A entrevista exclusiva concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao AGORA RN produziu um dos movimentos políticos mais relevantes da pré-campanha no Estado. Ao declarar que o ex-secretário da Fazenda Cadu Xavier (PT) “tem todas as condições de dar continuidade ao trabalho que vem sendo conduzido pela companheira Fátima Bezerra”, Lula não apenas oficializou seu apoio ao pré-candidato petista, como também definiu o eixo central da campanha governista: a defesa da continuidade da atual gestão estadual.
A estratégia, porém, abre espaço para interpretações distintas. De um lado, reforça a identidade política de Cadu, elimina dúvidas sobre quem representa o “Time de Lula” no Rio Grande do Norte e consolida sua vinculação ao governo federal e ao grupo liderado por Fátima. O presidente não poderia apresentar outro discurso em relação ao candidato do próprio partido, ainda mais depois de o ex-secretário construir sua trajetória política como integrante do governo estadual.

Por outro lado, a associação direta com a gestão Fátima também expõe Cadu ao principal argumento explorado pela oposição. A governadora enfrenta elevados índices de rejeição e dificuldades em áreas sensíveis, como saúde e educação, fazendo com que a ideia de continuidade seja vista por parte do eleitorado como um fator de desgaste. Nesse cenário, a fala de Lula pode servir tanto para fortalecer a militância governista quanto para facilitar a narrativa dos adversários de que Cadu representa a manutenção do modelo administrativo atual.
O próprio Cadu nunca escondeu essa vinculação. Antes mesmo da declaração presidencial, já havia definido Fátima Bezerra como sua “grande inspiração” política e defendido o legado da gestão petista. Ao assumir publicamente essa mesma narrativa, Lula deixa claro que a disputa pelo Governo do Estado deverá girar, em boa medida, em torno de um plebiscito sobre os sete anos e meio da administração de Fátima Bezerra.
Pegou mal
Interlocutores do PT afirmam que não é bom o clima entre Rafael Motta e Samanda Alves, companheiros de chapa na corrida ao Senado. A coisa piorou depois de ontem, quando o ex-deputado foi barrado ao tentar subir no palco da cerimônia com Lula em Luís Gomes. Rafael só foi para o palanque depois que a solenidade tinha começado e após ser chamado publicamente pelo presidente, que deu bronca no cerimonial.
Violência
Em discurso no RN ontem, Lula citou o caso de Juliana Soares, que foi agredida pelo ex-namorado com 61 socos no elevador em Natal. Repudiou o episódio e defendeu o Pacto Brasil Contra o Feminicídio, articulado pela primeira-dama Janja da Silva. O presidente não comentou a agressão sofrida pela deputada Divaneide Basílio em um evento do PT semana passada justamente para marcar a adesão do RN ao pacto.
Honorários sob nova regra
A Assembleia Legislativa aprovou ontem novas regras para pagamento dos honorários advocatícios dos procuradores do Estado, para se adequar às limitações impostas pelo STF para os “penduricalhos” no serviço público. A lei estabelece que os honorários serão depositados em conta específica, administrada por um comitê gestor, com obrigação de prestar contas e divulgar informações em portal de transparência. A partir de agora, quando o pagamento ultrapassar o teto constitucional, o valor excedente não será perdido, mas ficará reservado para pagamento futuro, quando houver margem dentro do limite remuneratório.
Herança maldita
O anúncio da Prefeitura do Natal de que realizará um leilão reverso para negociar dívidas com fornecedores acerta em cheio o ex-prefeito Álvaro Dias (PL). Hoje pré-candidato ao Governo do Estado, Álvaro tem contestado relatórios oficiais e afirmado que deixou a Prefeitura em situação financeira confortável. Agora, a administração de Paulinho Freire (União) divulga que colocará em leilão R$ 260 milhões em dívidas com fornecedores geradas em gestões passadas. Isso só no primeiro edital.
Pesquisas
Caiu mais uma pesquisa no RN. Agora, a juíza Sulamita Pacheco, do TRE, suspendeu a divulgação de um levantamento, realizado pelo instituto Item e divulgado pela TV Ponta Negra. Desta vez, a razão para a derrubada do estudo foi o descumprimento da exigência de informar os bairros onde foram realizadas as entrevistas.
Desgaste institucional
A disputa pela vaga de desembargador transformou-se em um problema para a imagem do Tribunal de Justiça do RN. Depois de rejeitar a promoção do juiz Henrique Baltazar por 10 votos a 4 e eleger Alceu José Cicco para o cargo, o TJRN viu o Conselho Nacional de Justiça suspender os efeitos da decisão menos de 24 horas depois. Independentemente do mérito das acusações envolvendo Baltazar, a sucessão de idas e vindas transmite uma imagem de insegurança jurídica e de conflito interno.