrou que sabe avançar. Mas avançar não basta — é preciso chegar. É necessário fixar um objetivo público: tolerância zero com a fome. Se o Estado afinar foco e método, se os municípios fizerem sua parte, se a sociedade abandonar a indiferença e se o ambiente econômico ajudar, poderemos, enfim, escrever a única manchete aceitável: fome zero no Rio Grande do Norte. Até lá, todo dia sem ação é uma derrota moral que não podemos naturalizar.