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Opinião

O dinheiro é o coração do PCC

Bloqueio financeiro imposto pelos Estados Unidos atinge estruturas de lavagem de dinheiro da facção e reforça a necessidade de cooperação internacional sem abrir mão da soberania nacional
Por O Correio de Hoje
03/07/2026 | 17:54

As sanções impostas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos a dois brasileiros, três empresas instaladas no Brasil e uma companhia portuguesa representam um avanço real no enfrentamento ao crime organizado. A medida mira suspeitas de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e tem valor concreto, ainda que persista a controvérsia política e conceitual em torno da decisão americana de classificar o PCC como “organização terrorista”. O ponto central é outro. Asfixiar financeiramente uma máfia interessa ao Brasil, aos Estados Unidos e a qualquer país ameaçado pela expansão transnacional do crime.

De acordo com o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), Victor Henrique de Oliveira Shimada teria lavado mais de US$ 30 milhões provenientes do tráfico de drogas por meio de criptomoedas compradas nos Estados Unidos e depois transferidas para o Brasil. Ele também é apontado como elo entre integrantes do PCC na Flórida e traficantes internacionais. A outra pessoa sancionada é Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Empresas vinculadas a ambos também entraram na lista. Com o bloqueio de bens e a proibição de negociações com cidadãos e companhias americanas, o governo dos EUA atingiu uma das engrenagens mais importantes da facção: o fluxo de dinheiro que permite ampliar negócios, comprar proteção e operar fora do território brasileiro.

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Não há novidade, entre especialistas em segurança pública, quanto à eficácia desse tipo de estratégia. Contra organizações de estrutura mafiosa, como PCC e Comando Vermelho, a prisão de chefes e a apreensão de armas e drogas são necessárias, mas insuficientes. Enquanto o dinheiro do crime segue circulando com aparência legal, a facção recompõe perdas, financia novas operações, corrompe agentes públicos e amplia sua presença em atividades formais. Cortar o dinheiro é cortar parte relevante de sua capacidade de sobrevivência.

As investigações que embasaram as sanções também tangenciam o caso VaideBet, que apura desvio de recursos ligados a um contrato de patrocínio do Corinthians. A Victory Trading, uma das empresas de Shimada, aparece como intermediária de valores que teriam sido repassados à UJ Football, também denunciada pelo Ministério Público de São Paulo. A conexão reforça uma constatação incômoda. O crime organizado já não se limita ao tráfico de drogas, ao domínio de territórios ou à intimidação armada. Ele busca espaço na economia formal, nas instituições e em setores populares e pouco fiscalizados, como o futebol.

Isso não elimina os riscos do instrumento usado por Washington. Sanções do Ofac partem do Executivo americano e não dependem de prévio controle judicial. Em tese, portanto, podem abrir margem a interferências políticas ou ao uso de mecanismos financeiros extremamente poderosos para finalidades diplomáticas indevidas. Não parece ser esse o caso agora, pois os indícios contra os sancionados são robustos e também documentados no Brasil. Ainda assim, em ano eleitoral e diante de uma relação tensa entre Brasília e Washington, convém que autoridades brasileiras e sociedade civil acompanhem com atenção eventuais sanções futuras.

O alerta vale igualmente para o sistema financeiro nacional. Bancos e demais instituições precisarão reforçar controles de compliance para evitar qualquer contato, mesmo indireto, com operações vinculadas ao PCC ou ao Comando Vermelho. Os grandes bancos brasileiros têm boa reputação internacional em mecanismos de controle, mas a designação das facções como “organizações terroristas” eleva o grau de exigência e o risco regulatório.

A reação do ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi correta ao reafirmar que a segurança pública no Brasil é responsabilidade do próprio Estado brasileiro e que a cooperação com os Estados Unidos deve se concentrar na troca de informações. A afirmação é óbvia, mas impõe consequência. Se a responsabilidade é nacional, o Brasil precisa exercê-la com mais vigor, atingindo o poder armado, financeiro e institucional das facções.

Combater PCC e Comando Vermelho exige protagonismo brasileiro, como expressão de soberania. Mas soberania não se confunde com isolamento. Parcerias internacionais baseadas em investigação séria, rastreamento financeiro e cooperação técnica são bem-vindas. O que não serve é transformar o enfrentamento ao crime em bravata eleitoral ou disputa retórica enquanto as facções seguem lavando dinheiro, ocupando espaços legais e ampliando seu poder.