A sociedade contemporânea vive um momento singular. Nunca se produziu, armazenou e compartilhou tantos dados quanto agora. Com a disseminação dos sistemas digitais, das plataformas de transparência, dos dashboards interativos e, mais recentemente, com a revolução provocada pela Inteligência Artificial, tornou-se inadmissível que a gestão pública continue a tomar decisões com base apenas em achismos, intuições ou conveniências políticas desprovidas de racionalidade técnica.
Tomar decisões com base em dados e evidências não é apenas uma boa prática de gestão — é um dever com a cidadania. A informação deixou de ser escassa: hoje, o desafio está em organizá-la, interpretá-la e utilizá-la de forma estratégica. Os governos, em todos os níveis, dispõem de ferramentas para isso. É preciso, no entanto, criar uma cultura institucional de uso sistemático dessas ferramentas, inclusive nas decisões discricionárias, aquelas em que a lei confere liberdade ao gestor para decidir com base na conveniência e oportunidade. Mesmo nesses casos, é imprescindível que se fundamente a escolha em elementos objetivos, voltados à maximização do interesse público.

Essa exigência se aplica também ao Legislativo. A formulação de projetos de lei não pode se dar apenas por demanda eleitoral, pressão de grupos específicos ou modismos. Políticas públicas eficazes nascem de diagnósticos bem feitos, análises de impacto e monitoramento de resultados. A ausência dessa base técnica leva a iniciativas inócuas ou contraproducentes, gerando desperdício de recursos e frustração social.
O Judiciário, por sua vez, ainda que limitado pela letra da lei, não pode desconsiderar os aspectos fáticos das causas sob julgamento. Decisões judiciais, especialmente em temas sensíveis como saúde, meio ambiente, educação e orçamento público, devem estar ancoradas em dados concretos, estudos técnicos e evidências científicas. Só assim se garante que a justiça seja não apenas formal, mas também substancial.
A administração pública do século XXI exige competências novas: além da sensibilidade social e do compromisso ético, é necessário saber interpretar indicadores, dialogar com bases de dados e tomar decisões informadas. Persistir no improviso, no voluntarismo ou na conveniência política descolada da realidade é uma prática anacrônica, ineficiente e, sobretudo, lesiva ao interesse coletivo.
O tempo do “achismo” passou. Governar bem hoje é decidir com inteligência, responsabilidade e compromisso com resultados mensuráveis. Essa é a nova régua pela qual a sociedade deve avaliar seus gestores e representantes.