O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, decidiu recorrer ao governo dos Estados Unidos para tentar se afastar da crise tarifária que atinge o Brasil. Em carta enviada ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, pediu que Washington não imponha novas tarifas ao País e prometeu, caso seja eleito, colocar sua “equipe de transição” à disposição da Casa Branca para discutir um “amplo acordo de comércio e investimentos”.
O gesto é grave. Na tentativa de se desvincular da punição comercial defendida por setores bolsonaristas, em especial por seu irmão Eduardo Bolsonaro, Flávio ofereceu aos americanos a chance de interferir em uma transição de governo brasileira. Se levada adiante, a proposta equivaleria a tratar o Brasil como dependência política dos Estados Unidos, não como uma nação soberana.

A Lei 10.609/2002, que regula a transição presidencial no Brasil, não deixa margem para improvisos desse tipo. O processo se dá entre o governo que encerra o mandato e o que assumirá o poder. Não há previsão, nem poderia haver, para participação de governo estrangeiro. A transição envolve informações estratégicas e sensíveis, como a situação das contas públicas, políticas em andamento ou em preparação e dados de inteligência. Trata-se de assunto interno do Estado brasileiro.
Já seria preocupante ver um postulante ao comando do País acenar com uma ilegalidade antes mesmo de disputar a eleição. Mas o caso vai além. A carta revela a visão de mundo do bolsonarismo, marcada por subordinação política aos Estados Unidos e por uma leitura estreita dos interesses nacionais.
O Brasil tem razões de sobra para manter uma relação forte, estável e produtiva com os americanos. São as duas maiores democracias das Américas, com vínculos econômicos, culturais e históricos antigos, desde o reconhecimento da independência brasileira. Nenhum projeto sério de governo deve desprezar a importância de Washington. O problema não está em negociar com os Estados Unidos. Está em negociar de joelhos.
A carta de Flávio a Rubio expõe exatamente esse risco. O texto não apresenta preocupação com assimetrias comerciais, mecanismos de proteção à indústria brasileira, salvaguardas ao agronegócio, ao mercado financeiro ou a setores estratégicos da economia nacional. O que aparece é uma disposição quase incondicional de atender aos interesses americanos, em linha com a postura servil que o clã Bolsonaro sempre demonstrou em relação aos EUA e, sobretudo, a Donald Trump.
A frase atribuída a Juracy Magalhães, embaixador brasileiro em Washington no governo Castello Branco, segundo a qual “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, pertence a outro tempo. Durante a Guerra Fria, sob uma ordem internacional muito diferente, o alinhamento automático podia ser apresentado como escolha estratégica. No século XXI, essa lógica é anacrônica.
O Brasil tem interesses que passam pela China, pela União Europeia, pela África, pela Ásia e pela América do Sul. Sua política externa deve obedecer aos princípios constitucionais e à defesa do interesse nacional, não à preferência pessoal de um governante por uma potência estrangeira. Substituir pragmatismo por devoção ideológica a Washington é retroceder seis décadas.
A relação com os Estados Unidos importa, e muito. Mas deve ser conduzida como relação entre dois Estados soberanos, cada um com seus interesses, não como extensão de afinidades políticas ou familiares. O que Flávio ofereceu a Marco Rubio não foi parceria. Foi submissão.
Há ainda a dimensão particular do bolsonarismo. O clã Bolsonaro nutre admiração quase religiosa por Trump. Ao mesmo tempo, o presidente americano tem influência sobre o destino de bolsonaristas que foram para os Estados Unidos para escapar de responsabilização no Brasil. Num eventual governo Flávio Bolsonaro, não é descabido temer que interesses familiares e políticos se misturem à condução da política externa.
O Brasil precisa de um chefe de Estado que compreenda a diferença entre alinhamento e vassalagem. Comércio internacional é disputa de interesses, não prova de lealdade pessoal. A parceria com os Estados Unidos deve ser relevante, madura e equilibrada. Jamais subordinada.