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Opinião

Chavismo desaba sob ruínas venezuelanas

Destruição na região mais atingida reacende debate sobre fragilidade do Estado venezuelano e legado do modelo político chavista
Por O Correio de Hoje
06/07/2026 | 16:35

As ruínas deixadas pelos terremotos de 24 de junho em La Guaira, a região mais castigada da Venezuela, expõem mais do que a destruição física provocada pela tragédia. Elas revelam, de forma brutal, o fracasso do chamado “socialismo do século 21”, projeto chavista que prometia refundar um dos países mais ricos da América do Sul e acabou por aproximá-lo do modelo cubano de miséria, repressão e dependência estatal.

La Guaira tornou-se símbolo desse colapso porque abriga conjuntos populares erguidos durante a bonança petroleira do governo de Hugo Chávez. Naquele período, a PDVSA, estatal venezuelana do petróleo, foi transformada em fonte inesgotável de recursos para sustentar o projeto revolucionário bolivariano. As moradias foram levantadas às pressas pela ditadura, sem respeito adequado a padrões técnicos. Quem apontava riscos, falhas ou improvisos era imediatamente enquadrado como “inimigo do povo”. Agora, entre os destroços desses prédios, estão milhares de venezuelanos pobres a quem o “socialismo do século 21” prometeu salvação.

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A desmoralização do chavismo, a rigor, não dependia de um terremoto. A Venezuela, dona das maiores reservas provadas de petróleo do planeta, foi convertida em quase três décadas num país quebrado. A economia encolheu violentamente depois que o modelo de captura do Estado criado por Chávez e aprofundado por Nicolás Maduro mostrou toda a sua capacidade destrutiva. Em 2012, um ano antes da chegada de Maduro ao poder, o PIB per capita venezuelano era de US$ 12.607. Em 2020, havia despencado para US$ 1.506. Naquele ano, o país atingiu o fundo do poço, com retração estimada de 30% do PIB, queda raríssima em tempos de paz.

O esvaziamento do Estado venezuelano, corroído pela rapina bolivariana, apareceu de maneira dramática na incapacidade de resposta aos terremotos de junho. As imagens de civis cavando escombros com as próprias mãos, tentando localizar sobreviventes e enterrando seus mortos sem apoio suficiente do poder público, ficarão como retrato de um governo que não conseguiu oferecer socorro mínimo à própria população.

A tragédia escancarou os resultados de anos de corrupção e ausência de planejamento. Faltaram equipamentos adequados aos bombeiros. Hospitais já fragilizados entraram em colapso. Prédios ruíram porque suas estruturas não foram fiscalizadas como deveriam. O dinheiro necessário para sustentar uma rede estatal capaz de prevenir, fiscalizar, atender e reconstruir foi drenado para abastecer a engrenagem política do chavismo.

É essa engrenagem que a presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, parece mais interessada em preservar. Sua prioridade tem sido conter a inquietação social provocada pela tragédia, não mobilizar o Estado para amparar as milhares de vítimas. Há relatos de militares, parte inseparável do regime, reprimindo voluntários em vez de ajudá-los. A reação popular apareceu de forma clara quando Delcy foi vaiada em visita recente a uma das áreas atingidas.

A Venezuela atravessa uma transição política relevante desde janeiro, quando os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro sob o pretexto de levá-lo a julgamento por tráfico de drogas. No lugar do ditador, o governo americano instalou Delcy, até então vice-presidente, e passou a exercer tutela explícita sobre ela. Não se trata de restauração democrática. Ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não interessa reconduzir a Venezuela ao regime de liberdades. O objetivo é transformar o país em vassalo americano e controlar suas riquezas naturais, principalmente o petróleo.

Delcy, por sua vez, não demonstra qualquer disposição de desmontar o aparato de repressão e controle herdado do chavismo. Ao contrário, aceita com entusiasmo o papel de fantoche dos Estados Unidos porque também alimenta ambições próprias dentro da história bolivariana. A retomada dos investimentos no setor petroleiro, determinada por Washington, parecia sustentar esse arranjo. Até que os terremotos vieram abaixo com La Guaira e, junto com os prédios, derrubaram sem piedade a fantasia do bolivarianismo.